Vivendo entre flores
13 de Dezembro de 2011, por Regina Coelho 0
Minha mãe adora flores, especialmente as rosas e as hortênsias. Considerando todas as espécies, afirma preferir apreciá-las em seus respectivos pés a vê-las espalhadas pela casa e com isso arrancadas ou apanhadas de onde nascem. Ainda assim não deixa de se alegrar quando alguém a presenteia com esses mimos. Sabedoras desse seu gosto, pessoas conhecidas ou mesmo os de casa acertam em cheio quando lhe enviam uma rosa. Além da alegria pelo presente em si, para ela isso é sinal de que aquela novena (sempre há uma em andamento) vai resultar na graça alcançada. Da turma que lhe manda exemplares variados da rainha das flores destaca-se dona Guaída do Joãozinho Jacaré.
Fui encontrá-la em sua casa, que identifiquei de imediato pela presença abundante de plantas logo na entrada. Acertei com ela uma conversa para a produção da presente matéria, não sem antes dar uma volta pelo quintal com o objetivo de ser apresentada às suas flores. Ganhei de sua zelosa cuidadora uma rosa vermelha. Aliás, esse singelo gesto se repete em relação a “toda amiga” que a visita.
Conforme o combinado entre nós, reencontrei-me com dona Guaída. Prosa vai, prosa vem, ela me contou que tem 76 anos, é “devotíssima” de Santo Expedito e São Judas Tadeu e aprendeu a rezar o terço da Imaculada Conceição com a avó, aos 4 anos. Doméstica, já trabalhou como lavadeira, também juntando lenha para vender e apanhando café em serviços contratados pelo Dr. Válter Bacarini e pelo Raul da dona Dalva.
Desde criança, dona Guaída já gostava de folhagens, mas uma cena presenciada por ela há quase 30 anos lhe valeu uma decisão. Era dia de Finados. Aconteceu que a Maria Melo havia levado até à porta do cemitério, aqui mesmo em Resende Costa, uma Kombi repleta de flores para vender. Tendo perdido mãe e pai pouco tempo antes daquele dia, dona Guaída encontrava-se naquela fase em que, segundo ela, as pessoas nessa situação buscam um pouco de conforto levando flores aos seus falecidos entes queridos. Como não tinha dinheiro para comprar as que eram oferecidas no carro, decidiu que a partir de então iria ela mesma cultivar suas plantas. Hoje, a condição de aposentada lhe permite a compra de uma muda para cada pagamento. Indo a São João del-Rei, é a mesma coisa. Quando poda suas roseiras, vai replantando-as. São umas 70 atualmente, cada uma com um tom único. “É igual noiva, não tem rosa feia”, afirma ela, poetando. E acrescenta: “Sou do signo de gêmeos, tudo meu tem que ser dois – duas roseiras iguais, duas folhagens também – só não quis dois maridos”.
E dessa forma simples e descontraída ela vai tocando a vida. Isso significa acordar bem cedinho e toda manhã olhar os pés de rosas, ver se eles estão com formigas ou mandruvás e regá-los quando é calor. Seus cuidados incluem ainda jogar esterco de gado neles e entulho, que as rosas adoram. E devem agradecer, suponho eu, pois são belas. Uma única vez elas correram risco de ficar sem os cuidados de dona Guaída, que gosta de conversar com suas plantas. Ela perdeu um filho e desencantou-se de tudo, mas, mesmo sofrendo, voltou para as roseiras, que “as coitadas não tinham culpa de nada”. Melhor assim para todos, inclusive para os santos da igreja quando são agraciados por flores cultivadas com tanta dedicação. Melhor também para nós. Em tempos de tanta brutalidade, é preciso fazer com que simples e necessárias ações de delicadeza se imponham e façam prevalecer o que temos de bom.
Em tempos também de Natal, fui buscar na figura risonha de dona Guaída a síntese dos mais nobres sentimentos experimentados pelo ser humano. Lembrando-lhe a proximidade do período natalino, ela me revelou que monta o seu presépio no cantinho da sala, no chão, com papel de embrulho tingido de tinta preta. Houve uma vez em que usou papel azul para simbolizar a água descendo da gruta. E não devem faltar suas plantas enfeitando tão representativo cenário.
“Depois dos meus filhos e amigos, elas são a minha vida”, responde sobre o que as flores representam para ela, Margarida Maria de Alacoque, uma flor de pessoa no nome e na alma.
Não posso deixar de agradecer à Tintinha da Dalila a ótima sugestão para que escrevesse sobre plantas. Isso depois de me garantir ter tido o privilégio de ver o momento exato de uma flor se abrindo. Como se pode ver, ela, dona Guaída, minha mãe e um mundo de gente formam uma parcela significativa da população que se curva embevecida à existência de uma flor.
Finalizando, recorro às palavras primorosas de Dom Hélder Câmara que assinalam também o último “Contemplando” deste ano. Até 2012!
“O importante não é viver muito ou viver pouco, mas realizar na vida o plano para o qual Deus nos criou. As rosas, a rigor, vivem um dia. Mas vivem plenamente porque realizam o destino de graça e beleza que vêm trazer à terra”.
Fui encontrá-la em sua casa, que identifiquei de imediato pela presença abundante de plantas logo na entrada. Acertei com ela uma conversa para a produção da presente matéria, não sem antes dar uma volta pelo quintal com o objetivo de ser apresentada às suas flores. Ganhei de sua zelosa cuidadora uma rosa vermelha. Aliás, esse singelo gesto se repete em relação a “toda amiga” que a visita.
Conforme o combinado entre nós, reencontrei-me com dona Guaída. Prosa vai, prosa vem, ela me contou que tem 76 anos, é “devotíssima” de Santo Expedito e São Judas Tadeu e aprendeu a rezar o terço da Imaculada Conceição com a avó, aos 4 anos. Doméstica, já trabalhou como lavadeira, também juntando lenha para vender e apanhando café em serviços contratados pelo Dr. Válter Bacarini e pelo Raul da dona Dalva.
Desde criança, dona Guaída já gostava de folhagens, mas uma cena presenciada por ela há quase 30 anos lhe valeu uma decisão. Era dia de Finados. Aconteceu que a Maria Melo havia levado até à porta do cemitério, aqui mesmo em Resende Costa, uma Kombi repleta de flores para vender. Tendo perdido mãe e pai pouco tempo antes daquele dia, dona Guaída encontrava-se naquela fase em que, segundo ela, as pessoas nessa situação buscam um pouco de conforto levando flores aos seus falecidos entes queridos. Como não tinha dinheiro para comprar as que eram oferecidas no carro, decidiu que a partir de então iria ela mesma cultivar suas plantas. Hoje, a condição de aposentada lhe permite a compra de uma muda para cada pagamento. Indo a São João del-Rei, é a mesma coisa. Quando poda suas roseiras, vai replantando-as. São umas 70 atualmente, cada uma com um tom único. “É igual noiva, não tem rosa feia”, afirma ela, poetando. E acrescenta: “Sou do signo de gêmeos, tudo meu tem que ser dois – duas roseiras iguais, duas folhagens também – só não quis dois maridos”.
E dessa forma simples e descontraída ela vai tocando a vida. Isso significa acordar bem cedinho e toda manhã olhar os pés de rosas, ver se eles estão com formigas ou mandruvás e regá-los quando é calor. Seus cuidados incluem ainda jogar esterco de gado neles e entulho, que as rosas adoram. E devem agradecer, suponho eu, pois são belas. Uma única vez elas correram risco de ficar sem os cuidados de dona Guaída, que gosta de conversar com suas plantas. Ela perdeu um filho e desencantou-se de tudo, mas, mesmo sofrendo, voltou para as roseiras, que “as coitadas não tinham culpa de nada”. Melhor assim para todos, inclusive para os santos da igreja quando são agraciados por flores cultivadas com tanta dedicação. Melhor também para nós. Em tempos de tanta brutalidade, é preciso fazer com que simples e necessárias ações de delicadeza se imponham e façam prevalecer o que temos de bom.
Em tempos também de Natal, fui buscar na figura risonha de dona Guaída a síntese dos mais nobres sentimentos experimentados pelo ser humano. Lembrando-lhe a proximidade do período natalino, ela me revelou que monta o seu presépio no cantinho da sala, no chão, com papel de embrulho tingido de tinta preta. Houve uma vez em que usou papel azul para simbolizar a água descendo da gruta. E não devem faltar suas plantas enfeitando tão representativo cenário.
“Depois dos meus filhos e amigos, elas são a minha vida”, responde sobre o que as flores representam para ela, Margarida Maria de Alacoque, uma flor de pessoa no nome e na alma.
Não posso deixar de agradecer à Tintinha da Dalila a ótima sugestão para que escrevesse sobre plantas. Isso depois de me garantir ter tido o privilégio de ver o momento exato de uma flor se abrindo. Como se pode ver, ela, dona Guaída, minha mãe e um mundo de gente formam uma parcela significativa da população que se curva embevecida à existência de uma flor.
Finalizando, recorro às palavras primorosas de Dom Hélder Câmara que assinalam também o último “Contemplando” deste ano. Até 2012!
“O importante não é viver muito ou viver pouco, mas realizar na vida o plano para o qual Deus nos criou. As rosas, a rigor, vivem um dia. Mas vivem plenamente porque realizam o destino de graça e beleza que vêm trazer à terra”.
A palavra escrita
11 de Novembro de 2011, por Regina Coelho 0
Considerando a escrita tradicional por meio do lápis ou caneta (principalmente) e a folha de papel, as pessoas estão escrevendo menos. O ato de escrever vem sendo superado pelo uso do computador, mas ainda há quem se mantenha fiel ao hábito de fazer suas anotações usando letra bem pessoal, muitas vezes inconfundível. E mais, há aqueles que se preocupam com a estética da letra, a chamada caligrafia, termo que, em sentido etimológico, significa letra bonita.
É evidente que a beleza dos traços da escrita chama a atenção de muita gente e pode render até emprego ou trabalho, como queiram, para os que se tornam calígrafos profissionais. Mas simplesmente ser possuidor de uma bela caligrafia (sem pleonasmo, já que o termo “caligrafia” pode significar somente letra) não é garantia de nada. Isso quer dizer que, intelectualmente falando, ninguém é superior ou inferior pelo desenho das letras que produz. Sigmund Freud, por exemplo, o pai da psicanálise, não se preocupava com a estética de seus manuscritos e foi um dos homens mais inteligentes que o mundo já viu. Da mesma forma, os chamados garranchos não podem refletir um nível avançado de inteligência.
Vista como uma característica individual, a letra passa a ser um problema quando é ilegível. Sabe-se que aqueles que não se fazem entender por palavras comprometem consideravelmente sua capacidade de comunicação. Em se tratando da palavra escrita, a situação só piora. O que vem prescrito em certas receitas médicas é quase indecifrável. O mesmo acontece em muitas provas e redações escolares. E o que não pode ser lido não é comunicado ou é comunicado de maneira indevida. E aí...
Estou me lembrando agora de um texto de Fernando Sabino, o “Macacos me mordam”, no qual um cientista de uma cidade do interior de Minas se vê às voltas com uma macacada que lhe fora enviada indevidamente. Como precisava fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado onde morava, recorreu aos préstimos de um colega residente em Manaus mandando-lhe o seguinte telegrama: “Obséquio providenciar 1 ou 2 macacos.”. Aconteceu que, em razão de um erro do telegrafista ao trocar “1 ou 2 macacos” por “1002 macacos”, o cientista mineiro acabou em apuros em razão da chegada de encomenda tão numerosa e saltitante.
Ficcionismo à parte, todas essas considerações me vieram à propósito de uma decisão tomada nos Estados Unidos relacionada à palavra escrita. Por deliberação do governo do estado de Indiana, as escolas ficam desobrigadas de ensinar a escrita cursiva (aquela em que as letras são emendadas umas nas outras), com a recomendação de que passem a se dedicar mais à digitação em teclados de computador. O mesmo deverá acontecer em outros estados americanos.
Em entrevista à VEJA, Mark Warschauer, professor da Universidade da Califórnia, afirma que “ter destreza no computador tornou-se um bem infinitamente mais valioso do que produzir uma boa letra”. E é verdade, mas pesquisas recentes na área da neurociência comprovam que a escrita de próprio punho provoca uma atividade significativamente mais intensa do que a da digitação na região dedicada ao processamento das informações armazenadas na memória, o que tem conexão direta com a elaboração e a expressão de ideias. É o que afirma matéria da citada revista. Segundo a mesma fonte, está provado também que o ato de escrever desencadeia ligações entre os neurônios na parte do cérebro que reconhece visualmente as palavras, o que contribui para a fluidez da leitura.
É impensável negar o valor e a força da tecnologia, aqui representada pelo computador, entre tantas funções, a de sucessor natural da máquina de datilografia. Não há também como deixar de reconhecer que tudo muda. Do registro escrito em pedra, pergaminho, papiro ou papel aos fantásticos computadores de mão, a história da humanidade é contada essencialmente graças à preservação da palavra escrita através dos tempos.
Entre todas as maneiras com que se constitui a escrita, destaca-se aquela que se constrói com traços únicos formando a nossa letra. E com todas as letras, é preciso dizer que, assim como o nome que assinamos, ela nos confere personalidade própria. E mais. Por trás das palavras que vamos desenhando no papel, levamos a expressão do pensamento e do sentimento aos próximos e distantes de nós no tempo e no espaço, com a identidade peculiar do que é escrito à mão.
É evidente que a beleza dos traços da escrita chama a atenção de muita gente e pode render até emprego ou trabalho, como queiram, para os que se tornam calígrafos profissionais. Mas simplesmente ser possuidor de uma bela caligrafia (sem pleonasmo, já que o termo “caligrafia” pode significar somente letra) não é garantia de nada. Isso quer dizer que, intelectualmente falando, ninguém é superior ou inferior pelo desenho das letras que produz. Sigmund Freud, por exemplo, o pai da psicanálise, não se preocupava com a estética de seus manuscritos e foi um dos homens mais inteligentes que o mundo já viu. Da mesma forma, os chamados garranchos não podem refletir um nível avançado de inteligência.
Vista como uma característica individual, a letra passa a ser um problema quando é ilegível. Sabe-se que aqueles que não se fazem entender por palavras comprometem consideravelmente sua capacidade de comunicação. Em se tratando da palavra escrita, a situação só piora. O que vem prescrito em certas receitas médicas é quase indecifrável. O mesmo acontece em muitas provas e redações escolares. E o que não pode ser lido não é comunicado ou é comunicado de maneira indevida. E aí...
Estou me lembrando agora de um texto de Fernando Sabino, o “Macacos me mordam”, no qual um cientista de uma cidade do interior de Minas se vê às voltas com uma macacada que lhe fora enviada indevidamente. Como precisava fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado onde morava, recorreu aos préstimos de um colega residente em Manaus mandando-lhe o seguinte telegrama: “Obséquio providenciar 1 ou 2 macacos.”. Aconteceu que, em razão de um erro do telegrafista ao trocar “1 ou 2 macacos” por “1002 macacos”, o cientista mineiro acabou em apuros em razão da chegada de encomenda tão numerosa e saltitante.
Ficcionismo à parte, todas essas considerações me vieram à propósito de uma decisão tomada nos Estados Unidos relacionada à palavra escrita. Por deliberação do governo do estado de Indiana, as escolas ficam desobrigadas de ensinar a escrita cursiva (aquela em que as letras são emendadas umas nas outras), com a recomendação de que passem a se dedicar mais à digitação em teclados de computador. O mesmo deverá acontecer em outros estados americanos.
Em entrevista à VEJA, Mark Warschauer, professor da Universidade da Califórnia, afirma que “ter destreza no computador tornou-se um bem infinitamente mais valioso do que produzir uma boa letra”. E é verdade, mas pesquisas recentes na área da neurociência comprovam que a escrita de próprio punho provoca uma atividade significativamente mais intensa do que a da digitação na região dedicada ao processamento das informações armazenadas na memória, o que tem conexão direta com a elaboração e a expressão de ideias. É o que afirma matéria da citada revista. Segundo a mesma fonte, está provado também que o ato de escrever desencadeia ligações entre os neurônios na parte do cérebro que reconhece visualmente as palavras, o que contribui para a fluidez da leitura.
É impensável negar o valor e a força da tecnologia, aqui representada pelo computador, entre tantas funções, a de sucessor natural da máquina de datilografia. Não há também como deixar de reconhecer que tudo muda. Do registro escrito em pedra, pergaminho, papiro ou papel aos fantásticos computadores de mão, a história da humanidade é contada essencialmente graças à preservação da palavra escrita através dos tempos.
Entre todas as maneiras com que se constitui a escrita, destaca-se aquela que se constrói com traços únicos formando a nossa letra. E com todas as letras, é preciso dizer que, assim como o nome que assinamos, ela nos confere personalidade própria. E mais. Por trás das palavras que vamos desenhando no papel, levamos a expressão do pensamento e do sentimento aos próximos e distantes de nós no tempo e no espaço, com a identidade peculiar do que é escrito à mão.
Olha o passarinho
11 de Outubro de 2011, por Regina Coelho 0
Uma viagem de passeio feita em julho deste ano me levou a observar a interessante relação que se estabelece entre a pessoa que está fazendo turismo e a sua máquina fotográfica. Um dos primeiros itens a ser incluído na bagagem (na minha, inclusive), esse acessório de viagem turística deveria deixar de ser assim considerado porque, na verdade, ele é indispensável para quase todo mundo nessa situação.
Antes de mais nada, preciso dizer que até eu, que nunca morri de amores por fotografias que tiravam de mim ou que eu mesma tirava, tomei um certo gosto pela coisa. Para quem tinha verdadeira aversão ao clique da máquina apontada para mim, mudei muito. Ou era mesmo falta de jeito para o “olha o passarinho!”, sei lá! Sei é que enquanto durou a minha fase, digamos assim, fotofóbica, dei conta de fugir de muitas fotos, até de algumas em que deveria aparecer. Reconheço isso hoje. Em razão desse antigo comportamento, não tenho o registro em foto de certos momentos propícios a isso, alguns até muito importantes para mim. Acontecia que na hora da pose não sabia simplesmente o que fazer. Onde coloco as mãos, meu Deus? Deixo o cabelo para trás ou é melhor jogá-lo para frente? Convém mostrar um leve sorriso ou não? Era um problema, agora felizmente superado.
Dito isto, voltemos ao turista e sua sempre presente câmera fotográfica, o que, de cara, já o identifica como tal. E tome fotografia! É incrível como praticamente tudo pode lhe servir de motivo para uma clicada a mais. Fotos em frente a fachadas ou monumentos famosos, ah, isso todo mundo faz. Mas já vi gente fotografando, por exemplo, uma fruta exótica exposta em banca, vitrine de rua ou no café da manhã, isso quando não é fotografada a própria mesa do café. Uma determinada porta diferente de hotel, uma espreguiçadeira bem prática da praia ou mesmo aquela fontezinha luminosa toda charmosa merecem uma foto. É que a gente pode querer fazer igual alguma delas um dia. Tem aquele tipo que não perde a oportunidade de registrar toda e qualquer manifestação popular. Pode ser uma banda passando, um sujeito vestido em trajes extravagantes ou um garoto escalando um coqueiro altíssimo.
Nesse afã todo em busca da melhor imagem, vale quase tudo, desde esticar o braço até as alturas para alcançar o objeto a ser fotografado, deitar-se no chão e captar determinado teto maravilhoso, até escalar um ponto bem alto e perigoso e de lá conseguir o lugar ideal para mais uma fotografia digna talvez de premiação. Se possível, é preciso tirar várias fotos do alvo escolhido, sob todos os ângulos. Vai que a pessoa perde algum detalhe e aí... É melhor se garantir com mais um clique.
Passado o momento da viagem, vem a ansiedade para mostrar aos mais próximos (ou não, quando o material é jogado no computador) o que foi o passeio. Nessa hora, fica claro que certas fotos ou quase todas simplesmente não interessam a eles. Francamente falando, algumas delas não fazem tanto sentido nem para o seu próprio dono. A propósito, minha amiga Popó tem uma teoria bacana sobre isso. Segundo ela, vale o sentimento da gente na hora da foto. O que a gente teve vontade de expressar através daquela imagem. Concordo inteiramente com ela.
Outro aspecto que me chama a atenção nessa ligação do turista com a sua câmera é a maneira como ele se posiciona para as fotos. É engraçado observar como cada um se comporta. Os mais jovens, normalmente, gostam de mostrar a irreverência típica da idade. Aparecem sempre muito alegres, mostram dentes, às vezes língua, aparelho ortodôntico, piercings e tatuagens. Fazem gestos largos e, se a foto é de turma, é difícil saber quem é o mais animado, a julgar pela expressão facial. Entre as meninas, parece que é tendência atual ficar de perfil. Já as pessoas mais maduras são mais contidas. Algumas se mostram até travadas, parecendo estátuas. Há quem fique com semblante até triste naquele instante só de alegria.
Drama mesmo acontece quando o turista perde a sua quase inseparável companheira de viagem num raro momento de distração em relação a ela. Isso pode significar o fim para ele. Voltar para casa sem ela e, consequentemente, sem o material produzido com tanto empenho e satisfação deve ser muito desagradável.
Uma observação final: não usei o termo “retrato” uma única vez. Hoje tiramos fotos, não mais retratos, não é mesmo? Seja lá como for, o importante é poder guardar com a gente os bons momentos dos passeios. Do dia a dia também, que eles podem ser igualmente inesquecíveis.
Antes de mais nada, preciso dizer que até eu, que nunca morri de amores por fotografias que tiravam de mim ou que eu mesma tirava, tomei um certo gosto pela coisa. Para quem tinha verdadeira aversão ao clique da máquina apontada para mim, mudei muito. Ou era mesmo falta de jeito para o “olha o passarinho!”, sei lá! Sei é que enquanto durou a minha fase, digamos assim, fotofóbica, dei conta de fugir de muitas fotos, até de algumas em que deveria aparecer. Reconheço isso hoje. Em razão desse antigo comportamento, não tenho o registro em foto de certos momentos propícios a isso, alguns até muito importantes para mim. Acontecia que na hora da pose não sabia simplesmente o que fazer. Onde coloco as mãos, meu Deus? Deixo o cabelo para trás ou é melhor jogá-lo para frente? Convém mostrar um leve sorriso ou não? Era um problema, agora felizmente superado.
Dito isto, voltemos ao turista e sua sempre presente câmera fotográfica, o que, de cara, já o identifica como tal. E tome fotografia! É incrível como praticamente tudo pode lhe servir de motivo para uma clicada a mais. Fotos em frente a fachadas ou monumentos famosos, ah, isso todo mundo faz. Mas já vi gente fotografando, por exemplo, uma fruta exótica exposta em banca, vitrine de rua ou no café da manhã, isso quando não é fotografada a própria mesa do café. Uma determinada porta diferente de hotel, uma espreguiçadeira bem prática da praia ou mesmo aquela fontezinha luminosa toda charmosa merecem uma foto. É que a gente pode querer fazer igual alguma delas um dia. Tem aquele tipo que não perde a oportunidade de registrar toda e qualquer manifestação popular. Pode ser uma banda passando, um sujeito vestido em trajes extravagantes ou um garoto escalando um coqueiro altíssimo.
Nesse afã todo em busca da melhor imagem, vale quase tudo, desde esticar o braço até as alturas para alcançar o objeto a ser fotografado, deitar-se no chão e captar determinado teto maravilhoso, até escalar um ponto bem alto e perigoso e de lá conseguir o lugar ideal para mais uma fotografia digna talvez de premiação. Se possível, é preciso tirar várias fotos do alvo escolhido, sob todos os ângulos. Vai que a pessoa perde algum detalhe e aí... É melhor se garantir com mais um clique.
Passado o momento da viagem, vem a ansiedade para mostrar aos mais próximos (ou não, quando o material é jogado no computador) o que foi o passeio. Nessa hora, fica claro que certas fotos ou quase todas simplesmente não interessam a eles. Francamente falando, algumas delas não fazem tanto sentido nem para o seu próprio dono. A propósito, minha amiga Popó tem uma teoria bacana sobre isso. Segundo ela, vale o sentimento da gente na hora da foto. O que a gente teve vontade de expressar através daquela imagem. Concordo inteiramente com ela.
Outro aspecto que me chama a atenção nessa ligação do turista com a sua câmera é a maneira como ele se posiciona para as fotos. É engraçado observar como cada um se comporta. Os mais jovens, normalmente, gostam de mostrar a irreverência típica da idade. Aparecem sempre muito alegres, mostram dentes, às vezes língua, aparelho ortodôntico, piercings e tatuagens. Fazem gestos largos e, se a foto é de turma, é difícil saber quem é o mais animado, a julgar pela expressão facial. Entre as meninas, parece que é tendência atual ficar de perfil. Já as pessoas mais maduras são mais contidas. Algumas se mostram até travadas, parecendo estátuas. Há quem fique com semblante até triste naquele instante só de alegria.
Drama mesmo acontece quando o turista perde a sua quase inseparável companheira de viagem num raro momento de distração em relação a ela. Isso pode significar o fim para ele. Voltar para casa sem ela e, consequentemente, sem o material produzido com tanto empenho e satisfação deve ser muito desagradável.
Uma observação final: não usei o termo “retrato” uma única vez. Hoje tiramos fotos, não mais retratos, não é mesmo? Seja lá como for, o importante é poder guardar com a gente os bons momentos dos passeios. Do dia a dia também, que eles podem ser igualmente inesquecíveis.
Irmã Maria Geralda
13 de Setembro de 2011, por Regina Coelho 0

Irmã Maria Geralda celebrou 50 anos de vida religiosa
Pessoas como a irmã Maria Geralda Resende, religiosa do Bom Pastor, são a perfeita tradução do que escreveu um dia o poeta alemão Bertolt Brecht sobre aqueles que lutam a vida toda – esses são os imprescindíveis.
Assim é a prima Maria Geralda. Sempre tive conhecimento de seu trabalho firme e corajoso junto aos marginalizados, o que é motivo de orgulho para a família e inspiração para esta coluna, quando se comemora o Jubileu de Ouro religioso dessa admirável resende-costense. Por solicitação minha recebi dela o seguinte testemunho:
Meu Jubileu de Ouro
“Sou a Ir. Maria Geralda Resende, nasci em Resende Costa, MG, a mais velha de oito irmãos. Meus pais, Vera e Alcindo, ela, professora e ele, escrivão da Coletoria Federal, católicos praticantes, me ensinaram desde cedo a amar Jesus e a Eucaristia. Fiz parte da Cruzada Eucarística e no dia em que completei seis anos, entre meus pais, fiz minha Primeira Comunhão. Disseram-me que tudo que eu pedisse a Jesus nesse dia, Ele me concederia. Na minha cabeça de criança pedi a Ele que queria ser religiosa, ser toda d’Ele, mas, se quando crescesse, eu gostasse de outra coisa, que Ele estava dispensado de atender meu pedido. Fiz meu curso primário no Grupo Escolar Assis Resende e depois fui estudar com as Filhas da Caridade em São João del-Rei e Barbacena, onde em 1958 terminei o Curso Normal. Naquele ano, em abril, uma amiga pediu que eu a acompanhasse ao Instituto Bom Pastor, onde ela ia se encontrar com um salesiano, padre Bartolomeu Poli. Ao entrar na capela, foi como se um raio me atingisse e eu escutei bem forte: É aqui que eu te quero. Comecei a chorar e penso que naquela hora Deus me mudou, tomou posse de mim, cumpriu o que eu lhe tinha pedido aos seis anos. Entrei na capela chorando muito, e o padre, assustado, perguntou o que eu tinha. Disse-lhe que eu ia ser religiosa daquela congregação que nem conhecia ainda. Ele pediu que eu lhe procurasse depois de 15 dias, mas quis conhecer as Irmãs, e naquele dia escrevi uma carta à Madre Provincial pedindo-lhe para ingressar na congregação. A resposta só veio em agosto. Nesse período, fui catequista, filha de Maria e minha vida mudou totalmente. Perdi o interesse por filmes e bailes. Fiz minha profissão religiosa em 15 de agosto de 1961, e desde então sirvo ao Senhor trabalhando pelos mais pobres e marginalizados. Residi em várias cidades, fiz o ISPAC (Instituto Superior da Pastoral Catequética), com estágios na Penitenciária do Carandiru, em São Paulo, no tempo da ditadura e me especializei em catequese para adultos. Morei em várias cidades, sempre sabendo que estava no lugar certo, fazendo o que Jesus me pedia. Agora faço 50 anos de Vida Religiosa Consagrada. Como presente, Jesus me levou para conhecer Sua terra. Estou chegando da Terra Santa, encharcada de bênçãos e graças, vendo tudo colorido. Agradeço a todos que me ajudaram a chegar até aqui, e ofereço a cada um meu Jubileu de Ouro. À minha família, congregação, amigos, às pessoas que por mim passaram, aos pobres, às mulheres prostituídas, aos jovens, aos presos, a todos que fizeram parte da minha vida, deixo aqui o meu agradecimento”.
Rumo a São Sebastião
Lilia Lara
Integrei-me à comitiva familiar em Barbacena. No dia 13 de agosto último, seguimos para São Sebastião (SP) com o objetivo de participar da festa dos 50 anos de vida religiosa de minha sobrinha. Ficamos hospedados numa pousada das Irmãzinhas do Coração Imaculado de Maria, um lugar tranquilo e com uma praia “particular”, pois o quintal da pousada dá para a praia. Não podíamos desperdiçar aquela dádiva de Deus – o mar todo por nossa conta. Aliás, a mineirada, quando avistou aquele mundão de água, a criançada principalmente, começou a gritar: ao mar! ao mar! “ao mário!” Foi divertido.
Dia 15, participamos de um almoço oferecido aos familiares da Irmã Maria Geralda, padres e religiosas. À noite, o momento mais importante: a celebração da missa festiva presidida pelo padre Zezinho, amigo e companheiro de jornada da Irmã Maria Geralda. Guardo comigo em especial uma cena emocionante: a homenageada caminhando pelo centro da igreja, de braço dado com sua mãe, minha irmã Vera, sempre altiva e serena, do alto de seus lúcidos 95 anos, orgulhosa da filha.
Durante a homilia, Padre Zezinho destacou a atuação incansável de nossa querida religiosa nas ruas e nos presídios para falar com os sofridos, encorajando-os e ajudando-os a uma vida melhor. Em seguida, o ponto máximo da solenidade: Irmã Maria Geralda renovou seus votos e cantou uma bela consagração. Ao final da missa, recebemos uma bênção especial ao som da consagrada música que exalta o valor da família, com a interpretação de seu próprio autor.
A programação culminou com um coquetel, e apresentação de um vídeo sobre a vida de Irmã Maria Geralda contendo imagens inclusive de Resende Costa, cidade que a viu nascer para, a exemplo de sua inspiradora, Santa Eufrásia, seguir as pegadas do Bom Pastor.
Assim é a prima Maria Geralda. Sempre tive conhecimento de seu trabalho firme e corajoso junto aos marginalizados, o que é motivo de orgulho para a família e inspiração para esta coluna, quando se comemora o Jubileu de Ouro religioso dessa admirável resende-costense. Por solicitação minha recebi dela o seguinte testemunho:
Meu Jubileu de Ouro
“Sou a Ir. Maria Geralda Resende, nasci em Resende Costa, MG, a mais velha de oito irmãos. Meus pais, Vera e Alcindo, ela, professora e ele, escrivão da Coletoria Federal, católicos praticantes, me ensinaram desde cedo a amar Jesus e a Eucaristia. Fiz parte da Cruzada Eucarística e no dia em que completei seis anos, entre meus pais, fiz minha Primeira Comunhão. Disseram-me que tudo que eu pedisse a Jesus nesse dia, Ele me concederia. Na minha cabeça de criança pedi a Ele que queria ser religiosa, ser toda d’Ele, mas, se quando crescesse, eu gostasse de outra coisa, que Ele estava dispensado de atender meu pedido. Fiz meu curso primário no Grupo Escolar Assis Resende e depois fui estudar com as Filhas da Caridade em São João del-Rei e Barbacena, onde em 1958 terminei o Curso Normal. Naquele ano, em abril, uma amiga pediu que eu a acompanhasse ao Instituto Bom Pastor, onde ela ia se encontrar com um salesiano, padre Bartolomeu Poli. Ao entrar na capela, foi como se um raio me atingisse e eu escutei bem forte: É aqui que eu te quero. Comecei a chorar e penso que naquela hora Deus me mudou, tomou posse de mim, cumpriu o que eu lhe tinha pedido aos seis anos. Entrei na capela chorando muito, e o padre, assustado, perguntou o que eu tinha. Disse-lhe que eu ia ser religiosa daquela congregação que nem conhecia ainda. Ele pediu que eu lhe procurasse depois de 15 dias, mas quis conhecer as Irmãs, e naquele dia escrevi uma carta à Madre Provincial pedindo-lhe para ingressar na congregação. A resposta só veio em agosto. Nesse período, fui catequista, filha de Maria e minha vida mudou totalmente. Perdi o interesse por filmes e bailes. Fiz minha profissão religiosa em 15 de agosto de 1961, e desde então sirvo ao Senhor trabalhando pelos mais pobres e marginalizados. Residi em várias cidades, fiz o ISPAC (Instituto Superior da Pastoral Catequética), com estágios na Penitenciária do Carandiru, em São Paulo, no tempo da ditadura e me especializei em catequese para adultos. Morei em várias cidades, sempre sabendo que estava no lugar certo, fazendo o que Jesus me pedia. Agora faço 50 anos de Vida Religiosa Consagrada. Como presente, Jesus me levou para conhecer Sua terra. Estou chegando da Terra Santa, encharcada de bênçãos e graças, vendo tudo colorido. Agradeço a todos que me ajudaram a chegar até aqui, e ofereço a cada um meu Jubileu de Ouro. À minha família, congregação, amigos, às pessoas que por mim passaram, aos pobres, às mulheres prostituídas, aos jovens, aos presos, a todos que fizeram parte da minha vida, deixo aqui o meu agradecimento”.
Rumo a São Sebastião
Lilia Lara
Integrei-me à comitiva familiar em Barbacena. No dia 13 de agosto último, seguimos para São Sebastião (SP) com o objetivo de participar da festa dos 50 anos de vida religiosa de minha sobrinha. Ficamos hospedados numa pousada das Irmãzinhas do Coração Imaculado de Maria, um lugar tranquilo e com uma praia “particular”, pois o quintal da pousada dá para a praia. Não podíamos desperdiçar aquela dádiva de Deus – o mar todo por nossa conta. Aliás, a mineirada, quando avistou aquele mundão de água, a criançada principalmente, começou a gritar: ao mar! ao mar! “ao mário!” Foi divertido.
Dia 15, participamos de um almoço oferecido aos familiares da Irmã Maria Geralda, padres e religiosas. À noite, o momento mais importante: a celebração da missa festiva presidida pelo padre Zezinho, amigo e companheiro de jornada da Irmã Maria Geralda. Guardo comigo em especial uma cena emocionante: a homenageada caminhando pelo centro da igreja, de braço dado com sua mãe, minha irmã Vera, sempre altiva e serena, do alto de seus lúcidos 95 anos, orgulhosa da filha.
Durante a homilia, Padre Zezinho destacou a atuação incansável de nossa querida religiosa nas ruas e nos presídios para falar com os sofridos, encorajando-os e ajudando-os a uma vida melhor. Em seguida, o ponto máximo da solenidade: Irmã Maria Geralda renovou seus votos e cantou uma bela consagração. Ao final da missa, recebemos uma bênção especial ao som da consagrada música que exalta o valor da família, com a interpretação de seu próprio autor.
A programação culminou com um coquetel, e apresentação de um vídeo sobre a vida de Irmã Maria Geralda contendo imagens inclusive de Resende Costa, cidade que a viu nascer para, a exemplo de sua inspiradora, Santa Eufrásia, seguir as pegadas do Bom Pastor.
Cidade limpa
17 de Agosto de 2011, por Regina Coelho 0
“O povo de fora parabeniza o povo de Resende Costa pela limpeza, mas ainda há gente que joga as coisas na rua”. Quem afirma isso é Hélio da Silva Resende, o Hélio do Nhonhô, 51 anos, há oito na função de gari da prefeitura, onde ingressou mediante concurso público há quase 18 anos. Para a falta de educação dos que jogam lixo no chão ele sugere lixeiras (hoje instaladas pela cidade), mas reconhece que as pessoas põem entulho nelas.
Pela manhã em caminhada habitual, sempre vejo com sua vassoura o Hélio cumprindo uma jornada de trabalho que começa bem cedo, às 4 horas. Certo dia, resolvi conversar com ele, precisamente depois de ouvi-lo comentar sobre os problemas de saúde (artrose nos joelhos e complicações nos tendões dos pés) que o afastaram, a contragosto, do serviço no caminhão de coleta de lixo.
Segundo Hélio, o trecho compreendido entre a casa do Lulu (filho do Antônio Magalhães) até o cruzeiro (do bairro Nova Brasília) e as praças da Rodoviária e da Várzea estão sob sua responsabilidade, sem contar o dia reservado aos cuidados com o campo do Expedicionários. Nesse trajeto diário, as luvas e as botinas são equipamento de proteção indispensável, no entanto, atualmente, ele usa tênis por considerar esse tipo de calçado mais leve. “Dá mais proteção”, afirma. Quando lhe pergunto sobre algum eventual acidente de trabalho, ele se lembra de ter batido com a cabeça numa grade de certa casa, pois teve que se esticar todo para pegar o lixo. Isso se deu nos tempos de serviço no caminhão. E já se cortou também com caco de vidro. O gari que elege a segunda-feira como o dia mais difícil de varrição pelo acúmulo natural de lixo revela nunca ter encontrado qualquer coisa valiosa ou curiosa no meio do que recolhe. Acha que o pior na sua atividade é pegar bicho morto, afirmando ser comum achar muito cachorro cheirando mal. “O resto tudo é bom porque a gente faz o serviço com amor”, ressalta ele sem deixar de afirmar que as pessoas, de um modo geral, valorizam seu trabalho e sentem sua falta no caminhão.
Um assunto puxa outro, não é mesmo? Assim, fica impossível não lembrar agora um episódio envolvendo a infeliz participação do jornalista Boris Casoy. Recordando. Num intervalo do Jornal da Band, edição do réveillon de 2009, foi levado ao ar um vídeo de dois garis desejando a todos boas festas. Casoy não havia percebido que o áudio ainda estava aberto e fez os seguintes comentários sobre os dois: “que merda... dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... dois lixeiros ... o mais baixo da escala do trabalho”. Falou besteira o jornalista. Isso sim é uma vergonha.
Voltando a falar do Hélio e, por extensão, da categoria que ele representa, é preciso dizer que, na verdade, esses trabalhadores nem sempre são respeitados pelo que fazem. Apesar de imprescindíveis para a manutenção da limpeza nas cidades, eles costumam parecer invisíveis aos olhos da sociedade, que muitas vezes consegue enxergá-los somente quando a sujeira se acumula nas ruas.
Papel de bala, bituca de cigarro, palito de fósforo e de picolé, anúncios, sacola plástica, chicletes, folhas secas... A exceção disso tudo fica com as folhas, que caem no chão naturalmente, mas o resto alguém simplesmente joga fora... das lixeiras, o que é lamentável. Entra em ação a turma da faxina para deixar a cidade com aspecto saudável, com o jeito que deve ter a casa da gente. E se somos de fato conhecidos por manter limpas nossas vias públicas, façamos todos por merecer tal distinção.
Para concluir, vai aqui uma curiosidade ou um pouco de cultura inútil, como queiram: o nome gari é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na organização do serviço de limpeza no Rio de Janeiro pelos idos de 1876. Vencido o contrato com o francês, os cariocas, acostumados com a limpeza das ruas após a passagem dos cavalos, mandavam chamar a turma do Gary. Aos poucos o nome se generalizou e até hoje esses profissionais são assim chamados.
Pela manhã em caminhada habitual, sempre vejo com sua vassoura o Hélio cumprindo uma jornada de trabalho que começa bem cedo, às 4 horas. Certo dia, resolvi conversar com ele, precisamente depois de ouvi-lo comentar sobre os problemas de saúde (artrose nos joelhos e complicações nos tendões dos pés) que o afastaram, a contragosto, do serviço no caminhão de coleta de lixo.
Segundo Hélio, o trecho compreendido entre a casa do Lulu (filho do Antônio Magalhães) até o cruzeiro (do bairro Nova Brasília) e as praças da Rodoviária e da Várzea estão sob sua responsabilidade, sem contar o dia reservado aos cuidados com o campo do Expedicionários. Nesse trajeto diário, as luvas e as botinas são equipamento de proteção indispensável, no entanto, atualmente, ele usa tênis por considerar esse tipo de calçado mais leve. “Dá mais proteção”, afirma. Quando lhe pergunto sobre algum eventual acidente de trabalho, ele se lembra de ter batido com a cabeça numa grade de certa casa, pois teve que se esticar todo para pegar o lixo. Isso se deu nos tempos de serviço no caminhão. E já se cortou também com caco de vidro. O gari que elege a segunda-feira como o dia mais difícil de varrição pelo acúmulo natural de lixo revela nunca ter encontrado qualquer coisa valiosa ou curiosa no meio do que recolhe. Acha que o pior na sua atividade é pegar bicho morto, afirmando ser comum achar muito cachorro cheirando mal. “O resto tudo é bom porque a gente faz o serviço com amor”, ressalta ele sem deixar de afirmar que as pessoas, de um modo geral, valorizam seu trabalho e sentem sua falta no caminhão.
Um assunto puxa outro, não é mesmo? Assim, fica impossível não lembrar agora um episódio envolvendo a infeliz participação do jornalista Boris Casoy. Recordando. Num intervalo do Jornal da Band, edição do réveillon de 2009, foi levado ao ar um vídeo de dois garis desejando a todos boas festas. Casoy não havia percebido que o áudio ainda estava aberto e fez os seguintes comentários sobre os dois: “que merda... dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... dois lixeiros ... o mais baixo da escala do trabalho”. Falou besteira o jornalista. Isso sim é uma vergonha.
Voltando a falar do Hélio e, por extensão, da categoria que ele representa, é preciso dizer que, na verdade, esses trabalhadores nem sempre são respeitados pelo que fazem. Apesar de imprescindíveis para a manutenção da limpeza nas cidades, eles costumam parecer invisíveis aos olhos da sociedade, que muitas vezes consegue enxergá-los somente quando a sujeira se acumula nas ruas.
Papel de bala, bituca de cigarro, palito de fósforo e de picolé, anúncios, sacola plástica, chicletes, folhas secas... A exceção disso tudo fica com as folhas, que caem no chão naturalmente, mas o resto alguém simplesmente joga fora... das lixeiras, o que é lamentável. Entra em ação a turma da faxina para deixar a cidade com aspecto saudável, com o jeito que deve ter a casa da gente. E se somos de fato conhecidos por manter limpas nossas vias públicas, façamos todos por merecer tal distinção.
Para concluir, vai aqui uma curiosidade ou um pouco de cultura inútil, como queiram: o nome gari é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na organização do serviço de limpeza no Rio de Janeiro pelos idos de 1876. Vencido o contrato com o francês, os cariocas, acostumados com a limpeza das ruas após a passagem dos cavalos, mandavam chamar a turma do Gary. Aos poucos o nome se generalizou e até hoje esses profissionais são assim chamados.