Cidade limpa
17 de Agosto de 2011, por Regina Coelho 0
“O povo de fora parabeniza o povo de Resende Costa pela limpeza, mas ainda há gente que joga as coisas na rua”. Quem afirma isso é Hélio da Silva Resende, o Hélio do Nhonhô, 51 anos, há oito na função de gari da prefeitura, onde ingressou mediante concurso público há quase 18 anos. Para a falta de educação dos que jogam lixo no chão ele sugere lixeiras (hoje instaladas pela cidade), mas reconhece que as pessoas põem entulho nelas.
Pela manhã em caminhada habitual, sempre vejo com sua vassoura o Hélio cumprindo uma jornada de trabalho que começa bem cedo, às 4 horas. Certo dia, resolvi conversar com ele, precisamente depois de ouvi-lo comentar sobre os problemas de saúde (artrose nos joelhos e complicações nos tendões dos pés) que o afastaram, a contragosto, do serviço no caminhão de coleta de lixo.
Segundo Hélio, o trecho compreendido entre a casa do Lulu (filho do Antônio Magalhães) até o cruzeiro (do bairro Nova Brasília) e as praças da Rodoviária e da Várzea estão sob sua responsabilidade, sem contar o dia reservado aos cuidados com o campo do Expedicionários. Nesse trajeto diário, as luvas e as botinas são equipamento de proteção indispensável, no entanto, atualmente, ele usa tênis por considerar esse tipo de calçado mais leve. “Dá mais proteção”, afirma. Quando lhe pergunto sobre algum eventual acidente de trabalho, ele se lembra de ter batido com a cabeça numa grade de certa casa, pois teve que se esticar todo para pegar o lixo. Isso se deu nos tempos de serviço no caminhão. E já se cortou também com caco de vidro. O gari que elege a segunda-feira como o dia mais difícil de varrição pelo acúmulo natural de lixo revela nunca ter encontrado qualquer coisa valiosa ou curiosa no meio do que recolhe. Acha que o pior na sua atividade é pegar bicho morto, afirmando ser comum achar muito cachorro cheirando mal. “O resto tudo é bom porque a gente faz o serviço com amor”, ressalta ele sem deixar de afirmar que as pessoas, de um modo geral, valorizam seu trabalho e sentem sua falta no caminhão.
Um assunto puxa outro, não é mesmo? Assim, fica impossível não lembrar agora um episódio envolvendo a infeliz participação do jornalista Boris Casoy. Recordando. Num intervalo do Jornal da Band, edição do réveillon de 2009, foi levado ao ar um vídeo de dois garis desejando a todos boas festas. Casoy não havia percebido que o áudio ainda estava aberto e fez os seguintes comentários sobre os dois: “que merda... dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... dois lixeiros ... o mais baixo da escala do trabalho”. Falou besteira o jornalista. Isso sim é uma vergonha.
Voltando a falar do Hélio e, por extensão, da categoria que ele representa, é preciso dizer que, na verdade, esses trabalhadores nem sempre são respeitados pelo que fazem. Apesar de imprescindíveis para a manutenção da limpeza nas cidades, eles costumam parecer invisíveis aos olhos da sociedade, que muitas vezes consegue enxergá-los somente quando a sujeira se acumula nas ruas.
Papel de bala, bituca de cigarro, palito de fósforo e de picolé, anúncios, sacola plástica, chicletes, folhas secas... A exceção disso tudo fica com as folhas, que caem no chão naturalmente, mas o resto alguém simplesmente joga fora... das lixeiras, o que é lamentável. Entra em ação a turma da faxina para deixar a cidade com aspecto saudável, com o jeito que deve ter a casa da gente. E se somos de fato conhecidos por manter limpas nossas vias públicas, façamos todos por merecer tal distinção.
Para concluir, vai aqui uma curiosidade ou um pouco de cultura inútil, como queiram: o nome gari é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na organização do serviço de limpeza no Rio de Janeiro pelos idos de 1876. Vencido o contrato com o francês, os cariocas, acostumados com a limpeza das ruas após a passagem dos cavalos, mandavam chamar a turma do Gary. Aos poucos o nome se generalizou e até hoje esses profissionais são assim chamados.
Pela manhã em caminhada habitual, sempre vejo com sua vassoura o Hélio cumprindo uma jornada de trabalho que começa bem cedo, às 4 horas. Certo dia, resolvi conversar com ele, precisamente depois de ouvi-lo comentar sobre os problemas de saúde (artrose nos joelhos e complicações nos tendões dos pés) que o afastaram, a contragosto, do serviço no caminhão de coleta de lixo.
Segundo Hélio, o trecho compreendido entre a casa do Lulu (filho do Antônio Magalhães) até o cruzeiro (do bairro Nova Brasília) e as praças da Rodoviária e da Várzea estão sob sua responsabilidade, sem contar o dia reservado aos cuidados com o campo do Expedicionários. Nesse trajeto diário, as luvas e as botinas são equipamento de proteção indispensável, no entanto, atualmente, ele usa tênis por considerar esse tipo de calçado mais leve. “Dá mais proteção”, afirma. Quando lhe pergunto sobre algum eventual acidente de trabalho, ele se lembra de ter batido com a cabeça numa grade de certa casa, pois teve que se esticar todo para pegar o lixo. Isso se deu nos tempos de serviço no caminhão. E já se cortou também com caco de vidro. O gari que elege a segunda-feira como o dia mais difícil de varrição pelo acúmulo natural de lixo revela nunca ter encontrado qualquer coisa valiosa ou curiosa no meio do que recolhe. Acha que o pior na sua atividade é pegar bicho morto, afirmando ser comum achar muito cachorro cheirando mal. “O resto tudo é bom porque a gente faz o serviço com amor”, ressalta ele sem deixar de afirmar que as pessoas, de um modo geral, valorizam seu trabalho e sentem sua falta no caminhão.
Um assunto puxa outro, não é mesmo? Assim, fica impossível não lembrar agora um episódio envolvendo a infeliz participação do jornalista Boris Casoy. Recordando. Num intervalo do Jornal da Band, edição do réveillon de 2009, foi levado ao ar um vídeo de dois garis desejando a todos boas festas. Casoy não havia percebido que o áudio ainda estava aberto e fez os seguintes comentários sobre os dois: “que merda... dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... dois lixeiros ... o mais baixo da escala do trabalho”. Falou besteira o jornalista. Isso sim é uma vergonha.
Voltando a falar do Hélio e, por extensão, da categoria que ele representa, é preciso dizer que, na verdade, esses trabalhadores nem sempre são respeitados pelo que fazem. Apesar de imprescindíveis para a manutenção da limpeza nas cidades, eles costumam parecer invisíveis aos olhos da sociedade, que muitas vezes consegue enxergá-los somente quando a sujeira se acumula nas ruas.
Papel de bala, bituca de cigarro, palito de fósforo e de picolé, anúncios, sacola plástica, chicletes, folhas secas... A exceção disso tudo fica com as folhas, que caem no chão naturalmente, mas o resto alguém simplesmente joga fora... das lixeiras, o que é lamentável. Entra em ação a turma da faxina para deixar a cidade com aspecto saudável, com o jeito que deve ter a casa da gente. E se somos de fato conhecidos por manter limpas nossas vias públicas, façamos todos por merecer tal distinção.
Para concluir, vai aqui uma curiosidade ou um pouco de cultura inútil, como queiram: o nome gari é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na organização do serviço de limpeza no Rio de Janeiro pelos idos de 1876. Vencido o contrato com o francês, os cariocas, acostumados com a limpeza das ruas após a passagem dos cavalos, mandavam chamar a turma do Gary. Aos poucos o nome se generalizou e até hoje esses profissionais são assim chamados.
O português em pauta
12 de Julho de 2011, por Regina Coelho 0
Tive vários excelentes alunos ao longo de minha carreira no magistério. Entre eles lembro agora, em especial, uma determinada menina cuja facilidade de aprendizagem era espantosa. Até aqui não há nada a estranhar, mas a partir de um episódio observado em sala de aula, passei a refletir mais profundamente sobre meu papel de professora de português. Eis o ocorrido.
Depois de inúmeras aulas sobre concordância verbal e também a nominal, durante as quais cada caso foi detalhadamente explicado e exemplificado, apliquei uma prova caprichada (sem maldade, é claro!) à turma daquela aluna mencionada no início do texto. O resultado? Da parte dela, nota máxima com louvor.
Mas... e daí? Desconsidera-se, nessa situação, o fato de que por não ser uma ciência exata o estudo de uma língua envolve certos detalhes, o que dificulta um pouco “fechar a prova”. Não se considera ainda a alegação de que “a Regina sempre acha alguma coisa para descontar algum décimo da gente”, diziam isso de mim muitas vezes. No caso em questão, ficou evidente para mim a grande dificuldade de ver a teoria se transformar em prática. Em outras palavras, a aluna que havia demonstrado na prova ter aprendido com brilhantismo as regras de concordância, inclusive as mais complexas, simplesmente não conseguia aplicar a mais elementar delas. Assim, estando o sujeito no plural, por exemplo, mesmo na ordem direta, era impossível para ela levar o verbo para o plural. Isso no convívio quase diário da sala de aula comigo e os colegas.
Devo dizer a vocês que esse caso me marcou. Mesmo levando em conta a força desfavorável do ambiente doméstico da menina ao uso do padrão linguístico, percebi que, como professora, precisava fazer alguma coisa para tornar a norma culta do português mais acessível a ela e a todos os outros alunos. Isso tudo sem desrespeitar o universo de cada um.
Essa história toda me veio à lembrança agora, quando se discute no país inteiro o livro Por uma vida melhor, ou o capítulo dele que supostamente defende o que se convencionou chamar de erros de português. O assunto já foi tratado com muita propriedade pelo Rosalvo aqui mesmo no JL da edição passada, no entanto, em atendimento a uma sugestão da direção do jornal, entro no mérito dessa questão.
Começo dizendo que não conheço o citado livro, mas conheço de sobra essa discussão, que nem é nova. Já há um bom tempo os conceitos de adequação e inadequação da linguagem substituíram o simplismo do certo e do errado nas aulas de português. Sabe-se que toda língua é um conjunto de variedades. Sendo assim, tomando por base os trechos da obra destacados pela mídia, vejo coerência no posicionamento da autora. Quando afirma que o falante tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião, ela tem toda razão. Quem é que informalmente não deixa de falar às vezes os livro, por exemplo?
Não se trata aqui de defender esse material didático. Percebo é um certo exagero na maneira como o assunto vem sendo tratado. Assassinato, massacre da língua portuguesa e inimigos de um bom português são apenas algumas das expressões que pincei de revistas e jornais como ilustração disso.
Em razão de tantos questionamentos sobre o ensino do português, como o que ocorre atualmente no Brasil, é preciso considerar que um bom profissional da área pode fazer toda a diferença. Constatar isso é afirmar que alunos bem orientados e preparados linguisticamente conseguem transitar com desenvoltura entre as mais diversas formas de comunicação verbal.
Sem negar a legitimidade das variantes que contrariam o que preconiza a norma culta, é necessário admitir a relevância do estudo formal da língua pátria, normalmente ministrado pelas instituições de ensino. Se grande parte delas falha nesse propósito, isso já comporta outras análises.
Voltando à discussão específica que deu origem à presente matéria, faço minhas as palavras de Cristovão Tezza, escritor e vencedor do prêmio Jabuti em 2008. Segundo Tezza,”não é função da escola controlar o que o aluno fala e sim dar a ele o domínio da língua escrita. À medida que ele vai consolidando a maneira como escreve, também vai mudando a estrutura da fala”.
E para terminar, é oportuno lembrar que existem questões muito mais sérias para atacar. Ou alguém julga aceitável, por exemplo, o analfabetismo funcional de tantos alunos em plena adolescência ou mesmo na fase adulta?
Depois de inúmeras aulas sobre concordância verbal e também a nominal, durante as quais cada caso foi detalhadamente explicado e exemplificado, apliquei uma prova caprichada (sem maldade, é claro!) à turma daquela aluna mencionada no início do texto. O resultado? Da parte dela, nota máxima com louvor.
Mas... e daí? Desconsidera-se, nessa situação, o fato de que por não ser uma ciência exata o estudo de uma língua envolve certos detalhes, o que dificulta um pouco “fechar a prova”. Não se considera ainda a alegação de que “a Regina sempre acha alguma coisa para descontar algum décimo da gente”, diziam isso de mim muitas vezes. No caso em questão, ficou evidente para mim a grande dificuldade de ver a teoria se transformar em prática. Em outras palavras, a aluna que havia demonstrado na prova ter aprendido com brilhantismo as regras de concordância, inclusive as mais complexas, simplesmente não conseguia aplicar a mais elementar delas. Assim, estando o sujeito no plural, por exemplo, mesmo na ordem direta, era impossível para ela levar o verbo para o plural. Isso no convívio quase diário da sala de aula comigo e os colegas.
Devo dizer a vocês que esse caso me marcou. Mesmo levando em conta a força desfavorável do ambiente doméstico da menina ao uso do padrão linguístico, percebi que, como professora, precisava fazer alguma coisa para tornar a norma culta do português mais acessível a ela e a todos os outros alunos. Isso tudo sem desrespeitar o universo de cada um.
Essa história toda me veio à lembrança agora, quando se discute no país inteiro o livro Por uma vida melhor, ou o capítulo dele que supostamente defende o que se convencionou chamar de erros de português. O assunto já foi tratado com muita propriedade pelo Rosalvo aqui mesmo no JL da edição passada, no entanto, em atendimento a uma sugestão da direção do jornal, entro no mérito dessa questão.
Começo dizendo que não conheço o citado livro, mas conheço de sobra essa discussão, que nem é nova. Já há um bom tempo os conceitos de adequação e inadequação da linguagem substituíram o simplismo do certo e do errado nas aulas de português. Sabe-se que toda língua é um conjunto de variedades. Sendo assim, tomando por base os trechos da obra destacados pela mídia, vejo coerência no posicionamento da autora. Quando afirma que o falante tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião, ela tem toda razão. Quem é que informalmente não deixa de falar às vezes os livro, por exemplo?
Não se trata aqui de defender esse material didático. Percebo é um certo exagero na maneira como o assunto vem sendo tratado. Assassinato, massacre da língua portuguesa e inimigos de um bom português são apenas algumas das expressões que pincei de revistas e jornais como ilustração disso.
Em razão de tantos questionamentos sobre o ensino do português, como o que ocorre atualmente no Brasil, é preciso considerar que um bom profissional da área pode fazer toda a diferença. Constatar isso é afirmar que alunos bem orientados e preparados linguisticamente conseguem transitar com desenvoltura entre as mais diversas formas de comunicação verbal.
Sem negar a legitimidade das variantes que contrariam o que preconiza a norma culta, é necessário admitir a relevância do estudo formal da língua pátria, normalmente ministrado pelas instituições de ensino. Se grande parte delas falha nesse propósito, isso já comporta outras análises.
Voltando à discussão específica que deu origem à presente matéria, faço minhas as palavras de Cristovão Tezza, escritor e vencedor do prêmio Jabuti em 2008. Segundo Tezza,”não é função da escola controlar o que o aluno fala e sim dar a ele o domínio da língua escrita. À medida que ele vai consolidando a maneira como escreve, também vai mudando a estrutura da fala”.
E para terminar, é oportuno lembrar que existem questões muito mais sérias para atacar. Ou alguém julga aceitável, por exemplo, o analfabetismo funcional de tantos alunos em plena adolescência ou mesmo na fase adulta?
Havia Resende Costa no caminho
16 de Junho de 2011, por Regina Coelho 0
Meu querido e saudoso pai gostava de dizer que lugar bom de viver é onde a gente ganha dinheiro. Falava isso entre nós, por convicção própria e como forma de encorajamento, sempre que alguém da família se mudava de Resende Costa por motivo de trabalho. Pela mesma ótica, mas seguindo sentido contrário, aqueles que aqui chegavam para morar e trabalhar estavam vindo para um bom lugar.
Gostar da terra natal é quase uma consequência natural, principalmente quando a gente também vive nela por um tempo ou o tempo todo. Diferente disso é adotar uma outra terra. E se os nascidos em Resende Costa se orgulham, na maioria das vezes, dessa sua condição, o que dizer dos que adotaram nossa cidade? E quem são eles? Certamente alguns de nossos vizinhos ou colegas de trabalho ou mesmo pais de amigos nossos. Ou simplesmente conhecidos ou não. De qualquer forma, são pessoas na vida de quem havia Resende Costa no caminho, para muitos, ao que parece, havia mesmo o destino definitivo. Falo de gente como a dona Edite do Beú e o Toninho da Cemig, entre tantos outros filhos adotivos da cidade.
Edite Morais Resende, 77 anos, é natural de Itaguara (MG) e chegou a Resende Costa em 1955, mudando-se para cá por haver se casado com um resende-costense (o Zé Beú do Nico Resende). Ao conhecer a cidade, foi logo gostando do lugar, pois revela ter sido bem recebida aqui. “A cidade era pequena, mas o povo era hospitaleiro e me senti em casa”, afirma a dona de casa, que também lecionou no então Grupo Escolar Assis Resende, atual Escola Estadual Assis Resende.
Diferentemente de dona Edite, o funcionário Antônio do Nascimento Ferreira já conhecia Resende Costa porque já tinha vindo aqui a trabalho pela CEMIG, ajudando o colega Malta. O 1º de março de 1966 ficou marcado como o dia em que ele aqui se estabeleceu, tendo vindo sozinho, de ônibus e transferido de Nova Era. “Já gostava de Resende Costa, uma cidade muito tranquila”, comenta o hoje aposentado eletricista, 71 anos.
Indagados sobre o que a cidade tem de melhor, dona Edite afirma ser o trabalho de artesanato porque dá emprego a várias pessoas. Antônio acha que Resende Costa continua sendo tranquila e também fica perto de São João del-Rei, sua terra de origem e onde reside sua família. Para ela o que há de pior aqui é a falta de lazer para crianças, jovens e adultos. Ele não vê nada de que não goste na cidade. Também não tem vontade de se mudar daqui um dia, pois já se considera um resende-costense e os filhos moram aqui. Dona Edite, da mesma forma, não se mudaria de Resende Costa, onde já se acostumou a viver e tem muitas amizades.
E o que a cidade representa para eles hoje?
Um lugar especial, como se eu tivesse nascido aqui, pois foi onde eduquei os meus filhos. E os que moram fora gostam de estar aqui sempre que podem. (Edite)
Quando aqui cheguei, Resende Costa era uma cidade bem pequena. Trabalhava sozinho, não tinha carro de trabalho, era tudo mais difícil. Aqui me casei, tive seis filhos e hoje tenho aqui meu lar. Adotei Resende Costa e fui adotado pela população daqui. Quem não conhece o Toninho da Cemig? Não passa pela minha cabeça sair daqui jamais, nem mesmo quando morrer. Passei a maior parte da minha vida aqui e hoje me considero resende-costense de coração. (Antônio)
Dos inconfidentes José de Resende Costa (pai e filho) às novíssimas gerações, Resende Costa é terra querida de todos que fazem dela um lugar sempre melhor de viver. Nascidos aqui ou chegados, somos resende-costenses de fato e de direito quando assumimos como nossa a quase centenária cidade das lajes e dos teares.
Registro aqui com alegria a homenagem da coluna a Resende Costa ao ensejo de seus 99 anos de emancipação política.
Em tempo- Ter escolhido dona Edite e o Toninho da Cemig como representantes dos resende-costenses adotivos significa dizer que, além do mérito pessoal, eles possuem, cada um a seu modo, uma longa e definitiva história de amor com Resende.
Gostar da terra natal é quase uma consequência natural, principalmente quando a gente também vive nela por um tempo ou o tempo todo. Diferente disso é adotar uma outra terra. E se os nascidos em Resende Costa se orgulham, na maioria das vezes, dessa sua condição, o que dizer dos que adotaram nossa cidade? E quem são eles? Certamente alguns de nossos vizinhos ou colegas de trabalho ou mesmo pais de amigos nossos. Ou simplesmente conhecidos ou não. De qualquer forma, são pessoas na vida de quem havia Resende Costa no caminho, para muitos, ao que parece, havia mesmo o destino definitivo. Falo de gente como a dona Edite do Beú e o Toninho da Cemig, entre tantos outros filhos adotivos da cidade.
Edite Morais Resende, 77 anos, é natural de Itaguara (MG) e chegou a Resende Costa em 1955, mudando-se para cá por haver se casado com um resende-costense (o Zé Beú do Nico Resende). Ao conhecer a cidade, foi logo gostando do lugar, pois revela ter sido bem recebida aqui. “A cidade era pequena, mas o povo era hospitaleiro e me senti em casa”, afirma a dona de casa, que também lecionou no então Grupo Escolar Assis Resende, atual Escola Estadual Assis Resende.
Diferentemente de dona Edite, o funcionário Antônio do Nascimento Ferreira já conhecia Resende Costa porque já tinha vindo aqui a trabalho pela CEMIG, ajudando o colega Malta. O 1º de março de 1966 ficou marcado como o dia em que ele aqui se estabeleceu, tendo vindo sozinho, de ônibus e transferido de Nova Era. “Já gostava de Resende Costa, uma cidade muito tranquila”, comenta o hoje aposentado eletricista, 71 anos.
Indagados sobre o que a cidade tem de melhor, dona Edite afirma ser o trabalho de artesanato porque dá emprego a várias pessoas. Antônio acha que Resende Costa continua sendo tranquila e também fica perto de São João del-Rei, sua terra de origem e onde reside sua família. Para ela o que há de pior aqui é a falta de lazer para crianças, jovens e adultos. Ele não vê nada de que não goste na cidade. Também não tem vontade de se mudar daqui um dia, pois já se considera um resende-costense e os filhos moram aqui. Dona Edite, da mesma forma, não se mudaria de Resende Costa, onde já se acostumou a viver e tem muitas amizades.
E o que a cidade representa para eles hoje?
Um lugar especial, como se eu tivesse nascido aqui, pois foi onde eduquei os meus filhos. E os que moram fora gostam de estar aqui sempre que podem. (Edite)
Quando aqui cheguei, Resende Costa era uma cidade bem pequena. Trabalhava sozinho, não tinha carro de trabalho, era tudo mais difícil. Aqui me casei, tive seis filhos e hoje tenho aqui meu lar. Adotei Resende Costa e fui adotado pela população daqui. Quem não conhece o Toninho da Cemig? Não passa pela minha cabeça sair daqui jamais, nem mesmo quando morrer. Passei a maior parte da minha vida aqui e hoje me considero resende-costense de coração. (Antônio)
Dos inconfidentes José de Resende Costa (pai e filho) às novíssimas gerações, Resende Costa é terra querida de todos que fazem dela um lugar sempre melhor de viver. Nascidos aqui ou chegados, somos resende-costenses de fato e de direito quando assumimos como nossa a quase centenária cidade das lajes e dos teares.
Registro aqui com alegria a homenagem da coluna a Resende Costa ao ensejo de seus 99 anos de emancipação política.
Em tempo- Ter escolhido dona Edite e o Toninho da Cemig como representantes dos resende-costenses adotivos significa dizer que, além do mérito pessoal, eles possuem, cada um a seu modo, uma longa e definitiva história de amor com Resende.
A mentira
08 de Maio de 2011, por Regina Coelho 0
Segundo a Wikipédia, há muitas explicações para o 1º de abril ter se transformado no “dia das mentiras” ou “dia dos bobos”. Uma delas diz que a brincadeira em que se transformou essa data surgiu na França. Desde o começo do século 16, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera na Europa. As festas duravam uma semana e terminavam em 1º de abril.
Em 1564, porém, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX determinou que o Ano Novo seria comemorado em 1º de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos para os resistentes ou convidá-los para festas que não existiam.
No Brasil, o 1º de abril começou a ser difundido com a circulação do periódico “A Mentira”, que teve vida efêmera e foi lançado em 1º de abril de 1848, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. O jornal saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia... 1º de abril de 1850, dando como referência um local inexistente.
Assim, de brincadeira em brincadeira, a tradição de pregar peças ou, nos termos de hoje, preparar pegadinhas aos mais distraídos, a data do dia da mentira se mantém ao longo dos anos. Entre tantas famosas, merece destaque uma em especial. O canal de televisão BBC apresentou em 1957 em seu programa “Panorama” uma reportagem falsa sobre árvores de espaguete. Acreditem ou não, mas consta que muitas pessoas interessaram-se em plantar esse tipo de árvore em suas propriedades.
E tome história mentirosa, quando o assunto envolve aqueles conhecidíssimos casos de pescadores. Dizem, por exemplo, que jamais se deve perguntar o tamanho e o peso de um peixe a quem o pescou, pois corre-se o risco de ouvir um relato mentiroso e muito divertido. Essas pessoas, viajantes por natureza, são famosas por produzir histórias incríveis, isso porque as pescarias geram fatos inesperados e inusitados que costumam alimentar a imaginação do narrador.
Na ficção literária, a questão da mentira é personificada através de Pinóquio, personagem criada pelo italiano Carlo Collodi em 1883 no romance “As aventuras de Pinóquio” e mais tarde levada às telas do cinema por Walt Disney. A história do boneco de madeira é exemplar. À medida que amadurece, ele vê o próprio nariz crescer com as mentiras e as orelhas tomarem o formato das de um burro depois que bebe e fuma, agora já chegando à adolescência. Mais didático que isso, impossível.
Na política, a mentira é uma prática comum. Há quem diga que os políticos mentem porque não conseguiriam ser eleitos dizendo somente a verdade, mostrando-se como são realmente. Alçados ao poder, quebram promessas, desculpam-se com novas mentiras e são até reeleitos. Há exceções, é claro, mas poucas.
Em se tratando de tema tão vasto como o tratado na presente coluna, inúmeras considerações não caberiam aqui agora. Apenas com o propósito de espairecer o espírito, fui buscar uma relação de frases tidas como mentirosas, e em algum momento, na ponta da língua de muita gente. Confiram: Pode deixar que eu te ligo. Quinta-feira sem falta o seu carro vai estar pronto. Pague a minha parte, que depois eu acerto com você. Eu só bebo socialmente. Estou te vendendo isso a preço de custo. Você está cada vez mais jovem. Estou sem troco, leve um chiclete. Não vou contar pra ninguém.
E há ainda aquelas frases bem típicas relacionadas a:
advogado: esse processo é rápido.
ambulante: qualquer coisa, volta aqui que a gente troca.
anfitrião: já vai? Ainda é cedo!
aniversariante: presente? Sua presença é o mais importante.
bêbado: sei perfeitamente o que estou dizendo.
corretor de imóveis: em seis meses, colocarão água, luz e telefone.
dentista: não vai doer nada.
desiludida: não quero mais saber de homem.
devedor: amanhã, sem falta!
encanador: é muita pressão que vem da rua.
gerente de banco: trabalhamos com as taxas mais baixas do mercado.
inimigo do morto: era um bom sujeito.
mecânico: é o carburador (ou a correia dentada).
muambeiro: tem garantia de fábrica.
orador: apenas duas palavras.
otimista: os últimos serão os primeiros.
peixeiro: pode levar freguesa, está fresquinho.
político: eu sempre trabalhei pelos pobres.
vagabundo: há três anos que procuro trabalho, mas não acho nada.
vendedor de sapato: depois alarga no pé.
Finalizando, é preciso dizer o que os especialistas do comportamento humano afirmariam ser uma verdade: é difícil admitir, mas todo mundo mente, alguns compulsivamente, outros eventualmente, por necessidades variadas, muitos por puro descaramento. Estou mentindo?
Em 1564, porém, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX determinou que o Ano Novo seria comemorado em 1º de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos para os resistentes ou convidá-los para festas que não existiam.
No Brasil, o 1º de abril começou a ser difundido com a circulação do periódico “A Mentira”, que teve vida efêmera e foi lançado em 1º de abril de 1848, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. O jornal saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia... 1º de abril de 1850, dando como referência um local inexistente.
Assim, de brincadeira em brincadeira, a tradição de pregar peças ou, nos termos de hoje, preparar pegadinhas aos mais distraídos, a data do dia da mentira se mantém ao longo dos anos. Entre tantas famosas, merece destaque uma em especial. O canal de televisão BBC apresentou em 1957 em seu programa “Panorama” uma reportagem falsa sobre árvores de espaguete. Acreditem ou não, mas consta que muitas pessoas interessaram-se em plantar esse tipo de árvore em suas propriedades.
E tome história mentirosa, quando o assunto envolve aqueles conhecidíssimos casos de pescadores. Dizem, por exemplo, que jamais se deve perguntar o tamanho e o peso de um peixe a quem o pescou, pois corre-se o risco de ouvir um relato mentiroso e muito divertido. Essas pessoas, viajantes por natureza, são famosas por produzir histórias incríveis, isso porque as pescarias geram fatos inesperados e inusitados que costumam alimentar a imaginação do narrador.
Na ficção literária, a questão da mentira é personificada através de Pinóquio, personagem criada pelo italiano Carlo Collodi em 1883 no romance “As aventuras de Pinóquio” e mais tarde levada às telas do cinema por Walt Disney. A história do boneco de madeira é exemplar. À medida que amadurece, ele vê o próprio nariz crescer com as mentiras e as orelhas tomarem o formato das de um burro depois que bebe e fuma, agora já chegando à adolescência. Mais didático que isso, impossível.
Na política, a mentira é uma prática comum. Há quem diga que os políticos mentem porque não conseguiriam ser eleitos dizendo somente a verdade, mostrando-se como são realmente. Alçados ao poder, quebram promessas, desculpam-se com novas mentiras e são até reeleitos. Há exceções, é claro, mas poucas.
Em se tratando de tema tão vasto como o tratado na presente coluna, inúmeras considerações não caberiam aqui agora. Apenas com o propósito de espairecer o espírito, fui buscar uma relação de frases tidas como mentirosas, e em algum momento, na ponta da língua de muita gente. Confiram: Pode deixar que eu te ligo. Quinta-feira sem falta o seu carro vai estar pronto. Pague a minha parte, que depois eu acerto com você. Eu só bebo socialmente. Estou te vendendo isso a preço de custo. Você está cada vez mais jovem. Estou sem troco, leve um chiclete. Não vou contar pra ninguém.
E há ainda aquelas frases bem típicas relacionadas a:
advogado: esse processo é rápido.
ambulante: qualquer coisa, volta aqui que a gente troca.
anfitrião: já vai? Ainda é cedo!
aniversariante: presente? Sua presença é o mais importante.
bêbado: sei perfeitamente o que estou dizendo.
corretor de imóveis: em seis meses, colocarão água, luz e telefone.
dentista: não vai doer nada.
desiludida: não quero mais saber de homem.
devedor: amanhã, sem falta!
encanador: é muita pressão que vem da rua.
gerente de banco: trabalhamos com as taxas mais baixas do mercado.
inimigo do morto: era um bom sujeito.
mecânico: é o carburador (ou a correia dentada).
muambeiro: tem garantia de fábrica.
orador: apenas duas palavras.
otimista: os últimos serão os primeiros.
peixeiro: pode levar freguesa, está fresquinho.
político: eu sempre trabalhei pelos pobres.
vagabundo: há três anos que procuro trabalho, mas não acho nada.
vendedor de sapato: depois alarga no pé.
Finalizando, é preciso dizer o que os especialistas do comportamento humano afirmariam ser uma verdade: é difícil admitir, mas todo mundo mente, alguns compulsivamente, outros eventualmente, por necessidades variadas, muitos por puro descaramento. Estou mentindo?
Escrevo-lhe esta carta...
14 de Marco de 2011, por Regina Coelho 0
Elas já foram a única maneira de alguém entrar em contato com quem estava longe. Levavam declarações de amor, desabafos, amenidades do cotidiano, revelações bombásticas, reflexões sobre a vida ou simplesmente notícias. Cumprindo seu fundamental objetivo de meio de comunicação, as cartas reinaram absolutas por muito tempo. E a distribuição da correspondência era sinônimo de festa em qualquer lugarejo do Brasil-Império. É fácil entender o porquê: as mensagens, transportadas em malas de couro, acomodadas sobre o lombo de burros, demoravam cerca de três meses para alcançar seu destino.
De lá para cá, muita coisa mudou: os malotes de cartas e afins não tardam tanto a chegar aos destinatários, mas perderam espaço para a comunicação via telefone – tanto o fixo quanto o celular – e a internet. Tanto isso é verdade que as correspondências trocadas exclusivamente entre pessoas físicas representam apenas 5% do volume movimentado diariamente pelos Correios em Minas, por exemplo. O percentual, apesar de baixo, corresponde a 175 mil envelopes transportados pela empresa, que, no ano passado, comemorou uma data especial: os 280 anos da primeira linha postal no Estado, criada em 29 de outubro de 1730.
Saindo um pouco do âmbito particular da troca de correspondência, é oportuno lembrar que as cartas estão presentes em pelo menos dois importantes capítulos da história brasileira. Em 1500, Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, escreveu uma longa e detalhada mensagem ao então Rei de Portugal, dom Manuel, informando-o sobre a recém “descoberta” (o termo é controverso) da Ilha de Vera Cruz (antigo nome do país).
Uma outra carta mudou o destino do país em sete de setembro de 1822. Às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, o mensageiro Paulo Bregaro (patrono dos carteiros) entregou a dom Pedro I uma correspondência assinada pela esposa do monarca, a imperatriz Maria Leopoldina, alertando-o sobre o interesse de Portugal em repatriá-lo e rebaixar o Brasil à categoria de colônia. A consequência disso foi o famoso brado de “Independência ou morte”.
Sem o caráter histórico das modalidades acima, mas igualmente necessárias, as cartas de amor são um destaque à parte. Urgentes, quase sempre melosas e muitas vezes perfumadas, elas embalaram muito namoro por aí. Segundo o poeta Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, “todas as cartas de amor são ridículas”. E continua ele: “não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Mas diante de tanto arrebatamento amoroso, ninguém se incomoda com isso. Hoje, para compensar as distâncias às vezes entre continentes, outras vezes, bem curtas, os apaixonados do momento preferem trocar mensagens tecnológicas por computador e telefone móvel. Se são de amor, devem continuar ridículas, mas e daí?
É impossível não mencionar as tão temidas e, na maioria das vezes, covardes cartas anônimas. Da mesma forma, não dá para deixar de mencionar as cartas que muitos suicidas escrevem com o peso e o desespero de uma atitude extrema. Carlos Drummond já se referiu a elas em seu poema “Mãos dadas”: “...não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, (...)”
A trajetória política brasileira registra a carta-testamento do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou em 24 de agosto de 1954, saindo da vida para entrar na história, como ele mesmo escrevera em trecho final de seu derradeiro texto: “Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história” (Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954 – Getúlio Vargas).
Bem mais amenas eram as trocas de cartas entre amigos e familiares. O prazer ou a necessidade de escrever nascia já na escolha das ferramentas para tal – o bloco especial de papel para cartas, a caneta, o envelope, o selo, até o momento de colocá-la no correio ou enviá-la por um portador de confiança (neste último caso, sem fechá-la com cola, constando na frente do envelope as iniciais P.E.F., indicativas de Por Especial Favor de quem levava aquela mensagem). Depois, era esperar a resposta, ler o que o outro havia escrito. Aquela sensação gostosa de abrir o envelope com cuidado para preservar o seu conteúdo!
Uma prática muito comum no meio literário brasileiro do século passado era a troca de correspondência entre os autores, material que rendeu a publicação póstuma em forma de muitos livros interessantes. Para os tempos frenéticos e cibernéticos de hoje pode parecer estranho saber, por exemplo, que de 1924 a 1945 Mário de Andrade e Drummond trocaram cartas, ocorrendo o mesmo entre Clarice Lispector e Fernando Sabino entre 1946 a 1969.
É preciso lembrar, finalmente, que muitas letras de músicas fazem alusão a esse agora antigo expediente de comunicação. Escolhi os versos iniciais de Mensagem, música cantada por Isaurinha Garcia, como registro de uma outra época e homenagem ao “seu” Zé Mendonça, saudoso portador de inúmeras cartas ansiosamente aguardadas por resende-costenses que assim se comunicavam com os de fora da cidade.
“Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão...”
De lá para cá, muita coisa mudou: os malotes de cartas e afins não tardam tanto a chegar aos destinatários, mas perderam espaço para a comunicação via telefone – tanto o fixo quanto o celular – e a internet. Tanto isso é verdade que as correspondências trocadas exclusivamente entre pessoas físicas representam apenas 5% do volume movimentado diariamente pelos Correios em Minas, por exemplo. O percentual, apesar de baixo, corresponde a 175 mil envelopes transportados pela empresa, que, no ano passado, comemorou uma data especial: os 280 anos da primeira linha postal no Estado, criada em 29 de outubro de 1730.
Saindo um pouco do âmbito particular da troca de correspondência, é oportuno lembrar que as cartas estão presentes em pelo menos dois importantes capítulos da história brasileira. Em 1500, Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, escreveu uma longa e detalhada mensagem ao então Rei de Portugal, dom Manuel, informando-o sobre a recém “descoberta” (o termo é controverso) da Ilha de Vera Cruz (antigo nome do país).
Uma outra carta mudou o destino do país em sete de setembro de 1822. Às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, o mensageiro Paulo Bregaro (patrono dos carteiros) entregou a dom Pedro I uma correspondência assinada pela esposa do monarca, a imperatriz Maria Leopoldina, alertando-o sobre o interesse de Portugal em repatriá-lo e rebaixar o Brasil à categoria de colônia. A consequência disso foi o famoso brado de “Independência ou morte”.
Sem o caráter histórico das modalidades acima, mas igualmente necessárias, as cartas de amor são um destaque à parte. Urgentes, quase sempre melosas e muitas vezes perfumadas, elas embalaram muito namoro por aí. Segundo o poeta Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, “todas as cartas de amor são ridículas”. E continua ele: “não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Mas diante de tanto arrebatamento amoroso, ninguém se incomoda com isso. Hoje, para compensar as distâncias às vezes entre continentes, outras vezes, bem curtas, os apaixonados do momento preferem trocar mensagens tecnológicas por computador e telefone móvel. Se são de amor, devem continuar ridículas, mas e daí?
É impossível não mencionar as tão temidas e, na maioria das vezes, covardes cartas anônimas. Da mesma forma, não dá para deixar de mencionar as cartas que muitos suicidas escrevem com o peso e o desespero de uma atitude extrema. Carlos Drummond já se referiu a elas em seu poema “Mãos dadas”: “...não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, (...)”
A trajetória política brasileira registra a carta-testamento do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou em 24 de agosto de 1954, saindo da vida para entrar na história, como ele mesmo escrevera em trecho final de seu derradeiro texto: “Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história” (Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954 – Getúlio Vargas).
Bem mais amenas eram as trocas de cartas entre amigos e familiares. O prazer ou a necessidade de escrever nascia já na escolha das ferramentas para tal – o bloco especial de papel para cartas, a caneta, o envelope, o selo, até o momento de colocá-la no correio ou enviá-la por um portador de confiança (neste último caso, sem fechá-la com cola, constando na frente do envelope as iniciais P.E.F., indicativas de Por Especial Favor de quem levava aquela mensagem). Depois, era esperar a resposta, ler o que o outro havia escrito. Aquela sensação gostosa de abrir o envelope com cuidado para preservar o seu conteúdo!
Uma prática muito comum no meio literário brasileiro do século passado era a troca de correspondência entre os autores, material que rendeu a publicação póstuma em forma de muitos livros interessantes. Para os tempos frenéticos e cibernéticos de hoje pode parecer estranho saber, por exemplo, que de 1924 a 1945 Mário de Andrade e Drummond trocaram cartas, ocorrendo o mesmo entre Clarice Lispector e Fernando Sabino entre 1946 a 1969.
É preciso lembrar, finalmente, que muitas letras de músicas fazem alusão a esse agora antigo expediente de comunicação. Escolhi os versos iniciais de Mensagem, música cantada por Isaurinha Garcia, como registro de uma outra época e homenagem ao “seu” Zé Mendonça, saudoso portador de inúmeras cartas ansiosamente aguardadas por resende-costenses que assim se comunicavam com os de fora da cidade.
“Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão...”