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Uma questão adjetiva

26 de Agosto de 2026, por Regina Coelho

Sabe-se que o substantivo nomeia o ser, que é tudo o que existe, ainda que só na imaginação, na ficção. E o adjetivo o qualifica, explica. Sem querer dar aula de português, pois este espaço não se presta a tal, quero é tecer alguns comentários sobre essas duas essenciais classes de palavras da língua portuguesa. Destaco aquela que hierarquicamente se posiciona em segundo plano pela dependência em relação à dos substantivos. Refiro-me, pois, à classe dos adjetivos. Etimologicamente, a palavra “adjetivo” tem origem no latim “adjectivus”, que significa “adicionado”, “lançado” ao lado do substantivo, que pode ser usado sozinho, sem seu coadjuvante adjetivo. Mas quem faz isso? E tome adjetivo em nossas falas!

Na prática, ao dar nome a coisas, sentimentos, lugares..., tratamos logo de caracterizá-los. Se falamos em “casa”, imediatamente pensamos ou falamos em como ela é. O mesmo acontece em se tratando de alguém, de algum lugar... Para tanto lançamos mão dos adjetivos (ou locuções adjetivas, a mesma coisa), termos onipresentes no nosso dia a dia para rotular tudo: viagem inesquecível, bom programa ou programa bom... Sabe-se também que, às vezes, a ordem do adjetivo (antes ou depois do substantivo) altera o sentido do que é posto: uma pobre criança não é necessariamente uma criança pobre. Homem grande é uma coisa, grande homem é outra.

No trato social, as pessoas também criam rótulos para os outros e para si mesmas. E assim passamos a ser conhecidos pelas características com as quais nos enxergam ou que achamos ter de fato: sujeito simpático (ou antipático), mulher admirável, honrados cidadãos, queridas amigas... Nessa rotulação toda há muito de subjetividade, da opinião de cada um(a). Pois é. Adjetivamos tudo.

Como nomes próprios, dessa forma, como substantivos, os adjetivos estão presentes em muitos prenomes (o primeiro nome, geralmente, de uma pessoa): Clara, Celeste, Imaculada... E mais: Augusto, Benigno, Bento, Branco, Moreno, Mariano, Natalício, Preto e seus correspondentes no feminino, entre outros. Ocorre de serem sobrenomes, como em Jorge Amado, André Trigueiro, Klara Castanho, Marcelo Nova, Wilson Sideral. Outras vezes, apelidos: Marrom (da cantora Alcione), Vesgo e Carioca (dos humoristas Rodrigo Scarpa e Márvio Lúcio, respectivamente). E aparecem em marcas comerciais: Brilhante (sabão em pó) Havaianas (chinelos e sandálias de borracha), Prediletta, com o “t” dobrado (marca de produtos alimentícios para humanos e de alimentos para pets) e Sadia (produtora de alimentos frigoríficos). Ainda funcionando como substantivo e para economizar palavra, o adjetivo aparece usado assim: o brasileiro (em vez de o povo brasileiro, por exemplo), os infelizes (em vez de as pessoas infelizes)... Em relação oposta, o substantivo também pode desempenhar função adjetiva. Calça cinza, tom pastel e blusa vinho exemplificam esse papel.

Isso dito, principalmente como curiosidade, é necessário lembrar que o uso de adjetivos gera polêmica, quando se considera a forma escrita do texto, por trazer posicionamentos distintos: a defesa da precisão informativa (sem ou quase sem eles) ou a valorização da força expressiva e do ponto de vista (com eles). Segundo a jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, “no jornalismo, a clareza é um valor. Nos romances, a ambiguidade é um valor”. Em outras palavras, requisitos como clareza e ambiguidade se prestam à adequação do que é escrito. Aos fatos cabe a precisão, sem os adornos quase sempre subjetivos dos adjetivos. À arte e aos textos dissertativos cabem a força expressiva e os pontos de vista, sustentados quase sempre por adjetivação pessoal e pertinente.

Diferentemente de tantos autores, principalmente pela sua condição de poeta (e também diplomata), João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999) fez poesia privilegiando a palavra nua, a contenção vocabular e a potência dos substantivos, cortando enfeites e sentimentalismos. Coisa para poucos e comprovada pela excelência rara de obras construídas dessa forma.

Mas nada contra os adjetivos, que, usados com propriedade, podem ser de grande utilidade nas nossas construções linguísticas.

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