Todas as gerações que viveram em Resende Costa sabem onde está localizado o Buraco do Inferno. Alguns autores, como Antônio Lara Resende e Otto Lara Resende, escreveram sobre o local, o que já foi relatado aqui no Jornal das Lajes. Há que se mencionar também as variadas estórias e lendas que são contadas por moradores da cidade. Recentemente, em 2025, foi publicado o primeiro estudo científico sobre a caverna, que realizou sua caracterização morfológica.
É notório que Resende Costa está situada no alto de um pontão (um morro) de granito, sendo que essa rocha aflora (está visível na superfície) em três locais conhecidos como: Laje de Cima ou da Matriz, Laje de Baixo ou do Quartel e Laje da Cadeia, situada atrás do Fórum. Nossa cidade foi presenteada pela natureza com uma caverna nas Lajes de Cima, formada com a fratura e o deslocamento dos blocos de rochas, o que aconteceu há milhões de anos.
Em 2025, pesquisadores ligados à UFSJ e à UFMG publicaram um artigo no 38º Congresso Brasileiro de Espeleologia, realizado em Belo Horizonte, com o título: “Teste metodológico com dados 3D Lidar, para análise morfológica e monitoramento da Caverna Buraco do Inferno, Resende Costa-MG.” A metodologia constou da utilização, como sensor LIDAR, de um equipamento portátil FJD Trion S1, composto por 16 sensores, captando 320.000 pontos por segundo com alcance de 120 m e precisão de 2 cm.
Segundo o estudo, as cavernas em rochas cristalinas (granito, gnaisse ou grantóides), como é o caso do Buraco do Inferno, abrangem 626 ocorrências no Brasil, apenas 2,53% dos casos. A maioria são cavernas formadas em rochas carbonáticas, em calcário, por exemplo. Assim, cavernas como a que temos não são tão comuns. No artigo, foi apresentada sua descrição técnica: “A caverna Buraco do Inferno corresponde a caverna cristalina do tipo em junta aberta, (...) sendo formada em juntas com o topo aberto para o exterior, estando preenchido por detritos. No caso, a Buraco do Inferno é reticulada em condutos semiparalelos e seções majoritariamente verticalizados em níveis variados em borda de batólito granítico.” A caverna é de “(...) complexa morfologia entre níveis verticais separados e cobertos por detritos (...)”. Ou seja, ela tem uma entrada (abertura para o exterior) formada por blocos (matacões) de pedras soltos ou encaixados e uma rede de túneis (condutos), tanto horizontais quanto verticais que vão adentrando pelas trincas (fraturas) da rocha.
Continuando a descrição, agora sobre sua espeleogênese (estudo sobre origem e formação de cavernas), a caverna do Buraco do Inferno “(...) é associada aos processos de termoclastia, alívio de pressão com diaclasamento esferoidal, dissolução/corrosão e abatimento de blocos a partir de planos de fratura de borda de batólito. Estes efeitos impulsionados a partir de eventos de pulsos neotectônicos de soerguimento do plioceno, reconhecidos na região (...).” A caverna se formou principalmente com a ação do intemperismo físico que fragmentou a rocha devido às variações de temperatura e com o abatimento/desmoronamento de blocos de rocha nos pontos de fratura (de encontro) de blocos gigantes formados pelo resfriamento do magma.
O mapeamento topográfico convencional indicou as seguintes dimensões da caverna: desenvolvimento linear (comprimento) = 46,08 m; áreas = 59,4 m²; desnível = 9,58 m; volume = 1.283,04 m³; altura da entrada principal = 6,87 m. Segundo informado, trata-se de uma caverna de porte médio, em comparação com as já existentes. Sobre a questão da preservação ambiental foram citadas algumas intervenções antrópicas no entorno e dentro da caverna: “Ressalta-se que apresenta resíduos sólidos (lixo), efluentes (esgoto) nas proximidades e interior da caverna, assim como vários trechos com presença de grafismos e pichações.”
Recentemente, o IRIS (Instituto Rio Santo Antônio) e a Secretaria Municipal de Turismo, Artesanato e Desenvolvimento Econômico realizaram uma reunião com representante da SEE - Sociedade Excursionista e Espeleológica (Entidade estudantil da UFOP que tem como objetivo a divulgação e preservação do patrimônio espeleológico) - e uma aluna resende-costense de Engenharia de Minas da UFOP. O objetivo da reunião foi organizar um grupo para impulsionar a realização de estudos prévios visando averiguar o potencial turístico e os procedimentos necessários para a conservação do Buraco do Inferno. A partir daí, pretende-se oferecer um ponto turístico geológico no nosso Mirantes das Lajes.