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Sobre a dimensão crítica e uma tentativa de manifesto

01 de Julho de 2026, por Vinícius Oliveira

Nunca nos foi tão cara a construção de um campo crítico honesto e corajoso, que perpasse constatações sobre o cenário artístico-cultural, produção teórica e autocrítica severa. Das poucas investidas, quase sempre resultaram conflitos, fragmentações e isolamentos, além de outros afetos absolutamente necessários à integridade do nosso objeto. A crítica se tornou dimensão arenosa, íntima demais a ser assumida publicamente.

Temos de separar o joio do trigo, a começo de conversa: crítica é elaboração, não questão opinativa; não deve centralizar figuras pontuais, mas atingir qualquer ação responsável por certo critério analisado. Não deve ser mera caça às bruxas: numa suposta inquisição, todos seríamos culpados em alguma instância. Antes de tudo, deve ser selvagem. A exemplo da Nouvelle Vague ou do Cinema Novo, a crítica nos desloca coletivamente e nos insere, efetivamente, nos campos de disputa.

É função essencial da crítica perturbar. Existem estruturas ideológicas tão bem concretadas que só perturbações podem oferecer algum frescor para além das execuções burocráticas. A fuga a todo e qualquer exercício crítico nos priva de uma das ferramentas mais intensas de elaboração e mobilização. A crítica, sob essa ótica, não é estritamente necessária porque delimitamos quem somos e sabemos nossas necessidades; ela é necessária porque ainda não temos nenhuma elaboração coletiva da complexidade do nosso objeto, de onde existem defasagens e de um horizonte possível. Também, não existe formalização e difusão alguma do que pensamos, o que, à opinião pública, nos confina a produtores de eventos – que é somente um processo de uma cadeia muito maior. O apelo ao debate é pela especificação e sofisticação de nosso pensamento e, principalmente, pela difusão de suas modulações históricas ao público. Não há alternativa concreta que não passe pelo coletivo.

Boa parte da produção cultural local se desenvolve à margem das lógicas convencionais de mercado. Longe de tentar fincar a bandeira da virtude – diretamente do ideário romântico do artista moderno –, muito menos tratar como condição a ser sanada, mas em um contexto que exige de toda prática sua imediata justificativa econômica, a cultura frequentemente soa como excesso. A crítica, nesse contexto, apresenta nossa articulação intelectual, vocabulário específico e dimensiona a importância de nossa atuação e deste segmento distante da indústria cultural.

Diante da defesa da dimensão crítica como ferramenta crucial à nossa produção intelectual, algo é incontornável: qualquer construção de cenários nesta coluna corresponde a apenas um dos múltiplos cenários possíveis, sob o arranjo ideológico de um indivíduo, que talvez ecoe em alguns outros ou, precariamente, na materialidade. O único caminho verdadeiramente revolucionário para apreender a complexidade das nossas questões e nos orientar coletivamente a transformações concretas é a colisão argumentativa. Este espaço é dedicado a suscitar exclusivamente esse fim.

Toda edificação argumentativa, especialmente essas que construo há alguns meses, deve ser violentamente atacada com a mesma engenharia bélica: organização de conceitos, exploração das contradições, elaboração sobre as relações sociais intrínsecas a certos fenômenos e alguma futurologia. Os pilares que resistirem, em pedaços ou inteiriços, serão o lastro de nossa atuação futura.

Não é por Resende Costa rumar ao fracasso que almejo a consolidação de uma dimensão crítica, mas por sua incontestável potência. A cena cultural da cidade, ao que materialmente já oferece, pode capitanear um avanço regional inédito – pois afirmo: há uma crescente efervescência –, apontado ao futuro, agregando carga histórica ao frescor de novas linguagens e gerações.

Há abertura ao debate e receptividade das demandas pelo Poder Público, há curiosidade e participação popular nas ações propostas, há novas fontes de captação, há artistas de várias gerações em intercâmbio de linguagens, há comunicadores excelentes, há produtores altamente profissionalizados e pesquisadores realizando tarefas homéricas. Para além do pensamento cerceado aos limites municipais: podemos ser abrigo e desejo de artistas de toda a região; aí mora o inédito. Constância de ações em vez de espetáculos pontuais, investimentos em cenas hiperlocais, descentralização, ações de manutenção da memória social e do patrimônio vivo, cultura como ferramenta de desenvolvimento local e intersetorialidade – dos quais já colhemos resultados –, são os ventos contemporâneos do pensamento em produção cultural. A coalizão é o içar das velas.

A nós, agentes culturais, a crítica é ferramenta essencial não somente para construirmos um cenário funcional, como o desejado, mas também para acirrar nossas responsabilidades em sua manutenção constante. Poetas, músicos, artesãos, artistas visuais, agentes culturais diversos: podemos não ter de imediato a dimensão do que somos coletivamente, mas devemos imediatamente arriscar a nos ver para além dos fragmentos.

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