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Sobre a autoestima de um povo com seu cinema

25 de Marco de 2026, por Vinícius Oliveira

Wagner Moura após ser premiado no Globo de Ouro, na categoria Melhor ator em filme dramático (foto divulgação)

De todos os fenômenos circundantes a este momento do cinema brasileiro, com as indicações consecutivas ao Oscar de “Ainda estou aqui” (Walter Salles) e, a mais recente, de “O agente secreto” (Kléber Mendonça Filho), o que mais me intriga são as estratégias ideológicas dos veículos de comunicação em massa para demarcarem a dobradinha como o momento de glória maior da produção fílmica nacional.

É evidente que ambos os filmes se tornaram capital simbólico do posicionamento político de resistência frente aos detratores da cultura brasileira e aos ataques constantes à soberania nacional, oriundos da extrema-direita, aqui e acolá. Então é justa e necessária a reafirmação constante dessas produções, enquanto produtos culturais, quando laureadas no cenário internacional.

Quanto aos méritos artísticos e políticos das duas produções, não há contestação. À autoestima injetada no povo brasileiro com seu próprio cinema: melhor ainda. É um ótimo sentimento ter um filme que sai do nosso território, adentra a mais tradicional premiação da indústria cultural, na casa dos caras, diante da mais impositiva indústria cinematográfica – ou bélica? – do mundo e conquista um prêmio. Contudo, o que representa uma campanha ao Oscar?

Campanhas ao Oscar ou premiações similares do alto grau da indústria cultural são, em alguma medida, mérito artístico, mas o transcende em muito. É possível dizer que “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles e Kátia Lund) possui mérito artístico menor às duas peças citadas, ao não ter alcançado uma estatueta? Eu diria que não. O transcendente em questão é o financiamento extensivo para as campanhas – marketing puro –, e a escola Globo de formação de celebridades e personalidades que, de fato, é uma das melhores do mundo. Dificilmente você veria os não-atores, ou atores formados em set, de “Cidade de Deus”, com todo o investimento destes dois filmes para ir a talk shows, dar entrevistas e cruzar os EUA em campanha. Reafirmo: a felicidade à indicação e à vitória dos filmes não são ilegítimas, muito pelo contrário. Mas a aquisição da narrativa de Oscar como “glória maior” nem de longe é benéfica à realidade do nosso cinema.

A indústria cinematográfica brasileira tem, no sumo de sua história, solavancos e desmontes contínuos, fases péssimas e fases de alguma melhora. A precariedade de nossa indústria, porém, se desenvolveu em linguagem: uma saída genial constatada no manifesto “Eztetyka da fome”, texto de Glauber Rocha publicado em 1965. Logo, se o crivo de sucesso de um cinema é a presença em grandes premiações norte-americanas, ou um pareamento estético à Hollywood, estamos, definitivamente, fadados ao fracasso. É a condenação de nossas subjetividades. E é diante das inúmeras reportagens da mídia tradicional e postagens em redes sociais, que instituem esse momento como o de maior vitória simbólica, com raras menções à amplitude histórica do nosso cinema, que meu medo avança. Pois a recepção acrítica, aos desavisados ou nem tão ligados em cinema assim, a esta construção ideológica de que o cinema nacional “está na moda”, obscurece o fato de que o cinema brasileiro sofre de sucateamentos estruturais graves e que, mesmo assim, esteve à frente nas maiores revoluções de linguagem da história do cinema mundial, desde “Limite” (Mário Peixoto), no auge das vanguardas, aos cinemanovistas, na consolidação do cinema moderno, e à Retomada, no final dos anos 1990.

Há décadas somos inegáveis no cenário internacional. Soa quase como um milagre, mas é militância árdua e trabalho contínuo, muitas vezes guerrilha, para que essa realidade e as contradições sejam expostas à opinião pública. O espetáculo em torno de uma premiação deve alegrar, é claro, mas não pode servir de risco ideológico ao esforço homérico e às penosas conquistas que nossos cineastas obtiveram ao longo dos anos. E, para isso, são necessários cumplicidade e olhar crítico. Não há outra saída.

É importante ressaltar que a mídia tradicional de massa que exalta e cava um poço em torno deste momento é a mesma que promoveu aversão cultural ao cinema nacional (a velha ladainha de “só tem sacanagem e palavrão”) para o estabelecimento da novela como principal produto audiovisual do país. Ou seria só de uma má sorte terrível termos novelas incríveis e filmes tão “asquerosos”? É necessário estar atento aos discursos da indústria cultural e construir um horizonte mais amplo.

Advogo essa reflexão, no ajeitar das melancias, pois observo empolgação e ânimo em muitas pessoas que compram esta narrativa nociva desavisadamente e, creio, e muito, que ao descobrirem nosso cinema, em sua multiplicidade de linguagens e impressionantes conquistas artísticas através de sua história, terão finalmente o encanto que todos os aficionados defendem. Torço para que as conquistas de “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” abarquem mais uma – crítica a nós: ser ponto de partida ao desbravamento deste universo em si que é o cinema brasileiro.

Comentários

  • Author

    Quem é fan do jornal das lajes é calango?


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