As mãos de minha mãe
13 de Julho de 2010, por Evaldo Balbino 0
Cozinhava grelos de chuchu com ovos como quem passa as mãos pelos cabelos num ato de vaidade. Vaidade simples, pura e necessária. Necessidade advinda da beleza dos cabelos brancos esvoaçando-se ante os olhos, demandando uma contenção atrás de orelhas antigas e sabidas. Pureza e simplicidade existentes nos modos de ser tão singelos, como eram os dedos das mãos de minha mãe.
Muitas vezes vinham machucadas suas mãos por haverem cortado samambaia, muchoco e serratucano nos brejos e nas margens dos cor’gos da região. Vinham machucadas e felizes, pois operariam a mágica de uma culinária inimitável: comeríamos todos, debaixo das asas de uma galinha protetora, aquele guisado que ela sempre improvisava com maestria. Pedaços de ovos, pimenta, talos de couve, cebolinha e salsinha – tudo era bem-vindo nos banquetes de nossas bocas.
Limpavam frangos aos domingos, naqueles domingos em que nos permitíamos certas regalias à mesa. Limpavam frangos as suas mãos e faziam questão de preparar os vinte e um pedaços, contanto com os pés e a cabeça, para que toda a família fosse alimentada. Éramos dez. Mais ou menos dois pedaços para cada um. O pescoço era dela, pois fazia questão de degustá-lo. Eu insistia em dar-lhe os meus pedaços, pois meu estômago era fraco para carnes. Então, com carinho e esmero, suas mãos fritavam dois ovos para o filho caçula tão frágil.
Houve tempos duradouros em que suas unhas reclamavam de um sabão agressivo. Unheiros flagelando mãos tão hábeis. Um pus de pura luta entre tecidos e vida. O sabão do reino que usava corroía a sujeira de roupas suadas. Roupas que ela molhava, esfregava, batia na pedra, quarava, enxaguava (uma, duas, três vezes), para depois secá-las ao sol. Expô-las como se expõe um troféu após uma batalha inexorável. Nesta faina sem fim, as unhas de minha mãe lamentavam.
Sempre curtas, como ainda o são. Sempre curtas, o que era de uma beleza indizível. Uma vaidade feminina discreta, rude, pouco encontrada em muitas mulheres. E não eram machas, as unhas de minha mãe. Eram femininas nas pontas de dedos tão ásperos. Parecia não crescerem nunca. Discretas, sempre limpas por água e sabão, foram elas um dia salvas por uma dessas receitas de ervas e pela vontade de Deus, como fazia questão de dizer-nos e de propagar aos incrédulos.
Suas mãos me contavam histórias. Eu as lia como se fosse um cigano. Não eram futuros o que me diziam as duas palmas. Eram imperiais caminhos já traçados nas estradas de terra do Ribeirão de Santo Antônio e depois numa Resende Costa bem pequena, numa casa erguida com tijolos e sonhos, numa rua da periferia, de terra vermelha e infância.
Minha mãe na roça, entre milhos, abóboras, palhas de feijão e canções. “Ai menina, meu amor! / Minha flor no cafezal...” Seus lábios sem batom me cantavam música tão sublime como se estivessem entoando hinos de louvores a Deus. E entoavam! Seus lábios cantavam como cantam os lábios de mulher da roça e não de uma sereia devoradora. Cantavam estendidas canções como os fios estendidos de Ariadne a guiar Teseu pelo labirinto de Creta. Os lábios a conduzir-me pelos labirintos. Aqueles nos quais nos perdemos todos.
Minha mãe cantava, como ainda canta e sempre cantará. Mulher do povo, daquelas que se dão ao luxo de às vezes comerem com as mãos na cumbuca, coité pelos seus homens trazido de grotas da redondeza. Mulher do povo a brigar com seu homem quando uma necessidade insiste, quando o machismo excede. Daquelas que diziam e dizem ao marido: “Eu gosto de você e sei que você gosta de mim. Gosto de você, apesar de tudo. Eu gosto e sei que insisto, quando muitas vezes deveria deixar essa vida ao seu lado. Mas o que fazer? O que fazer se gosto de você e se tenho filhos que nos amam?
Parecendo antiga, minha mãe era moderna. Dominando e fingindo ser dominada, suas mãos tinham um poder de glória. De domar o marido com carícias e brados. De fazê-lo retroceder nas investidas impensadas nas coisas da vida. Amando meu pai com suas mãos sofridas, ela calava o homem nas horas nuas da existência.
Oh, meu Deus, por que o passado insiste? Ainda bem que este passado permanece! Viva, minha mãe ainda canta.
Suas mãos teciam colchas e cosiam nossas calças e camisas. Os dedos ágeis entre agulha e linha não permitiam que ficássemos desnudos, que ficássemos à mercê do frio que atravessava e ainda atravessa as pedras de Resende Costa. O que suas mãos costuravam eram as nossas vidas. Remendavam o que ameaçava romper-se. Seguravam-nos, como Deus segura a Terra no espaço.
Muitas vezes vinham machucadas suas mãos por haverem cortado samambaia, muchoco e serratucano nos brejos e nas margens dos cor’gos da região. Vinham machucadas e felizes, pois operariam a mágica de uma culinária inimitável: comeríamos todos, debaixo das asas de uma galinha protetora, aquele guisado que ela sempre improvisava com maestria. Pedaços de ovos, pimenta, talos de couve, cebolinha e salsinha – tudo era bem-vindo nos banquetes de nossas bocas.
Limpavam frangos aos domingos, naqueles domingos em que nos permitíamos certas regalias à mesa. Limpavam frangos as suas mãos e faziam questão de preparar os vinte e um pedaços, contanto com os pés e a cabeça, para que toda a família fosse alimentada. Éramos dez. Mais ou menos dois pedaços para cada um. O pescoço era dela, pois fazia questão de degustá-lo. Eu insistia em dar-lhe os meus pedaços, pois meu estômago era fraco para carnes. Então, com carinho e esmero, suas mãos fritavam dois ovos para o filho caçula tão frágil.
Houve tempos duradouros em que suas unhas reclamavam de um sabão agressivo. Unheiros flagelando mãos tão hábeis. Um pus de pura luta entre tecidos e vida. O sabão do reino que usava corroía a sujeira de roupas suadas. Roupas que ela molhava, esfregava, batia na pedra, quarava, enxaguava (uma, duas, três vezes), para depois secá-las ao sol. Expô-las como se expõe um troféu após uma batalha inexorável. Nesta faina sem fim, as unhas de minha mãe lamentavam.
Sempre curtas, como ainda o são. Sempre curtas, o que era de uma beleza indizível. Uma vaidade feminina discreta, rude, pouco encontrada em muitas mulheres. E não eram machas, as unhas de minha mãe. Eram femininas nas pontas de dedos tão ásperos. Parecia não crescerem nunca. Discretas, sempre limpas por água e sabão, foram elas um dia salvas por uma dessas receitas de ervas e pela vontade de Deus, como fazia questão de dizer-nos e de propagar aos incrédulos.
Suas mãos me contavam histórias. Eu as lia como se fosse um cigano. Não eram futuros o que me diziam as duas palmas. Eram imperiais caminhos já traçados nas estradas de terra do Ribeirão de Santo Antônio e depois numa Resende Costa bem pequena, numa casa erguida com tijolos e sonhos, numa rua da periferia, de terra vermelha e infância.
Minha mãe na roça, entre milhos, abóboras, palhas de feijão e canções. “Ai menina, meu amor! / Minha flor no cafezal...” Seus lábios sem batom me cantavam música tão sublime como se estivessem entoando hinos de louvores a Deus. E entoavam! Seus lábios cantavam como cantam os lábios de mulher da roça e não de uma sereia devoradora. Cantavam estendidas canções como os fios estendidos de Ariadne a guiar Teseu pelo labirinto de Creta. Os lábios a conduzir-me pelos labirintos. Aqueles nos quais nos perdemos todos.
Minha mãe cantava, como ainda canta e sempre cantará. Mulher do povo, daquelas que se dão ao luxo de às vezes comerem com as mãos na cumbuca, coité pelos seus homens trazido de grotas da redondeza. Mulher do povo a brigar com seu homem quando uma necessidade insiste, quando o machismo excede. Daquelas que diziam e dizem ao marido: “Eu gosto de você e sei que você gosta de mim. Gosto de você, apesar de tudo. Eu gosto e sei que insisto, quando muitas vezes deveria deixar essa vida ao seu lado. Mas o que fazer? O que fazer se gosto de você e se tenho filhos que nos amam?
Parecendo antiga, minha mãe era moderna. Dominando e fingindo ser dominada, suas mãos tinham um poder de glória. De domar o marido com carícias e brados. De fazê-lo retroceder nas investidas impensadas nas coisas da vida. Amando meu pai com suas mãos sofridas, ela calava o homem nas horas nuas da existência.
Oh, meu Deus, por que o passado insiste? Ainda bem que este passado permanece! Viva, minha mãe ainda canta.
Suas mãos teciam colchas e cosiam nossas calças e camisas. Os dedos ágeis entre agulha e linha não permitiam que ficássemos desnudos, que ficássemos à mercê do frio que atravessava e ainda atravessa as pedras de Resende Costa. O que suas mãos costuravam eram as nossas vidas. Remendavam o que ameaçava romper-se. Seguravam-nos, como Deus segura a Terra no espaço.
O presente
15 de Junho de 2010, por Evaldo Balbino 0
Não poderia de jeito nenhum pegar o frasco de Rexona que o irmão deixara sobre a cômoda. Era um perfume gostoso, que ele de vez em quando borrifava nos “subacos” para que ficassem apresentáveis. “É ‘sovaco’, seu bobão; mesmo assim fica mais bonito dizer ‘axilas’. Por que você não diz ‘axilas’?”. Mais velha e mais escolada do que ele, sua irmã era professoral. Mas também era chata, acusando-o sempre de bobão, de boboca e de outros nomes que ele sequer ousava pronunciar.
Mas agora não lhe interessava articular corretamente as palavras. Deveria sim articular um plano. Sua urgência era outra. Estava ali em cima o frasco, bonito, oferecido, sem-vergonha. Mas o que ele diria se o irmão, dando pela falta do desodorante, começasse a perguntar a todos da casa? Quando tudo de errado acontecia, era ele o culpado. Eram muitos ali. Dos pais certamente não duvidaria. Um filho não pode duvidar do pai ou da mãe. Entre os sete irmãos, tirando-se o dono do perfume, eram seis os que poderiam ser inquiridos. E quem seria o alvo principal? Já se imaginava sentado na cama, com medo, tomando uma chuva de perguntas, interrogatórios terríveis. Os olhos desconfiados do irmão, e os seus olhos arregalados, fingindo uma calma impossível.
Precavido, decidiu-se pela busca dum comportamento modelar. Algo havia de se fazer. Não poderia comparecer diante da Tia Lúcia com as mãos abanando. Não fora ela mesma quem disse estar precisando de um vidro de desodorante vazio? Outro dia a Bárbara chegara perto dela com uma linda rosa vermelha. Por que tinha de ser vermelha? Se pelo menos fosse branca! Assim os agrados da Bárbara seriam sem cor, comezinhos; ninguém os perceberia. Mas diante daquela cor aberrante, quem poderia fechar os olhos? A Tia Lúcia sorrira um sorriso grande, dera um abraço na aluna, que nem era tão boa aluna assim, mas que sabia adular aqueles que poderiam dar-lhe algo em troca.
Ele não queria notas boas. Queria era o sorriso da professora, o abraço gostoso, o afago merecido depois de uma ação exemplar. Rosas, sua mãe não possuía, e muito menos vermelhas. Lá no quintal alastravam-se umas plantas verdes, umas samambaias choronas, um comigo-ninguém-pode que lhe dava medo e um cacto ranzinza, de uma braveza que o incomodava. Como encontrar flores delicadas no meio daqueles verdes sérios e daquela aspereza de espinhos? O copo-de-leite não lhe serviria também, pois naqueles dias nenhuma flor tinha brotado das verdes ramas. E além de tudo não seria bem-vindo, pois suas flores preguiçosas eram brancas, uma ausência de cor que o menino não desejava.
De novo os olhos sobre o frasco, e a necessidade urgente de não pensar mais em flores, de não pensar no que via. A necessidade de fazer alguma coisa urgentemente. E se desse à Tia Lúcia o desenho do piolho fazendo morada na cabeça do menino? Uma vasta cabeleira, e o piolho lá, todo refestelado, como se estivesse na casa da sogra. Com trouxas nas costas e corpão na casinha construída entre os fios de cabelo. Mas o desenho não fora feito por ele. Apenas o tinha colorido, todo feliz, com os lápis Faber-Castell presenteados por sua irmã. O que a Tia Lúcia faria com aquele piolho na cabeça do menino? Não! Definitivamente não! O que lhe daria tinha de ser algo útil, com serventia conhecida e carimbada. Mas o que seria esse algo?
Resolveu ir brincar, porque esta é resolução mais urgente de uma criança. Resolveu ir brincar para não se perder diante do insolúvel. Foi aí que, na hort’couve, entre as taquaras da cerca e os pés de alface, descobriu um tesouro: um frasco parecido com aquele sobre o móvel do quarto. Não dava para ver se era de Rexona. Estava um pouco velho, mas era de plástico também, e também com a possível e mesma função que o outro teria. Feliz, o menino se pôs a pensar na Tia Lúcia usando o frasquinho para esguichar álcool no mimeógrafo. E o milagre acontecendo durante horas a fio: o braço cansado de girar a manivela, mas tirando do estêncil textos e desenhos gostosos, letras cheirosas, sedutoras, perfumadas.
O vidro lavado, e o garoto agora na expectativa de fazer feliz a professora. No exato momento em que iria tirar da pasta polionda o seu velho frasquinho, a Bárbara, a mesma Bárbara de sempre, correu até a mestra e estendeu seus braços escandalosos. O que ela ofertava era um frasco bonito, novinho, de um perfume desconhecido, talvez chique. Outro abraço afetuoso da Tia Lúcia, outras palavras carinhosas e amigas. Diante da cena, o menino e o seu frasco encanecido e ainda guardado foram murchando-se, sumindo, escondendo-se num aperto de tristeza e frustração.
Mas agora não lhe interessava articular corretamente as palavras. Deveria sim articular um plano. Sua urgência era outra. Estava ali em cima o frasco, bonito, oferecido, sem-vergonha. Mas o que ele diria se o irmão, dando pela falta do desodorante, começasse a perguntar a todos da casa? Quando tudo de errado acontecia, era ele o culpado. Eram muitos ali. Dos pais certamente não duvidaria. Um filho não pode duvidar do pai ou da mãe. Entre os sete irmãos, tirando-se o dono do perfume, eram seis os que poderiam ser inquiridos. E quem seria o alvo principal? Já se imaginava sentado na cama, com medo, tomando uma chuva de perguntas, interrogatórios terríveis. Os olhos desconfiados do irmão, e os seus olhos arregalados, fingindo uma calma impossível.
Precavido, decidiu-se pela busca dum comportamento modelar. Algo havia de se fazer. Não poderia comparecer diante da Tia Lúcia com as mãos abanando. Não fora ela mesma quem disse estar precisando de um vidro de desodorante vazio? Outro dia a Bárbara chegara perto dela com uma linda rosa vermelha. Por que tinha de ser vermelha? Se pelo menos fosse branca! Assim os agrados da Bárbara seriam sem cor, comezinhos; ninguém os perceberia. Mas diante daquela cor aberrante, quem poderia fechar os olhos? A Tia Lúcia sorrira um sorriso grande, dera um abraço na aluna, que nem era tão boa aluna assim, mas que sabia adular aqueles que poderiam dar-lhe algo em troca.
Ele não queria notas boas. Queria era o sorriso da professora, o abraço gostoso, o afago merecido depois de uma ação exemplar. Rosas, sua mãe não possuía, e muito menos vermelhas. Lá no quintal alastravam-se umas plantas verdes, umas samambaias choronas, um comigo-ninguém-pode que lhe dava medo e um cacto ranzinza, de uma braveza que o incomodava. Como encontrar flores delicadas no meio daqueles verdes sérios e daquela aspereza de espinhos? O copo-de-leite não lhe serviria também, pois naqueles dias nenhuma flor tinha brotado das verdes ramas. E além de tudo não seria bem-vindo, pois suas flores preguiçosas eram brancas, uma ausência de cor que o menino não desejava.
De novo os olhos sobre o frasco, e a necessidade urgente de não pensar mais em flores, de não pensar no que via. A necessidade de fazer alguma coisa urgentemente. E se desse à Tia Lúcia o desenho do piolho fazendo morada na cabeça do menino? Uma vasta cabeleira, e o piolho lá, todo refestelado, como se estivesse na casa da sogra. Com trouxas nas costas e corpão na casinha construída entre os fios de cabelo. Mas o desenho não fora feito por ele. Apenas o tinha colorido, todo feliz, com os lápis Faber-Castell presenteados por sua irmã. O que a Tia Lúcia faria com aquele piolho na cabeça do menino? Não! Definitivamente não! O que lhe daria tinha de ser algo útil, com serventia conhecida e carimbada. Mas o que seria esse algo?
Resolveu ir brincar, porque esta é resolução mais urgente de uma criança. Resolveu ir brincar para não se perder diante do insolúvel. Foi aí que, na hort’couve, entre as taquaras da cerca e os pés de alface, descobriu um tesouro: um frasco parecido com aquele sobre o móvel do quarto. Não dava para ver se era de Rexona. Estava um pouco velho, mas era de plástico também, e também com a possível e mesma função que o outro teria. Feliz, o menino se pôs a pensar na Tia Lúcia usando o frasquinho para esguichar álcool no mimeógrafo. E o milagre acontecendo durante horas a fio: o braço cansado de girar a manivela, mas tirando do estêncil textos e desenhos gostosos, letras cheirosas, sedutoras, perfumadas.
O vidro lavado, e o garoto agora na expectativa de fazer feliz a professora. No exato momento em que iria tirar da pasta polionda o seu velho frasquinho, a Bárbara, a mesma Bárbara de sempre, correu até a mestra e estendeu seus braços escandalosos. O que ela ofertava era um frasco bonito, novinho, de um perfume desconhecido, talvez chique. Outro abraço afetuoso da Tia Lúcia, outras palavras carinhosas e amigas. Diante da cena, o menino e o seu frasco encanecido e ainda guardado foram murchando-se, sumindo, escondendo-se num aperto de tristeza e frustração.
A aranha e as paredes
12 de Maio de 2010, por Evaldo Balbino 0
A escritora Virginia Woolf chegou a afirmar em 1929, no livro Um teto todo seu, que a ficção é como uma teia de aranha, bem ali no canto de uma parede, lá no alto. Uma teia que parece flutuar, sem base, quando na verdade seus fundamentos, diáfanos, estão ali mesmo, em pontos específicos. A teia é uma ilusionista. Olhamos muitas vezes para ela e vemos algo bonito, arte feita por um ser tão desprezível aos olhos de muitos, um ser tecedor de maravilhas. Quanta arte numa teia, não é verdade? Se observarmos bem a sua tessitura, não deixaremos de admitir que a aranha, na sua “faina enfadonha” como disse o poeta Da Costa e Silva, é uma tecelã de fazer inveja a qualquer artesão.
É o mesmo poeta que ainda situa a aranha “sobre invisível tear tecendo a tênue teia”. Invisível tear sim, mas sua urdidura é concreta, o labirinto de suas linhas é palpável. Mesmo que nos percamos nas contexturas da teia, ela sempre quer nos dizer algo. Cabe a nós sabermos interpretar, pois, conforme diz o adágio: “Para quem sabe ler, um pingo no ‘i’ é letra”.
Já encontrei quem me dissesse que o que eu escrevo é difícil, é complicado. Não pude dizer nada a meu favor, mesmo porque nenhuma defesa nem era necessária, já que ali eu não era atacado. Pelo contrário, não faltaram louvores. Mas confesso que elogios ao que se considera emaranhado são amabilidades desalentadoras para os que tecem como as aranhas e que não desejam morrer nas próprias teias.
Falo predominantemente do que foi, mas esse “foi” sempre reverbera no agora. Ou melhor, falo sempre do agora, pois tudo o que teço é o modo de meus palpos tentarem se apoiar não em coisas abstratas, mas no concreto que nos faz existir.
Até mesmo quando falo de Deus, falo dele em nós, já que sem o corpo, sem a interioridade do mesmo, sem a consciência que nos constitui, não haveria como encontrar Deus. Santo Agostinho escreve em suas Confissões do seguinte modo: “E como invocarei o meu Deus – meu Deus e meu Senhor –, se, ao invocá-Lo, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que ‘fez o céu e a terra’? Pois será possível, Senhor meu Deus, que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? // Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contêm? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim já que não existiria se em mim não habitásseis? (...) Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não estivésseis em mim.” E nas bíblias, em mais de uma passagem, na urdidura poética de profetas e apóstolos, pois boa parte desses homens foram e são excelentes poetas, encontramos esta imagem: fomos feitos templos de Deus. Eu, de minha parte, penso que sem esse templo, nas suas formas sempre belas e aprazíveis, não haveria a possibilidade de nosso ser gozar, simplesmente gozar em Deus.
Recentemente houve também quem me dissesse, agora em tom explicitamente reprovador e preconceituoso: “Além de fazer literatura, algo fora da realidade, você ainda fica falando de Deus. Abstração maior do que essa não existe!” Ora, quem disse isso não sabe que as abstrações são nosso modo de tentar entender. Nossos valores, nossas ideias, tudo busca dizer do que somos, da vida que somos e que nos rodeia.
Nas linhas onde escrevo existem rastros, pegadas na areia para quem possa ver. Pegadas de toda natureza, e não apenas sagradas. Mas insisto: o sagrado também nos constitui ao mesmo tempo em que é constituído por nós. Até mesmo Deus, na urdidura da minha existência, tem lá os seus contornos, os quais sabem a estranhezas. Os fios dele vão se tecendo no modo como minhas mãos aprenderam a fazer.
Ao falar sobre coisas de ontem e de hoje, coisas abstratas e abstrações tão concretas, ponho-me a pensar na minha mãe e no meu pai – o que é pensar em todos os seres, especialmente nos humanos cuja complexidade da mente faz da consciência da busca uma trajetória repleta de dor e prazer.
Meu pai buscando o prumo certo, tijolo sobre tijolo, a retidão de uma parede fincada no chão de um planeta que gira. Bola incerta no espaço. Minha mãe no tear tecendo. E quando um fio se rompe, tudo então se deflagra. Ela buscando o fio perdido, suas mãos imersas na teia aparentemente perfeita.
Meu pai erguendo casas e minha mãe tecendo colchas e tapetes sou eu escrevendo com estes fios-palavras, linhas escorrendo entre meus dedos de aranha.
O menino e os chinelos do menino
12 de Abril de 2010, por Evaldo Balbino 0
Da outra vez fora horrível: ele andava sobre o telhado de amianto com todo o cuidado, como quem caminha sobre cascas de ovo. Queria pegar a bola que o Nivair, displicente e violento, arremessara sobre a varanda da cozinha. Seus passos profetizavam consequências, mas não as mediam. Era mais fácil entregar-se às irresponsabilidades. De repente, a queda! Furando o teto como um super-homem às avessas, caiu arrependido no chão, entre cacos de telha e a bola fujona. A mãe assustada foi ao seu encontro, cuidadosa, mas o pai sequer perguntou como estava o seu dolorido corpo. Se chegou a se preocupar com isso, o menino não percebeu. No amor enrijecido do pai, pesado como pedra, o garoto via somente um inquisidor, nada mais.
Agora algo parecido ou talvez pior. Todo chocho pela Rua do Rosário (a sempre ladainha nesta rua de uma infância pequena e por isso mesmo imensa). Vem devagar, com medo do futuro. Os passos diminuem a velocidade, e o medo aumentando. Não há enxurradas para seus pés descalços, nas quais poderia mergulhar sua nudez entre ciscos. Águas em que se perderia na aventura da correnteza brava como a de um rio bravo, sempre fugindo dos perigos das valas, dos medos maravilhosos de ser sugado pelos abismos do esgoto. Como explicará tudo o que aconteceu? Que reação seus pais vão ter? Os irmãos e as irmãs levantarão os ombros, já acostumados com as façanhas do caçula. A mãe reclamará um pouco pelo desmazelo do filho, o que por si mesmo já o deixará infeliz. Mas certamente, depois, vai abraçá-lo com os braços de mãe, uma nuvem grande e protetora contra o sol abrasador que se aproxima. Mas, e o pai? Aquele pai com seu amor retorcido a ver no filho um perdulário, um sujeito não preparado para a vida difícil que levam.
Perdeu os chinelos havaianas, novinhos, bem debaixo do ipê, durante a aula de Educação Física. Tia Dilma exigiu que corresse no pique com eles, mas não quis. Agora estão perdidos! E tem certeza de que foram furtados. Preferiria dizer “roubados”, porém Tia Juscéia tem horror a essa palavra “ofensiva”. Mas é roubo mesmo, e ninguém pode negar! Ou as sandálias têm pernas próprias para saírem serelepes pelas ruas de Resende Costa? Essa nem pescador contaria!
Continuará descendo pela rua e chegará a sua casa respirando fundo, preparando-se para o que virá. Mas de que adianta respirar fundo, juntar coragem, se agora mesmo sua irmã, também vindo da escola, ultrapassa-o em galope e grita “vou contar pra mãe que você perdeu as chinelas, seu burro!”.
As chinelas foram roubadas e mesmo assim ele, tão sem culpa, receberá um castigo. O ladrão andará pela cidade com pés pomposos, assim como ele faz questão de andar com as congas que a mãe lhe comprou no Natal passado. A pompa do usurpador será algo abominável, vaidade de merecer até mesmo o inferno. Merecimento duplo! Por roubar e por ser vaidoso! Agora ele, no seu luxo, nada tem de pecador. Calça as congas com orgulho, assim como estava usando as chinelas, porque tudo é fruto do suor dos pais. A mãe no tear e o pai entre pedras são os dois alicerces da família. Tecendo casas e erguendo colchas, dão a ele, menino travesso, toda proteção contra as agruras do mundo. Palavra bonita esta: agruras. Tão estrangeira para o aprendiz das letras, e tão medonha no sentido. Vendo-a pela primeira vez, num livro da biblioteca escolar, chegara a sentir calafrios.
Pensando na palavra “agruras” e nas agruras da família, compadecido, como não sendo estas também suas, acaba por deparar-se com o portão de madeira da sua casa. Pela cerca de taquara, vê a mãe do outro lado estendendo roupas no varal. Atarefada, sempre na correria para sentar-se ao tear e gerar colchas, num misto de amor das entranhas e necessidade financeira.
Abre o portão, cabisbaixo. Arrasta seus pés desolados até a sombra da mãe. Contristado e numa voz lamentosa. “Mãe, perdi os chinelos na Educação Física”. Dóceis e nada surpresos, os dedos maternos secam-lhe algumas lágrimas, enquanto a voz no mesmo tom o acaricia. “Sem problema, filhote: amanhã vou lá e cobro da professora!”
Sob os ecos do “filhote” no ouvido, o menino, agora apaziguado, vai para o quarto que divide com os três irmãos. Mas aí a terrível vergonha: o que vão dizer os colegas quando virem a mãe reclamando por um simples par de chinelos? Vão achar que ele é pobre, e isso nem pensar! Joga-se na cama, consternado novamente, e vislumbra ao lado da penteadeira as havaianas sorridentes e molecas, prontas para sumir de novo.
Agora algo parecido ou talvez pior. Todo chocho pela Rua do Rosário (a sempre ladainha nesta rua de uma infância pequena e por isso mesmo imensa). Vem devagar, com medo do futuro. Os passos diminuem a velocidade, e o medo aumentando. Não há enxurradas para seus pés descalços, nas quais poderia mergulhar sua nudez entre ciscos. Águas em que se perderia na aventura da correnteza brava como a de um rio bravo, sempre fugindo dos perigos das valas, dos medos maravilhosos de ser sugado pelos abismos do esgoto. Como explicará tudo o que aconteceu? Que reação seus pais vão ter? Os irmãos e as irmãs levantarão os ombros, já acostumados com as façanhas do caçula. A mãe reclamará um pouco pelo desmazelo do filho, o que por si mesmo já o deixará infeliz. Mas certamente, depois, vai abraçá-lo com os braços de mãe, uma nuvem grande e protetora contra o sol abrasador que se aproxima. Mas, e o pai? Aquele pai com seu amor retorcido a ver no filho um perdulário, um sujeito não preparado para a vida difícil que levam.
Perdeu os chinelos havaianas, novinhos, bem debaixo do ipê, durante a aula de Educação Física. Tia Dilma exigiu que corresse no pique com eles, mas não quis. Agora estão perdidos! E tem certeza de que foram furtados. Preferiria dizer “roubados”, porém Tia Juscéia tem horror a essa palavra “ofensiva”. Mas é roubo mesmo, e ninguém pode negar! Ou as sandálias têm pernas próprias para saírem serelepes pelas ruas de Resende Costa? Essa nem pescador contaria!
Continuará descendo pela rua e chegará a sua casa respirando fundo, preparando-se para o que virá. Mas de que adianta respirar fundo, juntar coragem, se agora mesmo sua irmã, também vindo da escola, ultrapassa-o em galope e grita “vou contar pra mãe que você perdeu as chinelas, seu burro!”.
As chinelas foram roubadas e mesmo assim ele, tão sem culpa, receberá um castigo. O ladrão andará pela cidade com pés pomposos, assim como ele faz questão de andar com as congas que a mãe lhe comprou no Natal passado. A pompa do usurpador será algo abominável, vaidade de merecer até mesmo o inferno. Merecimento duplo! Por roubar e por ser vaidoso! Agora ele, no seu luxo, nada tem de pecador. Calça as congas com orgulho, assim como estava usando as chinelas, porque tudo é fruto do suor dos pais. A mãe no tear e o pai entre pedras são os dois alicerces da família. Tecendo casas e erguendo colchas, dão a ele, menino travesso, toda proteção contra as agruras do mundo. Palavra bonita esta: agruras. Tão estrangeira para o aprendiz das letras, e tão medonha no sentido. Vendo-a pela primeira vez, num livro da biblioteca escolar, chegara a sentir calafrios.
Pensando na palavra “agruras” e nas agruras da família, compadecido, como não sendo estas também suas, acaba por deparar-se com o portão de madeira da sua casa. Pela cerca de taquara, vê a mãe do outro lado estendendo roupas no varal. Atarefada, sempre na correria para sentar-se ao tear e gerar colchas, num misto de amor das entranhas e necessidade financeira.
Abre o portão, cabisbaixo. Arrasta seus pés desolados até a sombra da mãe. Contristado e numa voz lamentosa. “Mãe, perdi os chinelos na Educação Física”. Dóceis e nada surpresos, os dedos maternos secam-lhe algumas lágrimas, enquanto a voz no mesmo tom o acaricia. “Sem problema, filhote: amanhã vou lá e cobro da professora!”
Sob os ecos do “filhote” no ouvido, o menino, agora apaziguado, vai para o quarto que divide com os três irmãos. Mas aí a terrível vergonha: o que vão dizer os colegas quando virem a mãe reclamando por um simples par de chinelos? Vão achar que ele é pobre, e isso nem pensar! Joga-se na cama, consternado novamente, e vislumbra ao lado da penteadeira as havaianas sorridentes e molecas, prontas para sumir de novo.
Álbum de fotografias
14 de Marco de 2010, por Evaldo Balbino 0
Certa vez, numa noite alta, a lua era clara e benfazeja. Saí da Fazenda Quitéria com alguns primos e primas medrosos e fomos todos por uma trilha iluminada entre grotas e plantas raquíticas. Nosso destino era a fazenda Água Limpa, nome bonito e sugestivo. Temendo fantasmas, luzes estranhas na iminência de uma aparição, fomos conversando para espantar o medo. Para espantar aquilo que também desejávamos.
Fomos recebidos por dona Ester, uma anfitriã muito agradável. Não faltaram bolos de fubá e café da roça, com uma nata de leite tão clara e saborosa de fazer inveja à lua. Também não faltaram os fantasmas. E eram muitos! Ganhavam vida nas bocas que se abriam. Dona Ester os criava como quem dizia verdades. Um senhor tagarela, sentado numa poltrona ao canto da sala, movia seus lábios entre rugas infindas e histórias emaranhadas.
Num certo momento, a dona da casa se levantou, abriu um baú desses bem antigos e de lá retirou um velho álbum de fotografias. Todos manusearam aquelas páginas como namorados displicentes, os que olham o ser amado e não fixam o seu olhar. Manusearam-nas e as abandonaram sobre um aparador mais antigo que a vida.
Deixei-os entre histórias fantasmagóricas e casos de vidas alheias e olhadas, para ficar com meus fantasmas, com aquelas imagens cheias de vozes em minhas mãos. Peguei-as de sobre o móvel e era como se eu estivesse segurando todo um mundo. Pretérito, mas tão daquele momento em que o segurava.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... O poeta já dizia isso. Mas será sempre assim? Sinto que algo em mim não muda: o desejo de revisitar o passado. Por isso olho retratos como quem não quer nada. Olho, olho e olho. E talvez do meu olhar deduzam apenas um ato de curiosidade, um modo de passar o tempo diante de imagens idas, de outro tempo, um tempo alheio.
Não sabem, talvez, que somos escravos do tempo. Haveremos de nos saber presos a um presente sempre se esgotando. Sem futuro e sem passado, estamos aqui, neste agora, lendo e desejando o que se foi e o que ainda há de ser. É como se tudo existisse em prol do que somos. Assim poderei talvez dizer que não fui nem serei. Apenas sou.
Mas quão difícil é medir com régua e razão este ser que sou! Sei que se é, mas não sei dizer com exatidão sobre o ser. Esculturas não de barro, mas de areia, fomos e somos constantemente criados para levitar, mesmo com os pés no chão.
Pois assim, levitando, eu olhava entre as bordas dos retratos aquelas esculturas do passado. Homens, mulheres e crianças fixaram-se ali, num desejo de burlar o tempo, de dizer-lhe do seu pouco valor, de declarar-lhe, silenciosamente, a sua ineficácia perante as invenções humanas. E a nossa maior invenção foi, sem dúvida alguma, o sonho. O sonho grávido de desejos. Somos máquinas de devaneios.
As barbas longas do passado ainda eram vivas. Mãos ali paradas me diziam de afagos muitas vezes negados, de vontades de uma revisão da vida a fim de não se perder mais nenhuma oportunidade. Quantos beijos não dados! Quantos passeios esquecidos! Quantos movimentos num olhar despercebido da vida e agora tão sedento pela mesma! Um homem e uma mulher num abraço desnecessariamente acanhado. Dois amigos, ainda moleques, num sorriso gostoso de chorar! Dando-se os braços, permaneceram sentados sobre uma cerca de um curral amplo de gado e sonho. E os bois e as vacas com suas crias olhando para o fotógrafo. Ou melhor, para mim! Olhando-me e me dizendo de pastos, de noites ruminantes, de silêncios e mugidos amorosos.
Vi uma família reunida para sempre. A esposa num vestido excessivo, contida, séria, ao lado de um patriarca mais circunspecto ainda. Sob suas asas (de uma galinha grande e rígida), estavam os pintinhos a crescerem. Uma ninhada imensa, reunida ali como se faz uma igreja pronta para rezar. Nenhum abraço, nenhum afeto a se mostrar (e eu sei que ele existia, pois assim eu sonho). Nenhum amor a deflagrar-se naquelas poses decoradas para um retrato.
Vi também um rapaz triste. Olhos dizendo de mundos que ele não chegara a conhecer. Pernas paradas, mas sussurrando uma vontade imensa de partir, de pisar outras terras que não aquela a estender-se atrás de si para um horizonte infindável.
Os bustos se moviam em minhas mãos. Nas minhas amorosas, como eles. Vi todas aquelas vidas imorredouras, mãos e braços existindo. Rumores a dizerem que um retrato não é o lugar da ausência. Toda imagem, como as que construo, é um modo de se fazerem perenes o retratista e os retratados.
Fomos recebidos por dona Ester, uma anfitriã muito agradável. Não faltaram bolos de fubá e café da roça, com uma nata de leite tão clara e saborosa de fazer inveja à lua. Também não faltaram os fantasmas. E eram muitos! Ganhavam vida nas bocas que se abriam. Dona Ester os criava como quem dizia verdades. Um senhor tagarela, sentado numa poltrona ao canto da sala, movia seus lábios entre rugas infindas e histórias emaranhadas.
Num certo momento, a dona da casa se levantou, abriu um baú desses bem antigos e de lá retirou um velho álbum de fotografias. Todos manusearam aquelas páginas como namorados displicentes, os que olham o ser amado e não fixam o seu olhar. Manusearam-nas e as abandonaram sobre um aparador mais antigo que a vida.
Deixei-os entre histórias fantasmagóricas e casos de vidas alheias e olhadas, para ficar com meus fantasmas, com aquelas imagens cheias de vozes em minhas mãos. Peguei-as de sobre o móvel e era como se eu estivesse segurando todo um mundo. Pretérito, mas tão daquele momento em que o segurava.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... O poeta já dizia isso. Mas será sempre assim? Sinto que algo em mim não muda: o desejo de revisitar o passado. Por isso olho retratos como quem não quer nada. Olho, olho e olho. E talvez do meu olhar deduzam apenas um ato de curiosidade, um modo de passar o tempo diante de imagens idas, de outro tempo, um tempo alheio.
Não sabem, talvez, que somos escravos do tempo. Haveremos de nos saber presos a um presente sempre se esgotando. Sem futuro e sem passado, estamos aqui, neste agora, lendo e desejando o que se foi e o que ainda há de ser. É como se tudo existisse em prol do que somos. Assim poderei talvez dizer que não fui nem serei. Apenas sou.
Mas quão difícil é medir com régua e razão este ser que sou! Sei que se é, mas não sei dizer com exatidão sobre o ser. Esculturas não de barro, mas de areia, fomos e somos constantemente criados para levitar, mesmo com os pés no chão.
Pois assim, levitando, eu olhava entre as bordas dos retratos aquelas esculturas do passado. Homens, mulheres e crianças fixaram-se ali, num desejo de burlar o tempo, de dizer-lhe do seu pouco valor, de declarar-lhe, silenciosamente, a sua ineficácia perante as invenções humanas. E a nossa maior invenção foi, sem dúvida alguma, o sonho. O sonho grávido de desejos. Somos máquinas de devaneios.
As barbas longas do passado ainda eram vivas. Mãos ali paradas me diziam de afagos muitas vezes negados, de vontades de uma revisão da vida a fim de não se perder mais nenhuma oportunidade. Quantos beijos não dados! Quantos passeios esquecidos! Quantos movimentos num olhar despercebido da vida e agora tão sedento pela mesma! Um homem e uma mulher num abraço desnecessariamente acanhado. Dois amigos, ainda moleques, num sorriso gostoso de chorar! Dando-se os braços, permaneceram sentados sobre uma cerca de um curral amplo de gado e sonho. E os bois e as vacas com suas crias olhando para o fotógrafo. Ou melhor, para mim! Olhando-me e me dizendo de pastos, de noites ruminantes, de silêncios e mugidos amorosos.
Vi uma família reunida para sempre. A esposa num vestido excessivo, contida, séria, ao lado de um patriarca mais circunspecto ainda. Sob suas asas (de uma galinha grande e rígida), estavam os pintinhos a crescerem. Uma ninhada imensa, reunida ali como se faz uma igreja pronta para rezar. Nenhum abraço, nenhum afeto a se mostrar (e eu sei que ele existia, pois assim eu sonho). Nenhum amor a deflagrar-se naquelas poses decoradas para um retrato.
Vi também um rapaz triste. Olhos dizendo de mundos que ele não chegara a conhecer. Pernas paradas, mas sussurrando uma vontade imensa de partir, de pisar outras terras que não aquela a estender-se atrás de si para um horizonte infindável.
Os bustos se moviam em minhas mãos. Nas minhas amorosas, como eles. Vi todas aquelas vidas imorredouras, mãos e braços existindo. Rumores a dizerem que um retrato não é o lugar da ausência. Toda imagem, como as que construo, é um modo de se fazerem perenes o retratista e os retratados.