Infância, doce infância!
09 de Outubro de 2009, por Evaldo Balbino 0
As pernas afadigadas iam sobre os papéis coloridos, os quais apresentavam um homem de gravata sorrindo escancaradamente. Ninguém percebia as palavras ali impressas, o slogan esplendoroso que prometia futuros como uma cigana o faz pelas ruas. Estavam sujos aqueles papéis, e o rosto do homem beijava o asfalto iluminado pelas luzes. Parecia que todas as coisas existiam no seu devido lugar, mas uma caixa de chicletes estava quase vazia, indecisa entre os dedos que tremiam de frio e trabalhavam. Uma garota de uns oito anos vendendo chicletes na Avenida Afonso Pena, às quatro horas da madrugada de um sábado! A todos os que estavam nos carros e nos ônibus, o olhar da menina chegava muito explícito. Ela não suplicava nada com palavras, mas sorrindo e cheia de trejeitos que só uma criança possui. Os ônibus movimentavam-se e não paravam para a vendedora, mas ela, querendo consolar-se, dizia em voz alta que ainda bem que já tinha vendido quase tudo. Sorria, e o fazia com falhas nos dentes ainda tão claros, mostrando-se intactos em sua extrema juventude.
“Os chicletes são doces, mas o açúcar era doce para os senhores e amargo para os escravos”. Por que naquele instante não aparecia ninguém para gritar isso? Alguém que gritasse a todos que o chiclete é amargo para as crianças, mas isso seria uma loucura, uma vez que iria contra os princípios da infância. Isso seria uma fala de louco sim, porque todos diriam que não existe mais escravidão. Eis que tudo é compreensível, tudo, pois não há tempo para olhares e muito menos para colóquios hoje em dia. E apesar da falta de tempo, da falta de olhares, a garota ainda insistia em tentar parar os ônibus.
E me afligia a vontade de aproximar-me mais dela e de dizer-lhe algo, essa necessidade que nos assalta e que não sabemos por que e para quê, mas que deve se realizar em palavras, talvez uma ou outra, para além de um simples olhar. E se eu estivesse mais afastado do humano que há em mim, desta identidade retorcida e a esmo que todos nós já adquirimos sob as luzes da cidade, lhe perguntaria o que fazia ali àquela hora, com aquele frio, ou por que não ia para casa. Mas se assim eu fizesse, seria um idiota. Ela poderia dizer-me que estava trabalhando e que ainda não podia parar, porque precisava do trocado no dia seguinte. Então eu lhe perguntaria se o trocado que já estava em suas mãos não bastava e ela me diria que não, que mal daria para si e que, além disso, tinha cinco irmãos em casa, todos famintos e um doente, esperando, pelo menos, por um litro de leite. Assim eu levaria a mão nos bolsos de minha calça e de minha camisa, mas não encontraria dinheiro, e me desculparia com ela, dizendo que da próxima vez lhe daria um trocado. A menina olharia vagamente para mim e diria: “moço, e se não tiver a próxima vez? Esta cidade é muito grande, o senhor sabe”.
“Moço”! Que juventude eterna a mim concedida! Com essas palavras os meus olhos ficariam molhados e eu choraria daquele jeito mais meu, e talvez dos outros, porque a maioria não tem tempo nem para chorar. Eu choraria, mesmo que um militante me acusasse com as mãos em punho: “chorar não leva a nada, mas agir sim!”. Eu choraria da forma mais triste possível, como aquele que não enxerga mais o amanhã e que, se o enxerga, tem apenas uma visão apocalíptica. A garota me perguntaria aflita, “moço, por que o senhor tá chorando, tem algum problema?” E eu lhe diria “não, meu anjo, o problema não é meu, mas nosso, desta avenida escura, cheia de pessoas e carros, sob as luzes desses postes reverberando”.
Ela continuaria me olhando assustada, sem me entender. E quando eu fosse lhe explicar o que quis dizer, não teria como fazê-lo, pois estaria ferindo uma infância com a crueza do nosso mundo. Mas já não estava ferida aquela menina? A mim me bastaria perguntar-lhe a que horas da manhã se levantava, o que sua mãe colocava sobre a mesa para o café, em que turno ia para a escola, em qual momento do dia arrumava um tempo para ser criança, para entregar-se ao ludismo com seus amiguinhos etc., etc. Também poderia indagar-lhe quantas bonecas tinha, e o que fazia com elas. Mas essas perguntas seriam desnecessárias. Bastava mirar-lhe para já sabermos de tudo. Envolvida nos seus braços muito sujos, uma caixa de chicletes substituía um brinquedo. Talvez minhas palavras explicativas, cortantes como navalhas afiadas, e não esplendorosas como as impressas nos papéis pelo chão, fariam com que ela ficasse triste, triste como um adulto, que na maioria das vezes nem tempo tem para perceber-se neste estado.
Naquele momento, quando me atormentavam todos esses zumbidos, um ônibus finalmente parou e a menina entrou pela porta de trás do mesmo. Aqueles olhos infantis se foram na cidade iluminada e sem fim. E nem sequer me falaram que talvez não haveria uma próxima vez. Ou falaram? Será que apenas se foram? Creio que tenham ido para sua casa, felizes como uma criança deve ou deveria ser.
“Os chicletes são doces, mas o açúcar era doce para os senhores e amargo para os escravos”. Por que naquele instante não aparecia ninguém para gritar isso? Alguém que gritasse a todos que o chiclete é amargo para as crianças, mas isso seria uma loucura, uma vez que iria contra os princípios da infância. Isso seria uma fala de louco sim, porque todos diriam que não existe mais escravidão. Eis que tudo é compreensível, tudo, pois não há tempo para olhares e muito menos para colóquios hoje em dia. E apesar da falta de tempo, da falta de olhares, a garota ainda insistia em tentar parar os ônibus.
E me afligia a vontade de aproximar-me mais dela e de dizer-lhe algo, essa necessidade que nos assalta e que não sabemos por que e para quê, mas que deve se realizar em palavras, talvez uma ou outra, para além de um simples olhar. E se eu estivesse mais afastado do humano que há em mim, desta identidade retorcida e a esmo que todos nós já adquirimos sob as luzes da cidade, lhe perguntaria o que fazia ali àquela hora, com aquele frio, ou por que não ia para casa. Mas se assim eu fizesse, seria um idiota. Ela poderia dizer-me que estava trabalhando e que ainda não podia parar, porque precisava do trocado no dia seguinte. Então eu lhe perguntaria se o trocado que já estava em suas mãos não bastava e ela me diria que não, que mal daria para si e que, além disso, tinha cinco irmãos em casa, todos famintos e um doente, esperando, pelo menos, por um litro de leite. Assim eu levaria a mão nos bolsos de minha calça e de minha camisa, mas não encontraria dinheiro, e me desculparia com ela, dizendo que da próxima vez lhe daria um trocado. A menina olharia vagamente para mim e diria: “moço, e se não tiver a próxima vez? Esta cidade é muito grande, o senhor sabe”.
“Moço”! Que juventude eterna a mim concedida! Com essas palavras os meus olhos ficariam molhados e eu choraria daquele jeito mais meu, e talvez dos outros, porque a maioria não tem tempo nem para chorar. Eu choraria, mesmo que um militante me acusasse com as mãos em punho: “chorar não leva a nada, mas agir sim!”. Eu choraria da forma mais triste possível, como aquele que não enxerga mais o amanhã e que, se o enxerga, tem apenas uma visão apocalíptica. A garota me perguntaria aflita, “moço, por que o senhor tá chorando, tem algum problema?” E eu lhe diria “não, meu anjo, o problema não é meu, mas nosso, desta avenida escura, cheia de pessoas e carros, sob as luzes desses postes reverberando”.
Ela continuaria me olhando assustada, sem me entender. E quando eu fosse lhe explicar o que quis dizer, não teria como fazê-lo, pois estaria ferindo uma infância com a crueza do nosso mundo. Mas já não estava ferida aquela menina? A mim me bastaria perguntar-lhe a que horas da manhã se levantava, o que sua mãe colocava sobre a mesa para o café, em que turno ia para a escola, em qual momento do dia arrumava um tempo para ser criança, para entregar-se ao ludismo com seus amiguinhos etc., etc. Também poderia indagar-lhe quantas bonecas tinha, e o que fazia com elas. Mas essas perguntas seriam desnecessárias. Bastava mirar-lhe para já sabermos de tudo. Envolvida nos seus braços muito sujos, uma caixa de chicletes substituía um brinquedo. Talvez minhas palavras explicativas, cortantes como navalhas afiadas, e não esplendorosas como as impressas nos papéis pelo chão, fariam com que ela ficasse triste, triste como um adulto, que na maioria das vezes nem tempo tem para perceber-se neste estado.
Naquele momento, quando me atormentavam todos esses zumbidos, um ônibus finalmente parou e a menina entrou pela porta de trás do mesmo. Aqueles olhos infantis se foram na cidade iluminada e sem fim. E nem sequer me falaram que talvez não haveria uma próxima vez. Ou falaram? Será que apenas se foram? Creio que tenham ido para sua casa, felizes como uma criança deve ou deveria ser.
As geografias desnorteadas
12 de Setembro de 2009, por Evaldo Balbino 0
Foi Nietzsche quem uma vez escreveu: “O homem mais sábio seria o mais rico de contradição, o que teria, por assim dizer, antenas para toda espécie de homens, e vez por outra momentos de grandiosa harmonia”. Aparentemente iguais a nós mesmos, somos, entretanto, seres de faces deslizantes. Tateamos nossas fisionomias, sempre na superfície, olhando-nos no espelho cotidiano para fingirmos que algo é visto. Com mais rugas ou maquiagem desfeita, com aquela olheira surgida do nada, com o cabelo por cortar ou demasiado curto, pensamos que estamos diante de nós e não dos nós que atam nosso entendimento.
Precisamos de certas ilusões. Construímos mecanismos para nos ludibriarmos, para brincarmos seriamente com a vida e assim podermos vivê-la. Iguais à criança no seu faz-de-conta, à mulher no seu decote olheiro, ao homem no seu álcool e jogo ou ainda às mãos que varrem casas no medo da poeira – iguais a todos nos seus atos somos nós. Eu, de minha parte, sou estes que se escutam e escutam para escrever.
São Paulo, por exemplo, já dizia que, “agora, vemos como em espelho, obscuramente; então veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido”. Protelando o entendimento ou o arrancando de um futuro utópico para as nossas terras de agora, construímos narrativas, erigimos nossos castelos. Há os que se contentam em habitar palafitas, sem a preocupação de que todo alicerce é frágil. Se não é a inconstância da água que nos mantém sobre um apoio, será a areia a fingidora que nos ajuda. Sim. Tanto castelos quanto palafitas são nossas construções necessárias. Uns e outras são uma coisa só: enredos, traçados, paredes que pensamos de concreto para o estabelecimento de nossos limites.
Tentamos ser aquela horta que muitos sonham e buscam praticar. Aqui será o jirau com ramas de chuchu sobre ele se alastrando; ali os pés de couve rodeados por salsas e cebolas bem comportadas na sua existência verde; acolá instituiremos algumas variedades do pomar, tais como mamões maduros num pé, limões azedos no outro, laranjas se oferecendo entre galhos. Não faltará o galinheiro, bem delineado entre telas e moirões. Um galinheiro separado de todo o resto, já que os pés de galinha não poderão em hipótese nenhuma desmanchar na terra toda harmonia sonhada. De asas cortadas, as aves ficarão confinadas no espaço que lhes compete. O chiqueiro estará mais além, com sua sujeira distante da higiene que presumimos nos habitar. Do mesmo modo não faltarão as plantas que curam: funcho, macelinha, erva-cidreira, carqueja, boldo, arruda e outras. Caso possível, também importaremos das matas inférteis para a nossa horta o poderoso assa-peixe, sempre pronto a depurar o nosso sangue, a nossa vida, a nossa alma.
Cada coisa como a linda flor, beleza que nos faz falta, beleza catalogada perante nossos olhos: aqui o caule, ali as pétalas, mais abaixo as raízes se perdendo no seio da terra. E que essas raízes não se mostrem à luz do dia. As ramificações da vida nos confundiriam, colocariam à prova os nossos projetos de ordem. Não somos sábios para entender a raiz. Não somos capazes de hortas em orgia. Estas existem, mas incomodam a todos os que desejamos vassouras e enxadas, essas ferramentas na sua enfadonha tarefa de limpeza e destruição do joio no meio do trigo.
Assim, cada coisa em seu lugar, como o tenaz desejo de termos alguns ora-pro-nobis no canto daquela mesma horta sonhada. De possuirmos aqueles cactos com suas flores brancas, miolo alaranjado e folhas como pontas de lança. Aqueles cactos que nos protegeriam a horta e nos dariam alimento. As cercas vivas ao nosso redor, como antes cercavam, lá nos tempos coloniais, algumas igrejas mineiras em suas ladainhas sem fim: Sancta Maria, ora pro nobis / Sancta Dei Genitrix, ora pro nobis / Sancta Virgo virginum, ora pro nobis / Mater Christi, ora pro nobis / Mater divinae gratiae, ora pro nobis...
Não é à toa que temos esse desejo. Um ora-pro-nobis é mais que alimento; é proteção. Brotam da terra, como pontas de lança, as nossas litanias. Rogar é um dos modos de esconjurarmos as ameaças, os esfacelamentos que nos deixam sem território. Esfacelamentos de que, sabiamente, Satanás também tinha consciência. Ele já sabia de tudo isso e uma vez falou ao Cristo que o exorcizava: “Legião é o meu nome, porque somos muitos”. Eu, de minha parte, não sei se chego a ser dez mil em um, mas sei que sou vários.
Precisamos de certas ilusões. Construímos mecanismos para nos ludibriarmos, para brincarmos seriamente com a vida e assim podermos vivê-la. Iguais à criança no seu faz-de-conta, à mulher no seu decote olheiro, ao homem no seu álcool e jogo ou ainda às mãos que varrem casas no medo da poeira – iguais a todos nos seus atos somos nós. Eu, de minha parte, sou estes que se escutam e escutam para escrever.
São Paulo, por exemplo, já dizia que, “agora, vemos como em espelho, obscuramente; então veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido”. Protelando o entendimento ou o arrancando de um futuro utópico para as nossas terras de agora, construímos narrativas, erigimos nossos castelos. Há os que se contentam em habitar palafitas, sem a preocupação de que todo alicerce é frágil. Se não é a inconstância da água que nos mantém sobre um apoio, será a areia a fingidora que nos ajuda. Sim. Tanto castelos quanto palafitas são nossas construções necessárias. Uns e outras são uma coisa só: enredos, traçados, paredes que pensamos de concreto para o estabelecimento de nossos limites.
Tentamos ser aquela horta que muitos sonham e buscam praticar. Aqui será o jirau com ramas de chuchu sobre ele se alastrando; ali os pés de couve rodeados por salsas e cebolas bem comportadas na sua existência verde; acolá instituiremos algumas variedades do pomar, tais como mamões maduros num pé, limões azedos no outro, laranjas se oferecendo entre galhos. Não faltará o galinheiro, bem delineado entre telas e moirões. Um galinheiro separado de todo o resto, já que os pés de galinha não poderão em hipótese nenhuma desmanchar na terra toda harmonia sonhada. De asas cortadas, as aves ficarão confinadas no espaço que lhes compete. O chiqueiro estará mais além, com sua sujeira distante da higiene que presumimos nos habitar. Do mesmo modo não faltarão as plantas que curam: funcho, macelinha, erva-cidreira, carqueja, boldo, arruda e outras. Caso possível, também importaremos das matas inférteis para a nossa horta o poderoso assa-peixe, sempre pronto a depurar o nosso sangue, a nossa vida, a nossa alma.
Cada coisa como a linda flor, beleza que nos faz falta, beleza catalogada perante nossos olhos: aqui o caule, ali as pétalas, mais abaixo as raízes se perdendo no seio da terra. E que essas raízes não se mostrem à luz do dia. As ramificações da vida nos confundiriam, colocariam à prova os nossos projetos de ordem. Não somos sábios para entender a raiz. Não somos capazes de hortas em orgia. Estas existem, mas incomodam a todos os que desejamos vassouras e enxadas, essas ferramentas na sua enfadonha tarefa de limpeza e destruição do joio no meio do trigo.
Assim, cada coisa em seu lugar, como o tenaz desejo de termos alguns ora-pro-nobis no canto daquela mesma horta sonhada. De possuirmos aqueles cactos com suas flores brancas, miolo alaranjado e folhas como pontas de lança. Aqueles cactos que nos protegeriam a horta e nos dariam alimento. As cercas vivas ao nosso redor, como antes cercavam, lá nos tempos coloniais, algumas igrejas mineiras em suas ladainhas sem fim: Sancta Maria, ora pro nobis / Sancta Dei Genitrix, ora pro nobis / Sancta Virgo virginum, ora pro nobis / Mater Christi, ora pro nobis / Mater divinae gratiae, ora pro nobis...
Não é à toa que temos esse desejo. Um ora-pro-nobis é mais que alimento; é proteção. Brotam da terra, como pontas de lança, as nossas litanias. Rogar é um dos modos de esconjurarmos as ameaças, os esfacelamentos que nos deixam sem território. Esfacelamentos de que, sabiamente, Satanás também tinha consciência. Ele já sabia de tudo isso e uma vez falou ao Cristo que o exorcizava: “Legião é o meu nome, porque somos muitos”. Eu, de minha parte, não sei se chego a ser dez mil em um, mas sei que sou vários.
Por quem os sinos dobram
16 de Agosto de 2009, por Evaldo Balbino 0
O que se esperaria dum bronze não é muita coisa. Na sua dureza e insensibilidade, o que desejaríamos dele seria apenas servidão. Como nosso servo, nosso escravo, o bronze estaria à nossa mercê. Serviria às nossas necessidades, a nós que já não mais vivemos na era das pedras, que já passamos por toda uma odisseia ainda não findada, uma odisseia às avessas. Que ele ficasse inerte, indecifrável aos nossos anseios e necessidades de leitura, seria algo tão natural como nuvens que sobrevoam nossas cabeças. Seria tão fácil, então, conceituar o bronze, ou melhor, defini-lo. Tão fácil quanto usá-lo.
Mas nossas cabeças pensam e sonham, e assim inevitavelmente leem. Ler não é um verbo intransitivo. É um ato que requer um objeto. Folhas de papel, mesmo em branco; um olhar, ainda que sob pálpebras fechadas; roupas desfilando, transparentes ou não, em corpos que, mesmo escondidos, se mostram; olhos que nos olham diretamente ou de um jeito enviesado; pedras no caminho de retinas tão fatigadas e sonhos, indecifráveis, mas oferecidos à nossa fome de entendimento. E o bronze, é claro, pois este também é lido.
Deslumbrava-nos manusear lá em casa, em tempos idos e tão presentes, aquela bacia de bronze, imponente no seu canto e sem nenhuma função. Era na de lata em que tomávamos banho. Naquela bacia de bronze, pesada, meu mundo seria um mar sem fim. E creio que isso não se deveria ao meu tamanho franzino. É que os sonhos, em certos momentos e lugares da vida, são desmedidos. Quieta ali no seu canto, a bacia de bronze me sussurrava sempre, chamando para o mergulho nas profundidades do oceano.
E o sino da Igreja da Matriz, lá na minha cidade? De propósito, parece, construíram aquela igreja no ponto mais alto de Resende Costa. Não sei de projetos arquitetônicos, das mentes que decidiram plantar ali aquela altivez no centro de um adro. Nem o sino da Igreja do Rosário se me mostrava tão altivo como aquele. Eis o poder das alturas. O sino da Igreja da Matriz, de bronze, como que se prendendo nas vestes de Deus, pairava sobre todos nós.
Subindo para o centro da cidade, meu coração entrava em descompasso quando ouvia o sino. Se o da Matriz ou o da Igreja do Rosário, não me lembro. Era simplesmente o sino, na sua brônzea voz. Que avisos ele estaria me trazendo, na sua frieza de bronze, naquela matéria tinindo, como se não estivesse sendo comandada por mãos humanas? Os sinos das igrejas têm dessas coisas. Presunçosos, dão-se ares de independência. E com suas vozes querem dizer muitas coisas, segredos, novidades, voos altíssimos sobre nossas mentes.
Subindo ali pela Rua do Rosário, meu coração, aos sons do sino, disparava. A língua seca me dizia da frágil durabilidade da vida. Se pelo menos fosse a hora do Ângelus, grata hora que ainda me visita no edifício onde resido, eu poderia me dar poses de místico e ouvir uma Ave-Maria triste e sublime, de uma tristeza muito alegre, de uma pesada leveza. Pois é: na Belo Horizonte de agora ainda existem dessas coisas. Da minha janela vejo e ouço o sino se movendo. Nada de discos, CDs, gravações que pretendem enganar a vida e a morte. A mim não me enganam.
Mas ali, quando eu subia aquela ladeira de Resende Costa, geralmente não era às seis horas da tarde que o sino conversava comigo. Eram horas outras, abarcando as tarefas que eu tinha de cumprir. Ir à escola, pagar contas para minha mãe na extinta Caixa Econômica, ir com ela à “limpadeira do Vantuir” ou comprar no pequeno comércio algum artefato necessário à vida. Nesses momentos em que o sino falava, eu não podia fingir que tudo estava bem e que, ao som suave exalando, os fiéis estavam naqueles exatos instantes entrando para a igreja num ato de louvor. E isso porque, desde pequeno, aprendi a discernir os diferentes avisos do sino.
Na maioria das vezes o que ele dizia era o que eu não queria ouvir. Mas eu escutava calado, o coração se movendo por mim, acelerado entre uma curiosidade sádica e anúncios de melancolia.
Hoje ainda fala comigo o sino lá de Resende Costa? Seus modos e tons parecem tratar-me como a um estrangeiro, mas se iludem, por certo, quanto aos meus sentimentos. Tento, através das montanhas de Minas, principalmente nos entardeceres desse belo horizonte, ouvir sua voz, o anúncio de que um canto será entoado, de que uma Ave-Maria me confortará.
Mas nossas cabeças pensam e sonham, e assim inevitavelmente leem. Ler não é um verbo intransitivo. É um ato que requer um objeto. Folhas de papel, mesmo em branco; um olhar, ainda que sob pálpebras fechadas; roupas desfilando, transparentes ou não, em corpos que, mesmo escondidos, se mostram; olhos que nos olham diretamente ou de um jeito enviesado; pedras no caminho de retinas tão fatigadas e sonhos, indecifráveis, mas oferecidos à nossa fome de entendimento. E o bronze, é claro, pois este também é lido.
Deslumbrava-nos manusear lá em casa, em tempos idos e tão presentes, aquela bacia de bronze, imponente no seu canto e sem nenhuma função. Era na de lata em que tomávamos banho. Naquela bacia de bronze, pesada, meu mundo seria um mar sem fim. E creio que isso não se deveria ao meu tamanho franzino. É que os sonhos, em certos momentos e lugares da vida, são desmedidos. Quieta ali no seu canto, a bacia de bronze me sussurrava sempre, chamando para o mergulho nas profundidades do oceano.
E o sino da Igreja da Matriz, lá na minha cidade? De propósito, parece, construíram aquela igreja no ponto mais alto de Resende Costa. Não sei de projetos arquitetônicos, das mentes que decidiram plantar ali aquela altivez no centro de um adro. Nem o sino da Igreja do Rosário se me mostrava tão altivo como aquele. Eis o poder das alturas. O sino da Igreja da Matriz, de bronze, como que se prendendo nas vestes de Deus, pairava sobre todos nós.
Subindo para o centro da cidade, meu coração entrava em descompasso quando ouvia o sino. Se o da Matriz ou o da Igreja do Rosário, não me lembro. Era simplesmente o sino, na sua brônzea voz. Que avisos ele estaria me trazendo, na sua frieza de bronze, naquela matéria tinindo, como se não estivesse sendo comandada por mãos humanas? Os sinos das igrejas têm dessas coisas. Presunçosos, dão-se ares de independência. E com suas vozes querem dizer muitas coisas, segredos, novidades, voos altíssimos sobre nossas mentes.
Subindo ali pela Rua do Rosário, meu coração, aos sons do sino, disparava. A língua seca me dizia da frágil durabilidade da vida. Se pelo menos fosse a hora do Ângelus, grata hora que ainda me visita no edifício onde resido, eu poderia me dar poses de místico e ouvir uma Ave-Maria triste e sublime, de uma tristeza muito alegre, de uma pesada leveza. Pois é: na Belo Horizonte de agora ainda existem dessas coisas. Da minha janela vejo e ouço o sino se movendo. Nada de discos, CDs, gravações que pretendem enganar a vida e a morte. A mim não me enganam.
Mas ali, quando eu subia aquela ladeira de Resende Costa, geralmente não era às seis horas da tarde que o sino conversava comigo. Eram horas outras, abarcando as tarefas que eu tinha de cumprir. Ir à escola, pagar contas para minha mãe na extinta Caixa Econômica, ir com ela à “limpadeira do Vantuir” ou comprar no pequeno comércio algum artefato necessário à vida. Nesses momentos em que o sino falava, eu não podia fingir que tudo estava bem e que, ao som suave exalando, os fiéis estavam naqueles exatos instantes entrando para a igreja num ato de louvor. E isso porque, desde pequeno, aprendi a discernir os diferentes avisos do sino.
Na maioria das vezes o que ele dizia era o que eu não queria ouvir. Mas eu escutava calado, o coração se movendo por mim, acelerado entre uma curiosidade sádica e anúncios de melancolia.
Hoje ainda fala comigo o sino lá de Resende Costa? Seus modos e tons parecem tratar-me como a um estrangeiro, mas se iludem, por certo, quanto aos meus sentimentos. Tento, através das montanhas de Minas, principalmente nos entardeceres desse belo horizonte, ouvir sua voz, o anúncio de que um canto será entoado, de que uma Ave-Maria me confortará.
As mortes de Michael Jackson
13 de Julho de 2009, por Evaldo Balbino 0
O recente episódio da morte do astro Michael Jackson fez com que se alastrassem, rapidamente, palavras e imagens sobre o artista. Não faltaram lamúrias e shows alimentados por uma mídia sempre sequiosa de espetáculos, não ao ar livre, porém na virtualidade dos meios de comunicação. Aliás, essa virtualidade midiática, maravilhosa em muitos aspectos, também não deixa de ser ridícula e, o que é pior, perigosa.
Não me proponho aqui a falar do cantor Jackson, mesmo porque estou longe de ser um crítico musical. Também não busco discorrer sobre a pessoa dele, que obviamente não conheço. Abster-me de falar do artista e da pessoa não me impede, entretanto, de guardar na memória aqueles videoclipes e aquelas danças e músicas que marcaram época. Se Thriller, como defendem os críticos, não foi o seu melhor trabalho em termos musicais, não deixou de arrastar multidões de espectadores extasiados com sua produção.
O que quero dizer é dos vários modos pelos quais matamos uma pessoa antes mesmo de ela “morrer definitivamente”, no sentido biológico da expressão. Quero dizer sobre o que há de humano em todos nós e de como devemos tomar cuidado com as imagens do astro veiculadas nos últimos 15 anos pelo mundo afora. O que se aplica também a quaisquer outras imagens que os discursos da mídia constroem.
Comentando, no Yahoo! Brasil, a morte do artista, o crítico musical Regis Tadeu reconhece a qualidade da múscia de Jackson produzida até o famoso Thriller. Apesar disso, não deixa de atacar: “todos choram pelo ‘antigo’ popstar, que gravou discos excepcionais, e não pela patética figura em que ele se transformou”. Ora, numa crítica que mistura o artista com a pessoa (essas duas sempre imagens construídas), é muito fácil utilizar termos como “patética figura”, “figura do cara”, “esquisitices”, “gosto pelo bizarro”, “nariz de massinha”, “brancura artificial” ou “zumbi do qual todo mundo ria e tirava sarro”. Verdade seja dita: Regis Tadeu questiona esse “mundo estranho”, onde as pessoas, que nos últimos quinzes anos vinham debochando da imagem bizarra veiculada pela mídia, são as mesmas que se “mostram comovidas com o seu falecimento”. Mas a voz do mesmo crítico ajuda a compor o coral desse “mundo estranho”. Basta atentarmo-nos aos seus próprios termos, quando nos diz da “patética figura em que [Michael] se transformou”.
Patética figura sim, a que nos foi ofertada em lautas bandejas durante anos. Tratou-se sempre de construções de uma mídia que sempre caminhava por fatos e conjecturas nem sempre provadas, tais como vaidade racista, vitiligo, lúpus, problemas pulmonares, dependência química, hipocondria, distúrbios emocionais, uma cegueira parcial do olho esquerdo, hemorragia gastrointestinal e, mais recentemente, câncer de pele. Isso sem falar nas acusações de pedofia, as quais levaram o cantor a um processo judicial que, por sua vez, também angariou a atenção do mundo. Chegou-se a afirmar na mídia, num tom de irresponsabilidade, que “graças a Deus temos menos um pedófilo no mundo”. Essa mesma voz, em relação ao primeiro suposto ou verídico caso de pedofia cometido pelo artista, defendeu que a inocência de uma criança deve ser respeitada. Com esta segunda afirmação eu concordo. Só acho que a família de uma “vítima”, quando aceita milhões e milhões para que o caso não chegue aos tribunais, está ela também desrespeitando a “inocência” de um dos seus membros, no caso o menor em questão.
Não que eu queira – insisto – defender a pessoa e o artista Michael Jackson. Coloco-me sim atento aos meandros dessas vozes que se utilizam de conturbadas vidas para “pintar” uma exdrúxula existência. E muitos de nós, fixados nas máscaras que nos chegam, adotamos inescrupulosamente o que nos dizem, sem nos preocuparmos com as tintas desse dizer. Essas tintas insistem em apagar todas a vidas em suas múltiplas fragilidades (físicas, psíquicas e sociais) e fazem julgamentos de imagens avulsas, quando pensam julgarem realidades nuas, cruas ou mesmo cruentas. A armadilha desse engodo é que talvez explique estas palavras do mesmo Regis Tadeu: “a partir de um determinado momento de sua conturbada vida, a música perdeu a importância. Jackson acreditou que seria eternamente adorado independente do que fizesse. E isso é uma sentença de morte – artística e até mesmo pessoal – para quem viveu a música com tamanha intensidade” (grifos meus).
Não me proponho aqui a falar do cantor Jackson, mesmo porque estou longe de ser um crítico musical. Também não busco discorrer sobre a pessoa dele, que obviamente não conheço. Abster-me de falar do artista e da pessoa não me impede, entretanto, de guardar na memória aqueles videoclipes e aquelas danças e músicas que marcaram época. Se Thriller, como defendem os críticos, não foi o seu melhor trabalho em termos musicais, não deixou de arrastar multidões de espectadores extasiados com sua produção.
O que quero dizer é dos vários modos pelos quais matamos uma pessoa antes mesmo de ela “morrer definitivamente”, no sentido biológico da expressão. Quero dizer sobre o que há de humano em todos nós e de como devemos tomar cuidado com as imagens do astro veiculadas nos últimos 15 anos pelo mundo afora. O que se aplica também a quaisquer outras imagens que os discursos da mídia constroem.
Comentando, no Yahoo! Brasil, a morte do artista, o crítico musical Regis Tadeu reconhece a qualidade da múscia de Jackson produzida até o famoso Thriller. Apesar disso, não deixa de atacar: “todos choram pelo ‘antigo’ popstar, que gravou discos excepcionais, e não pela patética figura em que ele se transformou”. Ora, numa crítica que mistura o artista com a pessoa (essas duas sempre imagens construídas), é muito fácil utilizar termos como “patética figura”, “figura do cara”, “esquisitices”, “gosto pelo bizarro”, “nariz de massinha”, “brancura artificial” ou “zumbi do qual todo mundo ria e tirava sarro”. Verdade seja dita: Regis Tadeu questiona esse “mundo estranho”, onde as pessoas, que nos últimos quinzes anos vinham debochando da imagem bizarra veiculada pela mídia, são as mesmas que se “mostram comovidas com o seu falecimento”. Mas a voz do mesmo crítico ajuda a compor o coral desse “mundo estranho”. Basta atentarmo-nos aos seus próprios termos, quando nos diz da “patética figura em que [Michael] se transformou”.
Patética figura sim, a que nos foi ofertada em lautas bandejas durante anos. Tratou-se sempre de construções de uma mídia que sempre caminhava por fatos e conjecturas nem sempre provadas, tais como vaidade racista, vitiligo, lúpus, problemas pulmonares, dependência química, hipocondria, distúrbios emocionais, uma cegueira parcial do olho esquerdo, hemorragia gastrointestinal e, mais recentemente, câncer de pele. Isso sem falar nas acusações de pedofia, as quais levaram o cantor a um processo judicial que, por sua vez, também angariou a atenção do mundo. Chegou-se a afirmar na mídia, num tom de irresponsabilidade, que “graças a Deus temos menos um pedófilo no mundo”. Essa mesma voz, em relação ao primeiro suposto ou verídico caso de pedofia cometido pelo artista, defendeu que a inocência de uma criança deve ser respeitada. Com esta segunda afirmação eu concordo. Só acho que a família de uma “vítima”, quando aceita milhões e milhões para que o caso não chegue aos tribunais, está ela também desrespeitando a “inocência” de um dos seus membros, no caso o menor em questão.
Não que eu queira – insisto – defender a pessoa e o artista Michael Jackson. Coloco-me sim atento aos meandros dessas vozes que se utilizam de conturbadas vidas para “pintar” uma exdrúxula existência. E muitos de nós, fixados nas máscaras que nos chegam, adotamos inescrupulosamente o que nos dizem, sem nos preocuparmos com as tintas desse dizer. Essas tintas insistem em apagar todas a vidas em suas múltiplas fragilidades (físicas, psíquicas e sociais) e fazem julgamentos de imagens avulsas, quando pensam julgarem realidades nuas, cruas ou mesmo cruentas. A armadilha desse engodo é que talvez explique estas palavras do mesmo Regis Tadeu: “a partir de um determinado momento de sua conturbada vida, a música perdeu a importância. Jackson acreditou que seria eternamente adorado independente do que fizesse. E isso é uma sentença de morte – artística e até mesmo pessoal – para quem viveu a música com tamanha intensidade” (grifos meus).
A boa morte
13 de Junho de 2009, por Evaldo Balbino 1
Os velórios são ainda, nas pequenas cidades, uma coisa muito fina, de uma finura mesmo. E isso porque vamos encontrar neles certa alegria. Uma alegria triste, é verdade. Mas aí até mesmo a tristeza busca vestimentas que nos conformam a todos. Com roupas sóbrias, a tristeza permite-se outras vestes. Tecidos mais soltos, cores de uma suavidade tendendo às vezes a aberrações sutis, enfeitam os escuros que perpassam os cômodos das casas onde o corpo é velado e vela a todos.
Isso mesmo! Os velórios, em muitas cidades dos interiores, ainda acontecem nas casas que nós todos habitamos. E que não venham afirmar tratar-se essa circunstância de um modo lúgubre de viver e de morrer. Não! Com acenos de uma austera melancolia, mas com sorrisos nos lábios, a vida palpita em cada canto, em cada cômodo da casa em cuja porta a morte bateu.
Nada de lamúrias que não sejam normais. Chorar faz parte da vida, e sem as lágrimas não nos banhamos. Afinal, é-nos difícil ver de outro modo o que desde tempos imemoriais começamos a sentir. Não é fácil apagar aqueles momentos inscritos outrora, nos quais começamos, ao enterrar nossos mortos, a tentar enterrar tudo o que nos dava medo.
Sem ceder aqui a posturas melodiosas e melosas, podemos sim acreditar nas sonatas da vida e em tudo o que dela faz parte inexoravelmente. Se “estamos morrendo” desde que nascemos, se nossas peles se vincam com o passar dos anos, se os cabelos embranquecem e os passos vão se tornando mais trôpegos por ruas e travessas, não devemos ler nisso um caminho para o fim. O que devemos é dar graças a Deus porque em nós muita vida ainda palpita. A pele, o cabelo e os pés estão insistentes em nós, dizendo que o tempo passa e que estamos todos caminhando pela travessia de uma vida interminada.
Para que se confirme o que estou afirmando, basta que voltemos às cenas dos velórios, dos velórios de que eu falava.
Em cada canto um episódio, uma conversa, uns olhares, alguns desejos, fofocas amenas, preocupações pelo café a ser servido, busca de pães para o alimento da madrugada. Não faltam apreensões pelos parentes que ainda não chegaram, pelo filho que mora distante e que, mesmo tendo sido avisado em tempo hábil, ainda não chegou. Busca de camas restantes, já sumidas sob corpos dormindo um sono tranquilo ou não, pois alguns insistem em roncar, asseverando que até mesmo no sono continuam por uma existência teimosa. E onde colocar o filho que dorme no colo, a garotinha que está também com sono e que não foi perguntada se queria participar desse cenário, mas que no fundo também desejou estar no mesmo? E sem falar dos que não choram, daqueles que não são parentes do falecido ou da falecida, mas que nesses momentos se deixam molhar por sentimentos de pêsames pronunciados em rituais. E as piadas, os casos engraçados que nos contam, geralmente nos quartos ou na cozinha? Porque aí as bocas podem dar mais vazão a uma alegria de viver que deve, entretanto, lembrar-se a cada instante de uma inevitável tristeza e de um necessário comedimento.
Essas piadas e esses casos não poderiam faltar deveras. Sem eles, os velórios não seriam os mesmos. Pejados de austeridade, tais rituais nos levariam toda vontade de vida, como se se reduzem a uma constatação só: a de que tudo o que fazemos e sonhamos é apenas um ato de escavação na insolvência. E como essas piadas ficam mais saborosas, porque degustadas com café pela madrugada! Já ouvi os que defendem, para esses casos, o uso de uma cachacinha, para esquentar a noite e a prosa. Eu, de minha parte, confesso que prefiro uma cafeína bem amarga e lúcida, umas doses do café me ensinando que a vida, apesar de tudo e por isso mesmo, é bem doce, de uma doçura impenetrável como pedra, aparentemente indócil, mas toda porosa.
Recordo certa madrugada em que, saindo eu da sala onde velavam o corpo de uma senhora, ali aparentemente silenciada nesta vida, deparei-me com sua filha que, momentos atrás, chorava ao lado da mãe. Onde fui encontrá-la? No seu café, sentada à mesa da cozinha. E como ria, com dentes alegres mostrando-se, contando e ouvindo piadas! Seus braços de um nervosismo cheio de vida não se continham, falando sem palavras de um desejo pleno de algo que não se perdera, de uma vida latejando pelas veias. Num comentário a esse episódio, no dia seguinte, me veio um senhor a constatar sobre o papelão que aquela mulher representara, o desrespeito que ela manifestara em relação à própria mãe. Ora, mesmo não comendo um saco de sal com as duas mulheres, mãe e filha, não sabendo de suas relações que, segundo constava, eram das melhores, pude sair numa pronta defesa, se não das envolvidas no enredo, pelo menos da vida e (por que não?) da morte. Argumentei que nos atos da filha a mãe ainda vivia. Não fui entendido no que afirmei. Mas creio ter colocado em suspensão o meu interlocutor que, entre dúvida e reprovação, resolveu deixar em paz, pelo menos naquele instante, a duas vidas de que falávamos.
Sempre gosto de dizer que a morte é, algumas vezes, nossa comadre. E sei que muitos não me compreendem, vendo nesta assertiva uma postura mórbida de quem a pronuncia. De morbidez nada tenho, graças a Deus! Já perdi alguns dos meus, de modos tristes e necessários, mas nem por isso me contento com a simples anuência de que a vida continua. É que, simplesmente, a vida nos convida a várias danças, as quais se passam em vários chãos, sombreados ou não. E sei que a própria morte, nos momentos imperiosos, se cobre de véus, tênues, velando-se e se revelando, mas nos ajudando a todos na sutil festa de celebrar a vida, mesmo sob as caras contritas.
Isso mesmo! Os velórios, em muitas cidades dos interiores, ainda acontecem nas casas que nós todos habitamos. E que não venham afirmar tratar-se essa circunstância de um modo lúgubre de viver e de morrer. Não! Com acenos de uma austera melancolia, mas com sorrisos nos lábios, a vida palpita em cada canto, em cada cômodo da casa em cuja porta a morte bateu.
Nada de lamúrias que não sejam normais. Chorar faz parte da vida, e sem as lágrimas não nos banhamos. Afinal, é-nos difícil ver de outro modo o que desde tempos imemoriais começamos a sentir. Não é fácil apagar aqueles momentos inscritos outrora, nos quais começamos, ao enterrar nossos mortos, a tentar enterrar tudo o que nos dava medo.
Sem ceder aqui a posturas melodiosas e melosas, podemos sim acreditar nas sonatas da vida e em tudo o que dela faz parte inexoravelmente. Se “estamos morrendo” desde que nascemos, se nossas peles se vincam com o passar dos anos, se os cabelos embranquecem e os passos vão se tornando mais trôpegos por ruas e travessas, não devemos ler nisso um caminho para o fim. O que devemos é dar graças a Deus porque em nós muita vida ainda palpita. A pele, o cabelo e os pés estão insistentes em nós, dizendo que o tempo passa e que estamos todos caminhando pela travessia de uma vida interminada.
Para que se confirme o que estou afirmando, basta que voltemos às cenas dos velórios, dos velórios de que eu falava.
Em cada canto um episódio, uma conversa, uns olhares, alguns desejos, fofocas amenas, preocupações pelo café a ser servido, busca de pães para o alimento da madrugada. Não faltam apreensões pelos parentes que ainda não chegaram, pelo filho que mora distante e que, mesmo tendo sido avisado em tempo hábil, ainda não chegou. Busca de camas restantes, já sumidas sob corpos dormindo um sono tranquilo ou não, pois alguns insistem em roncar, asseverando que até mesmo no sono continuam por uma existência teimosa. E onde colocar o filho que dorme no colo, a garotinha que está também com sono e que não foi perguntada se queria participar desse cenário, mas que no fundo também desejou estar no mesmo? E sem falar dos que não choram, daqueles que não são parentes do falecido ou da falecida, mas que nesses momentos se deixam molhar por sentimentos de pêsames pronunciados em rituais. E as piadas, os casos engraçados que nos contam, geralmente nos quartos ou na cozinha? Porque aí as bocas podem dar mais vazão a uma alegria de viver que deve, entretanto, lembrar-se a cada instante de uma inevitável tristeza e de um necessário comedimento.
Essas piadas e esses casos não poderiam faltar deveras. Sem eles, os velórios não seriam os mesmos. Pejados de austeridade, tais rituais nos levariam toda vontade de vida, como se se reduzem a uma constatação só: a de que tudo o que fazemos e sonhamos é apenas um ato de escavação na insolvência. E como essas piadas ficam mais saborosas, porque degustadas com café pela madrugada! Já ouvi os que defendem, para esses casos, o uso de uma cachacinha, para esquentar a noite e a prosa. Eu, de minha parte, confesso que prefiro uma cafeína bem amarga e lúcida, umas doses do café me ensinando que a vida, apesar de tudo e por isso mesmo, é bem doce, de uma doçura impenetrável como pedra, aparentemente indócil, mas toda porosa.
Recordo certa madrugada em que, saindo eu da sala onde velavam o corpo de uma senhora, ali aparentemente silenciada nesta vida, deparei-me com sua filha que, momentos atrás, chorava ao lado da mãe. Onde fui encontrá-la? No seu café, sentada à mesa da cozinha. E como ria, com dentes alegres mostrando-se, contando e ouvindo piadas! Seus braços de um nervosismo cheio de vida não se continham, falando sem palavras de um desejo pleno de algo que não se perdera, de uma vida latejando pelas veias. Num comentário a esse episódio, no dia seguinte, me veio um senhor a constatar sobre o papelão que aquela mulher representara, o desrespeito que ela manifestara em relação à própria mãe. Ora, mesmo não comendo um saco de sal com as duas mulheres, mãe e filha, não sabendo de suas relações que, segundo constava, eram das melhores, pude sair numa pronta defesa, se não das envolvidas no enredo, pelo menos da vida e (por que não?) da morte. Argumentei que nos atos da filha a mãe ainda vivia. Não fui entendido no que afirmei. Mas creio ter colocado em suspensão o meu interlocutor que, entre dúvida e reprovação, resolveu deixar em paz, pelo menos naquele instante, a duas vidas de que falávamos.
Sempre gosto de dizer que a morte é, algumas vezes, nossa comadre. E sei que muitos não me compreendem, vendo nesta assertiva uma postura mórbida de quem a pronuncia. De morbidez nada tenho, graças a Deus! Já perdi alguns dos meus, de modos tristes e necessários, mas nem por isso me contento com a simples anuência de que a vida continua. É que, simplesmente, a vida nos convida a várias danças, as quais se passam em vários chãos, sombreados ou não. E sei que a própria morte, nos momentos imperiosos, se cobre de véus, tênues, velando-se e se revelando, mas nos ajudando a todos na sutil festa de celebrar a vida, mesmo sob as caras contritas.