Palavras a uma jovem (II)
11 de Fevereiro de 2010, por Evaldo Balbino 0
Sinuosos são nossos caminhos, e ramificam-se. Como tentáculos querendo agarrar todas as possibilidades, perdem-se nas mesmas. Por exemplo, as sendas da religiosidade: este campo necessário ao homem, desde quando, intimidados, passamos a enterrar nossos mortos, a tratá-los como se faz com seres tão nós mesmos, mas tão estranhos, pois portadores de muito daquilo que desconhecemos e que nos causa medo e atração. Todo abismo tem gosto de lábios.
E até mesmo o gosto dos lábios é vário. Não me refiro apenas ao paladar, às sensações que um beijo maravilhoso e sensual proporciona. Falo também das palavras que os nossos lábios proferem. Necessárias como a vida, elas portam sabores e saberes. Até os que não falam com palavras possuem a necessidade de simbologias. E muitas vezes sofremos, por desconsiderarmos o fato de que tudo é atravessado por símbolos. Um pouco de sofrimento é necessário, pois com ele aprendemos a viver sem as monotonias perigosas. Como já dizia Drummond: “O corpo exige cruz”. Porém refuto aqui sofrimentos demasiados, que podem ser desnecessários quando combatidos. Deixemos de naturalizar o que é cultural.
Se ultimamente tens sentido muita angústia com essa culpa cristã, com essa impossibilidade de ser coerente com os ensinamentos, não te preocupes. Busca vencer a dificuldade de ser tantas coisas ao mesmo tempo. Pratica a arte de ser desnorteada.
Argumentas ser muito difícil tudo, quando as pessoas amadas nos amam apenas condicionalmente. Mas quando somos amados e amamos de outro modo? O ser amado existe para me satisfazer. Posso preocupar-me com ele, desejá-lo, querê-lo mais que a tudo nesta vida. Ao fim, restam os meus desejos, a inevitabilidade de que preciso do outro para eu mesmo existir. Seria possível, então, falarmos de amor desinteressado? Perdoem-me os credos e as religiões. Inclusive o nosso amor por Deus está eivado de interesses. Mesmo professando amar a Deus sem nenhuma intenção outra que a de simplesmente amar, mesmo acreditando amar o amor pelo amor, no fundo o que busco é suprir uma carência minha. Sem amor nada serei, isso já foi dito e repetido diversas vezes.
Se há condições para o amor, faço da distância um escudo. Deixo-me assim, sem sonhos impossíveis. Interpões que “a distância é uma conquista importante, mas nos dá a sensação de incomunicabilidade, fazendo-nos sentir cada vez mais sozinhos, centrados em nós mesmos”. Na ponte da distância, digo-te, posso sentir o gosto amargo e doce da saudade. Posso sentir a possibilidade de continuar amando, sem espinhos inevitáveis a espreitar qualquer amor.
Dizes que “desejar a aprovação do outro é uma necessidade instintiva”. Tenho medo desse “instinto”, pois não sei se é termo adequado para o que sentimos. De qualquer modo, sou escravo disso também. Os meus textos, quando os publico, não seriam um modo de me colocar para o outro e demandar dele uma aprovação? Falas ainda que te sentes bem com teus livros e tuas leituras, mas que no fundo ficam resíduos das coisas que não foste, das pessoas que decepcionaste. Insisto, contudo, que temos de encarar as angústias e a vida, aceitando que somos o que somos e não nos prendendo aos discursos classificatórios que não chegam a lugar nenhum. É necessária a dura aprendizagem de que tudo são construções humanas a demandarem revisões, outros modos de se dizer e viver.
Não queiras ser Deus, no sentido de unidade, de coerência, de leis, de regras, de verdades. É um equívoco superestimarmos Deus. As representações que fazemos dele são espelhos de nossos sonhos, reflexos de nossos desejos. Totalizamos o que não conseguimos apreender. “Mas as definições encerram Deus em um reino egoísta, onde todas as coisas são alternativas. Ou fazemos a vontade dele ou o traímos. Havendo traição, somos desprezados em alguns momentos da vida. Esse discurso é pesado, denso. Age sobre o corpo, provoca os sentidos, obstrui a inteligência”.
Ora, se Deus é um enigma, que ele seja vivido sem neuras, sem ideias de posses, de leis instransponíveis. Não permitas que te façam viver de acordo com o que acham ser Deus. Pega as definições e embaralha todas elas, retorça-as, revira-as, provoca nelas revoluções. Joga com a linguagem, com essa linguagem através da qual nos impõem Deus. Eu faço isso. O que, se não me salva, pelo menos me ajuda a viver. Podemos ser menos conturbados, e deus pode nos conceder isso, não o Deus com d maiúsculo, mas o deus que nos habita, retorcido como nós, amante e amado.
E até mesmo o gosto dos lábios é vário. Não me refiro apenas ao paladar, às sensações que um beijo maravilhoso e sensual proporciona. Falo também das palavras que os nossos lábios proferem. Necessárias como a vida, elas portam sabores e saberes. Até os que não falam com palavras possuem a necessidade de simbologias. E muitas vezes sofremos, por desconsiderarmos o fato de que tudo é atravessado por símbolos. Um pouco de sofrimento é necessário, pois com ele aprendemos a viver sem as monotonias perigosas. Como já dizia Drummond: “O corpo exige cruz”. Porém refuto aqui sofrimentos demasiados, que podem ser desnecessários quando combatidos. Deixemos de naturalizar o que é cultural.
Se ultimamente tens sentido muita angústia com essa culpa cristã, com essa impossibilidade de ser coerente com os ensinamentos, não te preocupes. Busca vencer a dificuldade de ser tantas coisas ao mesmo tempo. Pratica a arte de ser desnorteada.
Argumentas ser muito difícil tudo, quando as pessoas amadas nos amam apenas condicionalmente. Mas quando somos amados e amamos de outro modo? O ser amado existe para me satisfazer. Posso preocupar-me com ele, desejá-lo, querê-lo mais que a tudo nesta vida. Ao fim, restam os meus desejos, a inevitabilidade de que preciso do outro para eu mesmo existir. Seria possível, então, falarmos de amor desinteressado? Perdoem-me os credos e as religiões. Inclusive o nosso amor por Deus está eivado de interesses. Mesmo professando amar a Deus sem nenhuma intenção outra que a de simplesmente amar, mesmo acreditando amar o amor pelo amor, no fundo o que busco é suprir uma carência minha. Sem amor nada serei, isso já foi dito e repetido diversas vezes.
Se há condições para o amor, faço da distância um escudo. Deixo-me assim, sem sonhos impossíveis. Interpões que “a distância é uma conquista importante, mas nos dá a sensação de incomunicabilidade, fazendo-nos sentir cada vez mais sozinhos, centrados em nós mesmos”. Na ponte da distância, digo-te, posso sentir o gosto amargo e doce da saudade. Posso sentir a possibilidade de continuar amando, sem espinhos inevitáveis a espreitar qualquer amor.
Dizes que “desejar a aprovação do outro é uma necessidade instintiva”. Tenho medo desse “instinto”, pois não sei se é termo adequado para o que sentimos. De qualquer modo, sou escravo disso também. Os meus textos, quando os publico, não seriam um modo de me colocar para o outro e demandar dele uma aprovação? Falas ainda que te sentes bem com teus livros e tuas leituras, mas que no fundo ficam resíduos das coisas que não foste, das pessoas que decepcionaste. Insisto, contudo, que temos de encarar as angústias e a vida, aceitando que somos o que somos e não nos prendendo aos discursos classificatórios que não chegam a lugar nenhum. É necessária a dura aprendizagem de que tudo são construções humanas a demandarem revisões, outros modos de se dizer e viver.
Não queiras ser Deus, no sentido de unidade, de coerência, de leis, de regras, de verdades. É um equívoco superestimarmos Deus. As representações que fazemos dele são espelhos de nossos sonhos, reflexos de nossos desejos. Totalizamos o que não conseguimos apreender. “Mas as definições encerram Deus em um reino egoísta, onde todas as coisas são alternativas. Ou fazemos a vontade dele ou o traímos. Havendo traição, somos desprezados em alguns momentos da vida. Esse discurso é pesado, denso. Age sobre o corpo, provoca os sentidos, obstrui a inteligência”.
Ora, se Deus é um enigma, que ele seja vivido sem neuras, sem ideias de posses, de leis instransponíveis. Não permitas que te façam viver de acordo com o que acham ser Deus. Pega as definições e embaralha todas elas, retorça-as, revira-as, provoca nelas revoluções. Joga com a linguagem, com essa linguagem através da qual nos impõem Deus. Eu faço isso. O que, se não me salva, pelo menos me ajuda a viver. Podemos ser menos conturbados, e deus pode nos conceder isso, não o Deus com d maiúsculo, mas o deus que nos habita, retorcido como nós, amante e amado.
Palavras a uma jovem (I)
14 de Janeiro de 2010, por Evaldo Balbino 0
Agora me falas tantas coisas, que me ponho a divagar por mares de sempre. Os nossos velhos e conhecidos mares.
Ouvindo uma canção romântica, composição do nosso Antônio Maria, dizes estar quase morrendo, pois tua autoestima anda baixíssima, o que não te permite ouvir tais palavras e ritmos. Respondo de imediato que dor amorosa fica muito bem em música, bem construídas, é claro! Bem construídas a música e a dor, esta através daquela.
“Mas e o que dizer da dor que sinto, para além desta que a arte de Antônio Maria me joga aos ouvidos?”
Pergunta incisiva a tua. E complexas são as nossas dores e complexos sãos os modos de nos relacionarmos com as dores sentidas pelo artista e com aquelas impressas por ele. A arte, como tudo na vida, é bifronte. Aponta-nos horizontes e depois nos nega a estabilidade; aprofunda as experiências, mas angustia a alma. Entretanto há os que fazem disso um modo de vida, uma forma lúdica de se viver da melhor maneira possível. Palavras, cores, sons, movimentos, formas, tudo isso escreve é em nós, nas tábuas dos nossos sentidos. Na vã e necessária tentativa de se buscar uma simplificação, não falemos aqui das dores de Antônio Maria, mas sim das nossas. E isso sem esquecermos, é claro, que as dele podem comungar com as que sentimos.
Tu és de fato romântica. Ainda tão jovem (talvez por isso o romantismo), e já me podes falar do que sentes, do que todos nós sentimos. É só o tempo que vai ensinar-te mais sobre tudo, como, aliás, ele me tem ensinado. Posso dizer-te muitas coisas, tal como “sai dessa situação pelo amor de Deus, pois creio que tudo seja questão de idade; já passei cronologicamente do Cabo das Tormentas; agora o mundo desaba, mas eu fico é rindo dele, nada mais”.
Se conhecesses o lindo livro Enamoramento e amor, de Francesco Alberoni, poderias dar-me como resposta definitiva a fatalidade cerceadora: o sentimento de nulidade que assalta o indivíduo leva-o a buscar no outro o que lhe falta. Entretanto, não conheces tal autor, e então simplesmente declaras que, ao invés de desejar o Cabo da Boa Esperança e a proximidade do mesmo, o que almejas é conquistar a ironia, a doce ironia, o doce ceticismo.
Isso de Cabo da Boa Esperança não existe, afirmo peremptoriamente. Isso é mito! E, com toda calma, mesmo triste, dizes que ainda conquistarás essa crença na descrença, tornando-te mais pessimista, mesmo que mais atormentada. Ora, minha amiga, não sejamos pessimistas, mas realistas. Poderemos, então, chorar com alegria e consciência. Um choro cheio de riso. Nada melhor do que a falta de ilusão. E se amas, busca amar (e aceitar) tudo o que seja móvel, volúvel, volátil; aceita as incertezas, e pronto! Localiza-te nas geografias desnorteadas. Qualquer lugar nos cabe, quando aprendemos a conviver com nossas próprias geografias.
Admites concordar com tudo o que digo, mas defendes precisar ainda aprender muito sobre como fazer o desnorte, como vivê-lo, como sê-lo. Assim me chegam tuas palavras: “Esse período de desconstrução, de esvaziamento é muito duro, é deixar o porto seguro da identidade, mergulhar no que julgávamos desconhecido, mas que sempre esteve ali”.
Ora, te respondo, se temos fantasmas, isso é prova de que estamos no processo, na travessia de que nos fala Guimarães Rosa. Lembro-te aqui o nosso Antonio Machado em seus Provérbios e cantares:
Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Pois assim é: que os nossos caminhos se façam, ou melhor, que nós os façamos, aceitando mesmo que eles não são retos, mas sinuosos, do jeito que nós podemos e sabemos caminhar.
Ouvindo uma canção romântica, composição do nosso Antônio Maria, dizes estar quase morrendo, pois tua autoestima anda baixíssima, o que não te permite ouvir tais palavras e ritmos. Respondo de imediato que dor amorosa fica muito bem em música, bem construídas, é claro! Bem construídas a música e a dor, esta através daquela.
“Mas e o que dizer da dor que sinto, para além desta que a arte de Antônio Maria me joga aos ouvidos?”
Pergunta incisiva a tua. E complexas são as nossas dores e complexos sãos os modos de nos relacionarmos com as dores sentidas pelo artista e com aquelas impressas por ele. A arte, como tudo na vida, é bifronte. Aponta-nos horizontes e depois nos nega a estabilidade; aprofunda as experiências, mas angustia a alma. Entretanto há os que fazem disso um modo de vida, uma forma lúdica de se viver da melhor maneira possível. Palavras, cores, sons, movimentos, formas, tudo isso escreve é em nós, nas tábuas dos nossos sentidos. Na vã e necessária tentativa de se buscar uma simplificação, não falemos aqui das dores de Antônio Maria, mas sim das nossas. E isso sem esquecermos, é claro, que as dele podem comungar com as que sentimos.
Tu és de fato romântica. Ainda tão jovem (talvez por isso o romantismo), e já me podes falar do que sentes, do que todos nós sentimos. É só o tempo que vai ensinar-te mais sobre tudo, como, aliás, ele me tem ensinado. Posso dizer-te muitas coisas, tal como “sai dessa situação pelo amor de Deus, pois creio que tudo seja questão de idade; já passei cronologicamente do Cabo das Tormentas; agora o mundo desaba, mas eu fico é rindo dele, nada mais”.
Se conhecesses o lindo livro Enamoramento e amor, de Francesco Alberoni, poderias dar-me como resposta definitiva a fatalidade cerceadora: o sentimento de nulidade que assalta o indivíduo leva-o a buscar no outro o que lhe falta. Entretanto, não conheces tal autor, e então simplesmente declaras que, ao invés de desejar o Cabo da Boa Esperança e a proximidade do mesmo, o que almejas é conquistar a ironia, a doce ironia, o doce ceticismo.
Isso de Cabo da Boa Esperança não existe, afirmo peremptoriamente. Isso é mito! E, com toda calma, mesmo triste, dizes que ainda conquistarás essa crença na descrença, tornando-te mais pessimista, mesmo que mais atormentada. Ora, minha amiga, não sejamos pessimistas, mas realistas. Poderemos, então, chorar com alegria e consciência. Um choro cheio de riso. Nada melhor do que a falta de ilusão. E se amas, busca amar (e aceitar) tudo o que seja móvel, volúvel, volátil; aceita as incertezas, e pronto! Localiza-te nas geografias desnorteadas. Qualquer lugar nos cabe, quando aprendemos a conviver com nossas próprias geografias.
Admites concordar com tudo o que digo, mas defendes precisar ainda aprender muito sobre como fazer o desnorte, como vivê-lo, como sê-lo. Assim me chegam tuas palavras: “Esse período de desconstrução, de esvaziamento é muito duro, é deixar o porto seguro da identidade, mergulhar no que julgávamos desconhecido, mas que sempre esteve ali”.
Ora, te respondo, se temos fantasmas, isso é prova de que estamos no processo, na travessia de que nos fala Guimarães Rosa. Lembro-te aqui o nosso Antonio Machado em seus Provérbios e cantares:
Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Pois assim é: que os nossos caminhos se façam, ou melhor, que nós os façamos, aceitando mesmo que eles não são retos, mas sinuosos, do jeito que nós podemos e sabemos caminhar.
Leituras de Teotônio
13 de Dezembro de 2009, por Evaldo Balbino 0
Teotônio vinha sempre em sua calça de tergal, camisa aberta ao peito, botões por pregar. As sandálias havaianas, arrastando-se pela Rua do Rosário, diziam do corpo senil, mole, moroso, com muita prosa para dar e receber. Parecia namorar as árvores, os canteiros de raquíticas gramas e as janelas das casas que não mais o olhavam, pois ele já era tradição por ali. Temos este absurdo costume: deixamos de observar o que nos rodeia. Somente amamos novidades.
Mas para mim Teotônio era sempre novidade. Não apenas ele, e sim tudo o que me falava, os passados da Cidade Penha. Da antiga vila de Resende Costa, muita coisa fiquei sabendo, assim ao léu, meio duvidando e meio crédulo. E isso porque suas palavras eram matreiras, espertas, sinuosas como serpentes cujos caminhos nunca conhecemos de fato.
Contava-me de mulheres lindas que lhe dispensavam lá no outrora muita atenção, até mesmo demasiada. Disse-me certa vez, em suas rememorações de galã imperdível, sobre uma mulher que enlouquecera porque ele lhe negara o amor e também sobre outra que entrara para o convento, jurando amor eterno ao Cristo, o mesmo amor que ele não se dispusera a receber.
Apesar de tudo isso, dessas tantas mulheres e amores ofertados, Teotônio não era desses homens convencidos não. Era até mesmo muito simples. O que ele fazia bem era fantasiar e dizer verdades, tudo isso misturado, num gosto de lembranças antigas e inverossímeis.
Das assombrações de que me falava, eu tinha muito medo. Eram casos de arrepiar. Tipo o cavalo de três pernas que circulava pelas ruas de madrugada, ou o jipe de um farol azul, que zoava pelas estradas da redondeza sem nenhum motorista dentro. O estranho carro cruzava os povoados constantemente, sem pouso certo. Sua boca se movimentava vagarosa e suas mãos gesticulavam quando narrava tais fatos, a ponto de presentificá-los, torná-los concretos como as palavras que eu ouvia.
Uma das coisas que mais me prendiam a atenção era o seu bolso naquela calça de tergal. “Algibeira”, ele me corrigia. E sua voz de saudosista alfinetava minha suposta modernidade linguística. Sua algibeira vinha sempre estufada. Principalmente no início de cada mês, quando ele recebia a aposentadoria tão magra. No seu bolso o salário engordava, mostrava para todos a que vinha, num exibicionismo de notas a perderem-se de vista. É que ele sempre chegava até mim, ali ao lado do balcão na mercearia em que eu trabalhava, e pedia pomposo que eu lhe trocasse as notas. E lá ia eu, solícito, fazendo aquela troca mensal. Pegava seu dinheiro diminuto, um salário em poucas notas mais graúdas, e o fazia reproduzir-se em várias cédulas, as de menores valores. Assim Teotônio enchia seu bolso. Nem carteira usava. Eu percebia-lhe certo prazer em contar cédula por cédula, em passar os dedos amorosos nelas, e me perguntava se todo aquele ritual era pelas dificuldades que ele sofrera no passado ou se era mania de idosos, a de sentir deleitosamente o atrito que uma economia produz nas mãos. Talvez isto fosse preconceito de minha parte.
Ele sempre trazia consigo um jornal velho. Não parecia preocupar-se com a leitura de informações desatualizadas. Na postura de homem aposentado, sentava-se sobre botijões de gás, ao lado do balcão, punha seus óculos imensos, e ali ficava compenetrado, lendo por minutos a fio, virando pacientemente as páginas, levantando a cabeça, ruminando pensamentos. Num desses episódios, fiquei curioso diante do menear de sua cabeça e me predispus a fazer-lhe perguntas sobre o que tanto lhe chamava a atenção. Deu-me um banho de água fria. “Quieto, rapaz; assim não posso ler e pensar no que estou lendo!” Passei, desde então, a respeitar o seu silêncio ou os seus murmúrios naquela postura sagrada.
Certa vez, entretanto, descobri-lhe algo curioso. Aproximei-me silenciosamente por trás dele e fixei meus olhos numa página do seu jornal. Espantado, vi que o periódico estava de cabeça para baixo. E pude perceber, também, que os óculos que ele trazia no rosto tinham apenas armação. Lente nenhuma havia.
Depois desse fato, passei a comentar com ele, sem ser instado a isso, sobre notícias, todas aquelas comuns que os jornais trazem, tipo a economia vai indo a passos lentos, a violência nas cidades tem aumentado, os times de futebol continuam se digladiando etc., etc. E ele, curiosamente, me dava e se dava corda, sentindo-me cúmplice no ritual de sua leitura.
Mas para mim Teotônio era sempre novidade. Não apenas ele, e sim tudo o que me falava, os passados da Cidade Penha. Da antiga vila de Resende Costa, muita coisa fiquei sabendo, assim ao léu, meio duvidando e meio crédulo. E isso porque suas palavras eram matreiras, espertas, sinuosas como serpentes cujos caminhos nunca conhecemos de fato.
Contava-me de mulheres lindas que lhe dispensavam lá no outrora muita atenção, até mesmo demasiada. Disse-me certa vez, em suas rememorações de galã imperdível, sobre uma mulher que enlouquecera porque ele lhe negara o amor e também sobre outra que entrara para o convento, jurando amor eterno ao Cristo, o mesmo amor que ele não se dispusera a receber.
Apesar de tudo isso, dessas tantas mulheres e amores ofertados, Teotônio não era desses homens convencidos não. Era até mesmo muito simples. O que ele fazia bem era fantasiar e dizer verdades, tudo isso misturado, num gosto de lembranças antigas e inverossímeis.
Das assombrações de que me falava, eu tinha muito medo. Eram casos de arrepiar. Tipo o cavalo de três pernas que circulava pelas ruas de madrugada, ou o jipe de um farol azul, que zoava pelas estradas da redondeza sem nenhum motorista dentro. O estranho carro cruzava os povoados constantemente, sem pouso certo. Sua boca se movimentava vagarosa e suas mãos gesticulavam quando narrava tais fatos, a ponto de presentificá-los, torná-los concretos como as palavras que eu ouvia.
Uma das coisas que mais me prendiam a atenção era o seu bolso naquela calça de tergal. “Algibeira”, ele me corrigia. E sua voz de saudosista alfinetava minha suposta modernidade linguística. Sua algibeira vinha sempre estufada. Principalmente no início de cada mês, quando ele recebia a aposentadoria tão magra. No seu bolso o salário engordava, mostrava para todos a que vinha, num exibicionismo de notas a perderem-se de vista. É que ele sempre chegava até mim, ali ao lado do balcão na mercearia em que eu trabalhava, e pedia pomposo que eu lhe trocasse as notas. E lá ia eu, solícito, fazendo aquela troca mensal. Pegava seu dinheiro diminuto, um salário em poucas notas mais graúdas, e o fazia reproduzir-se em várias cédulas, as de menores valores. Assim Teotônio enchia seu bolso. Nem carteira usava. Eu percebia-lhe certo prazer em contar cédula por cédula, em passar os dedos amorosos nelas, e me perguntava se todo aquele ritual era pelas dificuldades que ele sofrera no passado ou se era mania de idosos, a de sentir deleitosamente o atrito que uma economia produz nas mãos. Talvez isto fosse preconceito de minha parte.
Ele sempre trazia consigo um jornal velho. Não parecia preocupar-se com a leitura de informações desatualizadas. Na postura de homem aposentado, sentava-se sobre botijões de gás, ao lado do balcão, punha seus óculos imensos, e ali ficava compenetrado, lendo por minutos a fio, virando pacientemente as páginas, levantando a cabeça, ruminando pensamentos. Num desses episódios, fiquei curioso diante do menear de sua cabeça e me predispus a fazer-lhe perguntas sobre o que tanto lhe chamava a atenção. Deu-me um banho de água fria. “Quieto, rapaz; assim não posso ler e pensar no que estou lendo!” Passei, desde então, a respeitar o seu silêncio ou os seus murmúrios naquela postura sagrada.
Certa vez, entretanto, descobri-lhe algo curioso. Aproximei-me silenciosamente por trás dele e fixei meus olhos numa página do seu jornal. Espantado, vi que o periódico estava de cabeça para baixo. E pude perceber, também, que os óculos que ele trazia no rosto tinham apenas armação. Lente nenhuma havia.
Depois desse fato, passei a comentar com ele, sem ser instado a isso, sobre notícias, todas aquelas comuns que os jornais trazem, tipo a economia vai indo a passos lentos, a violência nas cidades tem aumentado, os times de futebol continuam se digladiando etc., etc. E ele, curiosamente, me dava e se dava corda, sentindo-me cúmplice no ritual de sua leitura.
Móbiles de areia
14 de Novembro de 2009, por Evaldo Balbino 0
O tempo passa, e eu não me conformo e vou escrevendo.
Iludido, poderão dizer-me. E eu digo “iludido sim, não hei de negar”. Mas minha ilusão traz consigo sentimentos de distância, de olhares oblíquos, um modo soslaio de olhar para o que já não mais é e que, se continua sendo, nada mais é do que ressonâncias do outrora nas reconfigurações do agora. Vou observando de esguelha tudo o que muda, as águas do rio correndo, meus cabelos ressentidos de tudo, minha pele na ameaça constante de vincar-se, meus olhos como espelho refletindo o tempo. Minhas mãos feitas à imagem e semelhança do tempo. Elas passam, mas se querem eternas. As minhas mãos preparam-se para um dia tremerem. Caneta ondulando, trêmula, hesitante, indecisa. Mas continuando, mesmo torta, por linhas tão retas.
O tempo passa e continuarei escrevendo, como se continua a respirar, para que a vida aconteça sem a necessidade de mecanismos artificiais. Não há luta na escrita? Tudo é natural como o próprio ato de respirar? Ora, ora: e quem disse que respirar seja algo natural!? Você pode ficar no seu canto, fazendo isto ou aquilo, sem preocupar-se com a ventilação do seu corpo. Mas ele estará sempre trabalhando, agindo em prol da vida, máquina incansável, pretensamente nunca exausta. A vida é máquina não-mecânica. O corpo trabalha, como um velho fâmulo insistente. Escravo biológico da existência. Serviçal e ao mesmo tempo senhor de si, dono da arte de viver.
Escrever também é assenhorear-se das palavras senhoras. Os pensamentos e as palavras insistem como água em pedra dura, como enxurrada à beira do riachozinho fazendo montinhos de areia. E nós também insistimos, na difícil arte de domar as indomáveis palavras. Acontece um texto. E acontece porque ele quer acontecer, mas também porque nós corremos atrás das palavras, daquelas que possam dizer-nos os pensamentos que não se calam.
O texto acontece, mas sempre desejando outro texto, outro discurso também sem fim. Escrever é indagar sempre, é construir castelos no ar, é abrir precipícios em solos de areia movediça. Escrever é pescar o que está nas profundidades da vida, o que antecede a palavra. É isca a palavra, já dizia Clarice Lispector. E a ponte que a escrita constrói liga-nos a algo que está perto e está longe. A escrita é droga que nos salva, que nos salva e nos engana. Temos a dor; e o remédio, paliativo necessário, diz-nos que ela já não mais existe e que nunca mais voltará.
Escrever é um ensaio de ponte, uma tentativa de encurtar todas as saudades que se estendem para muito longe, que aumentam enquanto o tempo passa. É um modo de brincar com todas as saudades, inclusive com a que sentimos de nós mesmos. Ter saudades de si e de tudo o mais é saber-se indo no rio do tempo, é saber-se pisando areias se desfazendo debaixo de uma água em movimento.
Escrevemos para perguntar, como nestes versos:
Água pura e transparente,
Água mansa da ribeira,
Donde é que vens tão contente,
Onde é que vais tão ligeira?
Como nos engana a água!! Na sua alegria e na sua mansidão, ela corre ligeira, sem dizer-nos nada: não fala das origens e dos destinos. Então escrevemos, para tornar transparente e claro o que como tal se finge constantemente. Escrevemos para enganar a água que corre e nos faz correr em sua correnteza. Escrevemos para clarear essas águas, torná-las mais cristalinas e menos turvas. E o que vemos sob os nossos pés nos assusta, mas vale a pena.
Antes eram apenas cócegas provocadas por uma alga deslizando, um detrito à deriva, uma larva brincando em tuneizinhos, a areia incontrolável em sua volubilidade.
Mas agora, escrevendo, vemos tudo isso se desnudando perante nossos olhos de medo e prazer. Mais do que o tato, a visão nos diz da nossa pequenez. Ver dá-nos uma grandeza incomparável: a grandeza de saber-nos tão pequenos e tão sem pés de pedra sobre um ar em movimento.
Escrevendo o tempo que passa, estamos pastoreando essa ovelha velha e eterna e impiedosa: o próprio tempo. Mesmo sendo pastores de nuvens, como diria Cecília Meireles, modelamos com elas, as nuvens-palavras, nossos castelos de areia. Desmoronáveis, é verdade; mas mesmo assim eles valem pela beleza da construção, pelos desejos que os erigiram.
Iludido, poderão dizer-me. E eu digo “iludido sim, não hei de negar”. Mas minha ilusão traz consigo sentimentos de distância, de olhares oblíquos, um modo soslaio de olhar para o que já não mais é e que, se continua sendo, nada mais é do que ressonâncias do outrora nas reconfigurações do agora. Vou observando de esguelha tudo o que muda, as águas do rio correndo, meus cabelos ressentidos de tudo, minha pele na ameaça constante de vincar-se, meus olhos como espelho refletindo o tempo. Minhas mãos feitas à imagem e semelhança do tempo. Elas passam, mas se querem eternas. As minhas mãos preparam-se para um dia tremerem. Caneta ondulando, trêmula, hesitante, indecisa. Mas continuando, mesmo torta, por linhas tão retas.
O tempo passa e continuarei escrevendo, como se continua a respirar, para que a vida aconteça sem a necessidade de mecanismos artificiais. Não há luta na escrita? Tudo é natural como o próprio ato de respirar? Ora, ora: e quem disse que respirar seja algo natural!? Você pode ficar no seu canto, fazendo isto ou aquilo, sem preocupar-se com a ventilação do seu corpo. Mas ele estará sempre trabalhando, agindo em prol da vida, máquina incansável, pretensamente nunca exausta. A vida é máquina não-mecânica. O corpo trabalha, como um velho fâmulo insistente. Escravo biológico da existência. Serviçal e ao mesmo tempo senhor de si, dono da arte de viver.
Escrever também é assenhorear-se das palavras senhoras. Os pensamentos e as palavras insistem como água em pedra dura, como enxurrada à beira do riachozinho fazendo montinhos de areia. E nós também insistimos, na difícil arte de domar as indomáveis palavras. Acontece um texto. E acontece porque ele quer acontecer, mas também porque nós corremos atrás das palavras, daquelas que possam dizer-nos os pensamentos que não se calam.
O texto acontece, mas sempre desejando outro texto, outro discurso também sem fim. Escrever é indagar sempre, é construir castelos no ar, é abrir precipícios em solos de areia movediça. Escrever é pescar o que está nas profundidades da vida, o que antecede a palavra. É isca a palavra, já dizia Clarice Lispector. E a ponte que a escrita constrói liga-nos a algo que está perto e está longe. A escrita é droga que nos salva, que nos salva e nos engana. Temos a dor; e o remédio, paliativo necessário, diz-nos que ela já não mais existe e que nunca mais voltará.
Escrever é um ensaio de ponte, uma tentativa de encurtar todas as saudades que se estendem para muito longe, que aumentam enquanto o tempo passa. É um modo de brincar com todas as saudades, inclusive com a que sentimos de nós mesmos. Ter saudades de si e de tudo o mais é saber-se indo no rio do tempo, é saber-se pisando areias se desfazendo debaixo de uma água em movimento.
Escrevemos para perguntar, como nestes versos:
Água pura e transparente,
Água mansa da ribeira,
Donde é que vens tão contente,
Onde é que vais tão ligeira?
Como nos engana a água!! Na sua alegria e na sua mansidão, ela corre ligeira, sem dizer-nos nada: não fala das origens e dos destinos. Então escrevemos, para tornar transparente e claro o que como tal se finge constantemente. Escrevemos para enganar a água que corre e nos faz correr em sua correnteza. Escrevemos para clarear essas águas, torná-las mais cristalinas e menos turvas. E o que vemos sob os nossos pés nos assusta, mas vale a pena.
Antes eram apenas cócegas provocadas por uma alga deslizando, um detrito à deriva, uma larva brincando em tuneizinhos, a areia incontrolável em sua volubilidade.
Mas agora, escrevendo, vemos tudo isso se desnudando perante nossos olhos de medo e prazer. Mais do que o tato, a visão nos diz da nossa pequenez. Ver dá-nos uma grandeza incomparável: a grandeza de saber-nos tão pequenos e tão sem pés de pedra sobre um ar em movimento.
Escrevendo o tempo que passa, estamos pastoreando essa ovelha velha e eterna e impiedosa: o próprio tempo. Mesmo sendo pastores de nuvens, como diria Cecília Meireles, modelamos com elas, as nuvens-palavras, nossos castelos de areia. Desmoronáveis, é verdade; mas mesmo assim eles valem pela beleza da construção, pelos desejos que os erigiram.
Infância, doce infância!
09 de Outubro de 2009, por Evaldo Balbino 0
As pernas afadigadas iam sobre os papéis coloridos, os quais apresentavam um homem de gravata sorrindo escancaradamente. Ninguém percebia as palavras ali impressas, o slogan esplendoroso que prometia futuros como uma cigana o faz pelas ruas. Estavam sujos aqueles papéis, e o rosto do homem beijava o asfalto iluminado pelas luzes. Parecia que todas as coisas existiam no seu devido lugar, mas uma caixa de chicletes estava quase vazia, indecisa entre os dedos que tremiam de frio e trabalhavam. Uma garota de uns oito anos vendendo chicletes na Avenida Afonso Pena, às quatro horas da madrugada de um sábado! A todos os que estavam nos carros e nos ônibus, o olhar da menina chegava muito explícito. Ela não suplicava nada com palavras, mas sorrindo e cheia de trejeitos que só uma criança possui. Os ônibus movimentavam-se e não paravam para a vendedora, mas ela, querendo consolar-se, dizia em voz alta que ainda bem que já tinha vendido quase tudo. Sorria, e o fazia com falhas nos dentes ainda tão claros, mostrando-se intactos em sua extrema juventude.
“Os chicletes são doces, mas o açúcar era doce para os senhores e amargo para os escravos”. Por que naquele instante não aparecia ninguém para gritar isso? Alguém que gritasse a todos que o chiclete é amargo para as crianças, mas isso seria uma loucura, uma vez que iria contra os princípios da infância. Isso seria uma fala de louco sim, porque todos diriam que não existe mais escravidão. Eis que tudo é compreensível, tudo, pois não há tempo para olhares e muito menos para colóquios hoje em dia. E apesar da falta de tempo, da falta de olhares, a garota ainda insistia em tentar parar os ônibus.
E me afligia a vontade de aproximar-me mais dela e de dizer-lhe algo, essa necessidade que nos assalta e que não sabemos por que e para quê, mas que deve se realizar em palavras, talvez uma ou outra, para além de um simples olhar. E se eu estivesse mais afastado do humano que há em mim, desta identidade retorcida e a esmo que todos nós já adquirimos sob as luzes da cidade, lhe perguntaria o que fazia ali àquela hora, com aquele frio, ou por que não ia para casa. Mas se assim eu fizesse, seria um idiota. Ela poderia dizer-me que estava trabalhando e que ainda não podia parar, porque precisava do trocado no dia seguinte. Então eu lhe perguntaria se o trocado que já estava em suas mãos não bastava e ela me diria que não, que mal daria para si e que, além disso, tinha cinco irmãos em casa, todos famintos e um doente, esperando, pelo menos, por um litro de leite. Assim eu levaria a mão nos bolsos de minha calça e de minha camisa, mas não encontraria dinheiro, e me desculparia com ela, dizendo que da próxima vez lhe daria um trocado. A menina olharia vagamente para mim e diria: “moço, e se não tiver a próxima vez? Esta cidade é muito grande, o senhor sabe”.
“Moço”! Que juventude eterna a mim concedida! Com essas palavras os meus olhos ficariam molhados e eu choraria daquele jeito mais meu, e talvez dos outros, porque a maioria não tem tempo nem para chorar. Eu choraria, mesmo que um militante me acusasse com as mãos em punho: “chorar não leva a nada, mas agir sim!”. Eu choraria da forma mais triste possível, como aquele que não enxerga mais o amanhã e que, se o enxerga, tem apenas uma visão apocalíptica. A garota me perguntaria aflita, “moço, por que o senhor tá chorando, tem algum problema?” E eu lhe diria “não, meu anjo, o problema não é meu, mas nosso, desta avenida escura, cheia de pessoas e carros, sob as luzes desses postes reverberando”.
Ela continuaria me olhando assustada, sem me entender. E quando eu fosse lhe explicar o que quis dizer, não teria como fazê-lo, pois estaria ferindo uma infância com a crueza do nosso mundo. Mas já não estava ferida aquela menina? A mim me bastaria perguntar-lhe a que horas da manhã se levantava, o que sua mãe colocava sobre a mesa para o café, em que turno ia para a escola, em qual momento do dia arrumava um tempo para ser criança, para entregar-se ao ludismo com seus amiguinhos etc., etc. Também poderia indagar-lhe quantas bonecas tinha, e o que fazia com elas. Mas essas perguntas seriam desnecessárias. Bastava mirar-lhe para já sabermos de tudo. Envolvida nos seus braços muito sujos, uma caixa de chicletes substituía um brinquedo. Talvez minhas palavras explicativas, cortantes como navalhas afiadas, e não esplendorosas como as impressas nos papéis pelo chão, fariam com que ela ficasse triste, triste como um adulto, que na maioria das vezes nem tempo tem para perceber-se neste estado.
Naquele momento, quando me atormentavam todos esses zumbidos, um ônibus finalmente parou e a menina entrou pela porta de trás do mesmo. Aqueles olhos infantis se foram na cidade iluminada e sem fim. E nem sequer me falaram que talvez não haveria uma próxima vez. Ou falaram? Será que apenas se foram? Creio que tenham ido para sua casa, felizes como uma criança deve ou deveria ser.
“Os chicletes são doces, mas o açúcar era doce para os senhores e amargo para os escravos”. Por que naquele instante não aparecia ninguém para gritar isso? Alguém que gritasse a todos que o chiclete é amargo para as crianças, mas isso seria uma loucura, uma vez que iria contra os princípios da infância. Isso seria uma fala de louco sim, porque todos diriam que não existe mais escravidão. Eis que tudo é compreensível, tudo, pois não há tempo para olhares e muito menos para colóquios hoje em dia. E apesar da falta de tempo, da falta de olhares, a garota ainda insistia em tentar parar os ônibus.
E me afligia a vontade de aproximar-me mais dela e de dizer-lhe algo, essa necessidade que nos assalta e que não sabemos por que e para quê, mas que deve se realizar em palavras, talvez uma ou outra, para além de um simples olhar. E se eu estivesse mais afastado do humano que há em mim, desta identidade retorcida e a esmo que todos nós já adquirimos sob as luzes da cidade, lhe perguntaria o que fazia ali àquela hora, com aquele frio, ou por que não ia para casa. Mas se assim eu fizesse, seria um idiota. Ela poderia dizer-me que estava trabalhando e que ainda não podia parar, porque precisava do trocado no dia seguinte. Então eu lhe perguntaria se o trocado que já estava em suas mãos não bastava e ela me diria que não, que mal daria para si e que, além disso, tinha cinco irmãos em casa, todos famintos e um doente, esperando, pelo menos, por um litro de leite. Assim eu levaria a mão nos bolsos de minha calça e de minha camisa, mas não encontraria dinheiro, e me desculparia com ela, dizendo que da próxima vez lhe daria um trocado. A menina olharia vagamente para mim e diria: “moço, e se não tiver a próxima vez? Esta cidade é muito grande, o senhor sabe”.
“Moço”! Que juventude eterna a mim concedida! Com essas palavras os meus olhos ficariam molhados e eu choraria daquele jeito mais meu, e talvez dos outros, porque a maioria não tem tempo nem para chorar. Eu choraria, mesmo que um militante me acusasse com as mãos em punho: “chorar não leva a nada, mas agir sim!”. Eu choraria da forma mais triste possível, como aquele que não enxerga mais o amanhã e que, se o enxerga, tem apenas uma visão apocalíptica. A garota me perguntaria aflita, “moço, por que o senhor tá chorando, tem algum problema?” E eu lhe diria “não, meu anjo, o problema não é meu, mas nosso, desta avenida escura, cheia de pessoas e carros, sob as luzes desses postes reverberando”.
Ela continuaria me olhando assustada, sem me entender. E quando eu fosse lhe explicar o que quis dizer, não teria como fazê-lo, pois estaria ferindo uma infância com a crueza do nosso mundo. Mas já não estava ferida aquela menina? A mim me bastaria perguntar-lhe a que horas da manhã se levantava, o que sua mãe colocava sobre a mesa para o café, em que turno ia para a escola, em qual momento do dia arrumava um tempo para ser criança, para entregar-se ao ludismo com seus amiguinhos etc., etc. Também poderia indagar-lhe quantas bonecas tinha, e o que fazia com elas. Mas essas perguntas seriam desnecessárias. Bastava mirar-lhe para já sabermos de tudo. Envolvida nos seus braços muito sujos, uma caixa de chicletes substituía um brinquedo. Talvez minhas palavras explicativas, cortantes como navalhas afiadas, e não esplendorosas como as impressas nos papéis pelo chão, fariam com que ela ficasse triste, triste como um adulto, que na maioria das vezes nem tempo tem para perceber-se neste estado.
Naquele momento, quando me atormentavam todos esses zumbidos, um ônibus finalmente parou e a menina entrou pela porta de trás do mesmo. Aqueles olhos infantis se foram na cidade iluminada e sem fim. E nem sequer me falaram que talvez não haveria uma próxima vez. Ou falaram? Será que apenas se foram? Creio que tenham ido para sua casa, felizes como uma criança deve ou deveria ser.