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Ainda no país do futebol

29 de Julho de 2026, por Evaldo Balbino

A estrada era uma serpente de asfalto cortando o coração das Gerais e parecia um ventre suspenso no tempo na tarde de 29 de junho de 2026. Eu deixava Resende Costa, com o sol de inverno desenhando sombras longas nas ladeiras de pedra, quando o silêncio se impôs. Tudo era uma ausência absoluta de rumor humano, uma suspensão de fôlego que só se encontra nas pausas que a nação impõe a si mesma, como um rito sagrado e ao mesmo tempo assustador.

Enquanto meu carro rodava em direção a Belo Horizonte, senti pulsar em mim aquele espanto não espantado que me habita por vezes. Espanto sim, pois o mundo de repente parecia ter sido evacuado: os comércios com as portas arriadas, as calçadas órfãs de pedestres, a vida pulsante engolida por uma única e invisível frequência. Não espantado, contudo, porque essa é a nossa liturgia, o rito que conheço desde que aprendi a decifrar o mapa do Brasil. É praxe, é a lei não escrita, mas que se cumpre com um fervor quase religioso: quando a Seleção joga, a realidade ordinária se dobra e se anula diante dos noventa minutos.

A memória, viajante incansável que guarda os baús da nossa formação, saltou décadas e me trouxe o cheiro de um livro didático da sexta série, em 1989. Lembrei-me da crônica “No país do futebol”, de Carlos Eduardo Novaes. Eu tinha doze anos e, ao ler sobre Juvenal Ouriço, sobre o mendigo que filosofava na calçada e sobre as multidões que se aglomeravam diante das vitrines das lojas de eletrodomésticos, apaixonei-me pela crônica como forma de registrar essa nossa estranha, trágica e linda mania de ser brasileiros. Em junho de 1976, quando Novaes publicou seu texto no Jornal do Brasil, não havia ainda nem um mês que eu tinha chegado a este mundo, mas o destino já havia traçado essa nossa sina coletiva.

Na estrada vazia, porém, vi o reflexo dessa crônica eterna ganhar contornos que hoje me pesam. Em um posto de gasolina na BR-040, caminhoneiros, frentistas e viajantes formavam um coro silencioso. Eram 14h em Resende Costa, 12h em Houston, e em cada ponto deste território continental a expectativa era a mesma. O Brasil, sob a batuta de Carlo Ancelotti, enfrentava o Japão pelas oitavas de final. Sofremos. O primeiro tempo viu o nosso time vacilar. Um erro de passe, e o gol japonês nos ecoou como uma injúria. A angústia era palpável na beira do asfalto.

Na segunda etapa, porém, a redenção desenhou-se na grama de Houston. O domínio, a posse de bola persistente, o campo de ataque ocupado como quem cerca uma fortaleza. O triunfo veio com o gol de Martinelli, o salvador daquela tarde, e a classificação selada por 2 a 1, de virada. Na estrada não houve foguetório, mas permaneceu o alívio que faz o ar vibrar. Um motorista de carreta estacionou bruscamente no acostamento apenas para soltar um brado de euforia – um homem só que, por um instante, sentiu o peso do país nos ombros. Ali éramos todos contemporâneos de Juvenal Ouriço, unidos pelo mesmo cordão umbilical que liga o desespero à glória fugaz.

Sinto alegria desmedida com tudo isso. Mas também uma ponta de cansaço, não pelo futebol em si, que considero maravilhoso em sua plasticidade e capacidade de emocionar, mas pela alienação profunda que atravessa as pessoas. Há um assombro em perceber como as demandas mais urgentes do nosso povo – a saúde capenga, a educação que clama por socorro, as injustiças que cavam abismos sociais diariamente – simplesmente se apagam diante de uma Copa do Mundo. O futebol não é o problema; o problema é tomá-lo como anestésico que substitui a própria urgência da vida, uma cortina de fumaça que cega. Somos capazes de desligar a marcha à ré da nossa história por noventa minutos, apenas para assistir a homens correrem atrás de uma esperança esférica, enquanto as nossas mazelas continuam a rodar em falso no mesmo lugar.

Ao chegar a Belo Horizonte, a cidade ainda vibrava, um eco remoto de Houston ressoando em cada janela. O “espanto não espantado” me acompanhava, misturado à melancolia poética da viagem. Percebi que o Brasil para porque, no fundo, prefere a ilusão temporária da vitória nos gramados ao enfrentamento doloroso de suas próprias verdades. Naquela tarde de junho, enquanto o sol se punha sobre as montanhas de Minas, compreendi que a crônica do país do futebol se repete não apenas como festa, mas também como um eterno retorno de nossa própria fuga.

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