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Inventário das calçadas – II

28 de Outubro de 2026, por Evaldo Balbino

Éramos reis de um império de concreto e terra. O tempo não era medido em minutos, mas em quantas brincadeiras cabiam antes de a luz da rua acender.

Quem já construiu carrinhos de rolimã com sobras de tábuas de construção? Aquilo era engenharia da boa, desenvolvida em oficinas improvisadas na calçada com rolamentos velhos que faziam um barulho ensurdecedor, capaz de acordar até o sono mais profundo da sesta de domingo. “Lá vem o trovão da ladeira!”, gritavam os velhos sentados em suas cadeiras modorrentas de macarrão. O freio? O freio era a sola do Conga ou do Kichute, o que gerava um cheiro de borracha queimada digno de um Grande Prêmio de Fórmula 1 e, consequentemente, uma bronca monumental da mãe no fim do dia: “Você acha que eu fabrico dinheiro no fundo do quintal pra ficar comprando sola de sapato?”.

No esconde-esconde, os olhos fingiam-se fechados entre os dedos para vigiar a movimentação alheia. “Um, dois, feijão com arroz... quem não se escondeu, se lascou!”. A contagem era um pacto de traição mútua. A gente acelerava o ritmo nos números finais só para pegar o desavisado que ainda tentava se camuflar atrás da lixeira com cheiro de casca de laranja e borra de café.

Quando a mãe não nos deixava ir para a rua, o que era sentido como uma sentença de prisão perpétua em regime fechado, o jeito era apelar para a janela. A janela, mais do que um buraco na parede, era o nosso feed de notícias em tempo real, sem algoritmos viciados, exibindo apenas o fluxo caótico e maravilhoso da vida. Ali, no camarote da existência, assistíamos ao cachorro do seu Juca perseguir o ciclista com uma fúria tão cômica que parecia ensaiada. O padeiro passava com seu cesto de vime, exalando o perfume de pão sovado que flutuava pela calçada. “Olha o pão quentinho, Dona Maria!”, gritava ele com a voz rouca de quem acordou às quatro da manhã. O cheiro invadia a sala, misturando-se ao aroma de café fresco que se coava na cozinha, criando-se um feitiço sensorial que nenhuma padaria moderna consegue replicar. Era o prazer de ver o tempo passar devagar, sentindo a madeira áspera do batente sob os cotovelos, enquanto ouvíamos o chiado distante de um rádio de pilha sintonizado em algum canto sertanejo sofrido ou nas notícias solenes sobre o preço do café e a previsão do tempo que raramente acertava.

As escadas encostadas nos muros eram a permissão para os furtos de frutas nas copas das árvores que teimavam em crescer justamente nas divisas dos quintais. Era uma política de fronteira baseada estritamente na lei do mais ágil e na resistência dos galhos. “Sobe logo, Juvenal! Pega as maiores, mas cuidado com o marimbondo! O Seu Nonô tá vindo com a vassoura e a cara de poucos amigos!”, sussurrava o cúmplice lá embaixo, vigiando a esquina com os olhos arregalados. Éramos uma meninada dependurada feito macaco, galhos vergados, pesados de vida infantil e furtadora. A manga roubada tinha um sabor de adrenalina, sol e clorofila que nenhuma feira livre poderia oferecer. O suco doce e pegajoso escorria pelo queixo, misturando-se ao suor salgado e à poeira da tarde, e a gente sentia que tinha conquistado o mundo, ou pelo menos o topo da mangueira vizinha. Havia o cheiro forte da fruta madura esmagada no chão, atraindo abelhas, e o som das folhas secas estalando como tiros sob nossos pés furtivos. Se quebrássemos uma vidraça com uma botinada errada, a aventura virava um drama de fuga em alta velocidade pelo beco mais próximo, com o coração batendo na garganta, as pernas trêmulas e o cheiro de mato amassado impregnado nas roupas.

A vizinhança reunida até tarde na porta da rua era o ápice da convivência social. Sem celular para desviar os olhos, sem medo de assaltos e sem a pressa doentia de hoje, o mundo parecia menor e mais acolhedor. Os olhos dos adultos eram simultaneamente amorosos e olheiros, uma rede de vigilância comunitária feita de afeto e uma pitada de maledicência saudável. “Viu que a filha da Maria chegou tarde de novo? E o namorado novo dela, reparou no topete?”, “E aquele cano que estourou na esquina e ninguém conserta?”. Nada passava batido. O “compartilhar” era feito por cima do muro, o “marcar” era um assobio na frente do portão e o “curtir” era uma risada alta e sincera que ecoava pela rua silenciosa, acordando os gatos. As cadeiras de macarrão, que esticavam e deixavam marcas de grelha nas nossas costas, e os bancos de madeira descascada eram os nossos tronos. A rua era a extensão da nossa sala de estar e o céu, sem a poluição luminosa das cidades grandes, era o teto comum de uma comunidade que sabia o nome de cada vira-lata, de cada gato de telhado e de cada drama familiar. Sentia-se o cheiro doce da dama-da-noite que se abria com o sereno e o som incessante dos grilos pontuando as fofocas intermináveis.

Comentários

  • Author

    Querido amigo e poeta Evaldo, essa continuidade de seu "Inventário das calçadas" trouxe-me também um gostinho de infância, embora a minha não tenha sido assim tão linda como foi a sua!... Mas os cheiros, a poeira, as carreiras depois de pegar uma fruta "proibida", se parecem, mesmo eu tendo sido nascida e criada na capital. E isso porque nos idos dos anos 60, a realidade era um pouco similar àquela que nos trouxe você, em relação aos anos 70-80 em sua terra natal. Aguardando por aqui, ansiosa, pelo crescimento desse acervo memorialístico das calçadas de pedra de onde nos vêm tantas lindas histórias! Gratidão!


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