No dia 16 de agosto inicia-se oficialmente a propaganda eleitoral nas ruas e na internet. A tendência é de que seja uma campanha aguerrida e novamente polarizada, lulistas e bolsonaristas digladiando-se nos dois extremos. Ganhará a eleição quem tiver o menor índice de rejeição, não quem apresentar as melhores propostas. É o que apontam pesquisas recentes e preveem os analistas políticos.
A poucos meses do primeiro turno das eleições, o que se vê são notícias ruins e escândalos envolvendo os principais protagonistas (ou integrantes de seus partidos) do pleito de outubro. Lula (PT) recentemente se deparou com a notícia de que o senador e ex-governador Jaques Wagner, do PT da Bahia, havia recebido vantagens e mimos milionários do Banco Master. Wagner é amigo de confiança de longa data do presidente Lula e um dos principais caciques petistas no Nordeste. A ranhura na imagem do senador, até poucas semanas atrás líder do governo no Senado, poderá desvelar novas ramificações nas relações nada republicanas de Vorcaro com o governo da Bahia.
No outro polo o enredo é também de escândalos. O pré-candidato do PL Flávio Bolsonaro, atingido pelos tentáculos do Daniel Vorcaro, precisa explicar o que realmente existe ou existiu entre ele e o ex-banqueiro dono do Master, ou seja, se a relação entre eles se resume no patrocínio do filme Dark Horse, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, ou se tem algo mais. Há ainda as desavenças familiares envolvendo o senador e sua madrasta e ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, que divulgou vídeos recentes nos quais acusa o enteado de tê-la humilhado e a tratado com rispidez. O assunto entre os dois foi o apoio do PL a alianças no Ceará. Madrasta e enteado se opõem em diversos pontos das articulações no estado nordestino, dando início a mais um conflito envolvendo o clã Bolsonaro em pleno período eleitoral.
No âmbito internacional tem-se como notícia com potencial repercussão na disputa eleitoral a queda de braços entre Lula e Donald Trump no tabuleiro econômico. Trump, amigo da família Bolsonaro, insiste no tarifaço a produtos brasileiros. O senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro, antevendo um possível efeito destrutivo desta medida em sua campanha, tenta convencer o eleitor brasileiro de que não tem nada a ver com isso, e que a culpa pelo tarifaço americano é do presidente Lula. “Lula não tem mais condições de ser presidente do Brasil, o Biden brasileiro está ranzinza, inconsequente e se tornou um perigo para a nação”, esbravejou Flávio no dia em que os EUA confirmaram a aplicação das tarifas. Resta saber se a opinião pública vai concordar com o pré-candidato do PL. Pesquisa divulgada pela Quaest na última quinta-feira, 16, mostra que a maioria dos brasileiros atribui a Flávio Bolsonaro a responsabilidade pelas tarifas econômicas de 21% impostas pelos Estados Unidos a uma lista de produtos do Brasil. 51% dos entrevistados ouvidos pelo instituto concordam com a versão de Lula que acusa o senador de ter “conspirado contra o Brasil”. Já 30% concordam com o argumento de Flávio, que afirma que Lula “provocou os Estados Unidos”.
Triste ver a decadência da política no Brasil, agravada ainda mais pela polarização. Partindo da premissa de que a política, através do debate construtivo de ideias, deveria ser, por excelência, a ferramenta para a busca do bem-comum na gestão da coisa pública (res publica), o que se vê no Brasil polarizado é o contrário disso. Assiste-se ao total emburrecimento da instituição política que se agoniza num processo acelerado de autodestruição.
Quando, enfim, se discutirá em alto nível no Brasil políticas públicas de fato voltadas para o bem-estar dos cidadãos, garantindo-lhes, equidade, direitos e deveres? O horizonte não é animador, pois, enquanto a sociedade continuar avalizando a polarização que ora impera no país, as duas pontas dos extremos continuarão se retroalimentando do discurso de ódio, dividindo perversamente o país, dificultando o surgimento de novas lideranças e, por conseguinte, de novos projetos para a nação.