A última viagem do leite


Homenagem Especial

Cláudio Ruas Pinto0

Carlos do Miro em seu caminhão - trabalho dedicado ao meio rural e amizade com o homem do campo (foto arquivo pessoal)

O dia amanheceu triste hoje aqui na roça. Frio, fechado de neblina - e com a notícia da partida do nosso amigo Carlos do Miro (Carlos Alberto Belo faleceu em Resende Costa em 29/05/2026), que até outro dia ainda puxava leite aqui na nossa região. Ainda à moda antiga, no latão mesmo. O que para muitos pode parecer um atraso, mas que na verdade não era. Era o contrário. Graças ao seu trabalho, ele ainda conseguiu manter por muitos anos na atividade micro produtores de leite, daqueles que tiram tão pouco ao ponto de não conseguirem vender para os laticínios. Aposentado e, como se diz por aí, “controlado”, Sô Carlos não precisava fazer esse tipo de serviço. De acordar às 3 da manhã, debaixo de chuva ou frio para se enfiar nos grotões do nosso município, enfrentando poeira ou barro ao ponto de meter até corrente no pneu da sua D40, que, por sinal, ele mesmo consertava (trabalhou na fábrica da GM, em São Paulo, por muitos anos). Fazia porque gostava. Era trabalhador demais. E gostava porque se importava com essas famílias, com esses outros heróis anônimos que, assim como ele, faziam e fazem a roda girar e o alimento chegar à mesa das pessoas. Que nem se dão conta da sua existência - e da dureza do seu trabalho! E que seguirão pagando uma merreca por um litro de leite.

Além do leite, ele levava um recado, um remédio de vaca, dava uma carona, ajudava anunciar uma criação e concretizar negócios (também mexeu com transporte de gado). E do alto da sua sabedoria e rodagem de vida, Sô Carlos foi para mim um grande conselheiro, sobretudo para assuntos de roça. Mas de vida também. Tornou-se um amigo e, além disso - e diante da ausência do Sô Rosalvo do Góes, meu saudoso pai - até mesmo uma figura de referência paterna. Como assuntei mais cedo por aqui, é com esses caras, que não se fabricam mais, que a gente aprende a virar homem de verdade. Triste pela partida, mas feliz pelo privilégio de ter caminhado ao lado dele nos últimos anos, fica aqui minha singela homenagem, meu agradecimento e meus sinceros sentimentos para a família desse grande homem. O dia amanheceu fechado de neblina. Mas o sol já apareceu e o céu tá lindo! Nosso amigo chegou lá! E está bem.

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário