Há 25 anos, Antônio Januário da Silva, o Toninho, fabrica oratórios artesanais de madeira de demolição, em São João del-Rei. Nascido em Resende Costa, ele começou a trabalhar em 1972 com móveis antigos na Carpintaria Nhá Chica, de Gerson Vieira (Tenta do Zé Padeiro), genro do são-joanense e comerciante de antiguidades Jorge Mendonça (já falecido).
“Eu comecei lixando as peças”, lembra Toninho. “Daí começamos a fabricar porta-bíblias, que o Tenta vendia e pagava comissão por venda.” Após o expediente de trabalho, Toninho começou a aprender a arte de confeccionar oratórios. “Quando davam quatro horas (horário de parar), eu pegava ponta, sobra da madeira, e usava para fazer oratórios. Colocava para vender na marcenaria e o Tenta tirava a comissão dele.”
Nesse meio tempo, Toninho aproximou-se do famoso escultor sacro Valcides Arvelos (1926-2008), que morava na sua rua, e, sempre que era possível, observava o santeiro trabalhar no fundo do quintal. Fascinado por arte sacra, Toninho chegou a esculpir uma imagem de São Francisco. “O Valcides me ajudou no acabamento, a parte mais difícil, e eu vendi a imagem para o sogro do Tenta.” Mas a escultura de santo teve vida curta.
O primeiro oratório feito por Toninho foi vendido para Vanira do Nhonhô, que trabalhava nos Correios. “Ela morava em Barroso, onde o marido era carteiro; uma vez, ela foi passear lá em casa e se interessou por um oratório. Eu disse que estava aprendendo, mas fiz.” O segundo oratório foi destinado a uma imagem de São Sebastião, da capela do povoado do Barro Vermelho. “Eu fiz o entalhe e o Antônio Viaco (carpinteiro) fez a montagem.”
Novos horizontes
Cinco anos depois, Toninho foi trabalhar na marcenaria Casarão da Antiguidade, em Juiz de Fora, onde permaneceu por nove meses. “Lá, eles faziam restauração de móveis antigos.” Em 1981, transferiu-se para as Obras Sociais Fé e Alegria, da Igreja Missionária Filadélfia, em São João del-Rei. Eles fabricavam móveis para igrejas e cadeirinhas e mesinhas para a creche de sua propriedade.
Uma queda no movimento das Obras Sociais levou à demissão de Toninho, que, em 1985, retornou a Resende Costa para trabalhar na reforma do Grupo Escolar Assis Resende. Três meses depois, estava de novo em São João, onde ingressou na fábrica de móveis Maciel. Em 1988, foi chamado de volta para as Obras Sociais e, em 1991, transferiu-se para a Home Furniture, que fabricava móveis ingleses. “A Rede Globo chegou a comprar muito móvel tipo inglês da Home Forniture para novelas.”
Toninho passou, ainda, pela Móveis Coloniais, no antigo bairro do Porto (atual Santa Cruz de Minas), e, em 1993, pela OSEC (Organização Santamarense de Educação e Cultura), no prédio do antigo Patronato, atual Campus Tancredo Neves da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). “Nós fabricávamos cadeirinhas da Mônica, que eles levavam para dar acabamento em São Paulo.” O último emprego de Toninho foi na Móveis Maciços, de São Sebastião da Vitória.
Oficina em casa
A partir de 2000, Toninho passou a trabalhar em casa, na saída para Ritápolis e São Tiago, onde começou a fabricar oratórios de criação própria. No início, a rotina era a mesma. Toninho comprou algumas ferramentas e, quando voltava do serviço, produzia oratórios e baús na própria casa.
Logo a fama correu mundo. Então, Toninho optou por ficar apenas com os oratórios porque a procura era grande. A experiência levou a que ele criasse os próprios modelos. “Os modelos são tirados da minha cabeça. Costumo olhar fotos do Museu de Ouro Preto, por exemplo, mas eu gosto mesmo é de fazer a partir da minha idéia. E nem poderia vender como antigo, tem que vender como cópia.”
De qualquer forma, Toninho cria a partir de tipos de oratórios já existentes. Um deles é o oratório bala, com cerca de 50 cm de altura, que até hoje recebe encomenda. É feito de madeira roliça oca (o primeiro foi de pau-brasil que a compradora deu de presente para um funcionário da Rede Globo). Redondo (de cedro, bambu gigante etc.), com porta abrindo em duas bandas, pedestal e um torneado com uma cruz. “Antigamente, andava em lombo de burros.”
Outro é o oratório D. João V, de origem da época colonial, em madeira entalhada, repartimento para o presépio e, na parte superior, uma imagem de santo ou um crucifixo. Geralmente é uma peça feita por encomenda. Toninho tem um oratório desse tipo inacabado.
Um terceiro tipo é o oratório Cruz e Porta ou “CP”, com altura em torno de 20 cm. É um oratório bastante procurado por ser uma peça simples e mais acessível. Geralmente, é confeccionado em cedro ou peroba, em forma de “caixote”, com porta em duas bandas, algum entalhe e uma cruz.
Já o oratório bola, com cerca de 50 cm de altura, também é montado em forma de “caixote” com uma bola torneada, na qual é fixada a cruz. Há muita demanda para esse modelo também.
Mas Toninho trabalha com outros modelos de um catálogo em sua posse, que vai adaptando de forma a criar peças com algum diferencial. Os oratórios são “envelhecidos” com produto de cor ocre, cera apropriada e extrato de nogueira.
Toninho já vendeu muitas peças para clientes de São João del-Rei, Tiradentes, Ouro Preto, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades. Como está aposentado, atualmente produz menos oratórios. Mas ele se ressente mesmo é da falta de jovens interessados em aprender para dar continuidade ao ofício.
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