Artista resende-costense atua no restauro da icônica Torre de Belém


Cultura

José Venâncio de Resende0

fotoSilviney em frente à Torre de Belém em Lisboa (fotos arquivo pessoal).

O marceneiro e entalhador de arte sacra Silviney Trindade de Almeida prestava serviços havia pouco mais de três meses no restauro da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, quando recebeu um convite da N-Restauros Conservação e Restauro, Ltda. para retornar a Portugal. E, desde meados de maio, ele trabalha nas obras de restauro e conservação da icônica Torre de Belém, às margens do rio Tejo, em Lisboa. A previsão é de que o trabalho seja concluído em um ano.

Na Catedral do Pilar, o artista resende-costense trabalhou nos complementos da talha dourada e no reforço estrutural dos retábulos. Na Torre de Belém, atua na limpeza dos ornamentos, no entalhe dos complementos artísticos e no reforço da ponte de madeira que liga a margem do rio à torre, entre outras atividades.

 

Trabalhos em Portugal

Em 2018, Silviney realizou um projeto particular de retábulo de pinho de Riga (madeira de demolição) no centro da capital portuguesa. Depois, restaurou castiçais de prata para a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Basílica da Estrela (antigo templo católico de Lisboa). 

Em 2023, a convite da Casa Arte Sacra Fânzeres (tradicional empresa voltada para a produção de esculturas e mobiliário religiosos em madeira inteiramente à mão), realizou projetos de andores originais para Santiago de Compostela, na Galiza (Espanha), e para Florença (Itália). Também fez um retábulo para a paróquia da cidade de Montijo, na região de Lisboa. 

Em Oeiras, região de Lisboa, realizou trabalhos de restauro (tela e moldura) da pintura oitocentista, a óleo, do Marquês de Pompal (secretário de Estado no reinado de D. José I, em 1750-1777), de 3,0m de altura x 5,0m de largura, para a Câmara Municipal (equivalente a Prefeitura). Também fez uma réplica da mesma pintura, já que o quadro original (adquirido pelo Município em 1939 quando a família Carvalho vendeu a Quinta de Oeiras) seria transferido para o Palácio Marquês de Pombal, no centro histórico.

 

Sobre a Torre de Belém

Construída entre 1514 e 1519, época dos descobrimentos, a Torre de Belém fazia parte de um plano do rei D. João II para proteger Lisboa. Com a sua morte, coube a D. Manuel I, seu sucessor, a tarefa de comandar a edificação da Torre. Foi dedicada a São Vicente e associada com outro empreendimento de vulto, o Mosteiro dos Jerônimos (construção iniciada em 1501/1502), pois teria sido “fundada, dentro na água, para guarda deste Mosteiro, e do porto de Lisboa”, segundo escreveu Damião de Góis (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, 1566-67).

“Como símbolo do prestígio do Rei, a sua decoração ostenta a simbologia própria do Manuelino – calabres que envolvem o edifício, rematando-o com elegantes nós, esferas armilares, cruzes da Ordem Militar de Cristo e elementos naturalistas”, conforme descrição da Comissão Nacional da UNESCO*. A Torre conjuga dois modelos arquitetônicos distintos: a torre alta de feição medieval, mais esguia e com quatro salas abobadadas; e o baluarte, mais largo, um dispositivo militar mais moderno.  

Além da estrutura do edifício, destacam-se a sobrecarga ornamental e a decoração festiva na modalidade portuguesa de tardo-gótico “manuelino”, segundo Museus e Monumentos de Portugal**. “A heráldica régia, obsessivamente presente, mistura-se com motivos ornamentais diversos, como cordas, nós e animais, não faltando elementos de alusão mourisca.” E na fachada sul da torre alta, da extensa varanda, “uma loggia (galeria ou pórtico), pensada para acolher o aparatoso cerimonial de corte que, decerto, se intensificaria na chegada e na largada das embarcações”.

Desde 1983, o monumento está inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Atualmente, é uma referência cultural, símbolo identitário da cidade de Lisboa e da especificidade de Portugal que passa pelo diálogo privilegiado com outras culturas e civilizações. Histórica e artisticamente, associa-se ao Mosteiro dos Jerônimos e aos Descobrimentos Portugueses.

 

* https://www.patrimoniocultural.gov.pt/pat_mun/torre-de-belem/

** https://www.museusemonumentos.pt/pt/museus-e-monumentos/torre-de-belem

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