Carnaval de Resende Costa continuará na Rua Gonçalves Pinto em 2027

Prefeitura decide manter a festa no endereço tradicional após discussão sobre alternativas; limitações de espaço e melhorias na infraestrutura seguem como desafios para a organização do evento


Cultura

Ana Paula Ramos0

Rua Gonçalves Pinto durante o Carnaval 2009 - sem tendas e palco (foto arquivo JL)

A decisão da Prefeitura Municipal encerra, por ora, a discussão sobre a possibilidade de transferir a programação do Carnaval de Resende Costa para outro ponto da cidade – debate nas redes sociais que mobilizou, nas últimas semanas, moradores da cidade, representantes da administração municipal, integrantes de blocos e foliões. A conversa trouxe à tona um desafio: como melhorar a estrutura, a segurança e o conforto sem perder as características do Carnaval de rua e da tradição local?

Para o prefeito Lucas Paulo (PSD), a discussão surgiu diante das dificuldades de ampliar a estrutura no endereço onde o Carnaval, sobretudo os dias oficiais de folia, acontece há mais de 40 anos, a rua Gonçalves Pinto, principal via do centro da cidade. De acordo com o prefeito, o espaço da Gonçalves Pinto já não atende às necessidades atuais do evento. “O Carnaval precisa ser reformulado, mas o local onde é realizada a programação dificulta uma reformulação”, afirma. O prefeito argumenta que a falta de espaço dificulta a oferta de serviços e a organização das estruturas. “Se a gente precisa melhorar o atendimento gastronômico ou, por exemplo, o atendimento de banheiro, nós não temos espaço.”

A montagem dos equipamentos que constituem a estrutura para shows e atendimento aos foliões também interfere na circulação de veículos, inclusive nos intervalos da programação no centro da cidade. Para Lucas Paulo, é necessário buscar soluções que permitam oferecer melhores condições ao público sem, no entanto, descaracterizar a festa.

A Avenida Tiradentes, conhecida como “nova avenida”, na entrada da cidade, chegou a ser considerada uma alternativa pela administração municipal. Outros locais, como o CAT (Centro de Atendimento ao Turista), a praça Coronel Souza Maia (Praça do Rosário) e o Parque de Exposições também apareceram como sugestões aos moradores durante a consulta nas redes sociais.

Segundo o jornalista Cássio Almeida, assessor de Comunicação da Prefeitura, a publicação nas mídias digitais não indicou previamente um espaço preferencial. O objetivo foi permitir que a população apresentasse suas opiniões livremente. “A adesão foi excelente, com pontos de vista diversos e boas sugestões de locais”, informa.

As manifestações incluíram tanto a defesa da mudança quanto a permanência na Rua Gonçalves Pinto.

 

Tradição e estrutura

A Rua Gonçalves Pinto representa, para muitos participantes, mais do que o local de realização do Carnaval. Márcio Fernandes de Resende, conhecido como Chiano, eletricista da prefeitura e mestre da Bateria do Rifugo, defende a permanência na avenida pela relação construída entre os blocos, a bateria e o público. “A avenida representa tradição, um local acolhedor, onde acontece nosso Carnaval. Desde que comecei a trabalhar como mestre da bateria, é ali que tudo começa e tudo termina”, afirma.

Chiano ressalta que a localização central facilita o deslocamento dos moradores e favorece a interação entre os músicos e os foliões. “A proximidade com o público faz toda a diferença. A energia que vem das pessoas ajuda a bateria a tocar, a se envolver e a fazer um Carnaval mais animado.” Para ele, parte dos problemas pode ser enfrentada com mudanças na organização do espaço. A principal sugestão é impedir o estacionamento de veículos em trechos estratégicos durante a festa. “Não acho que simplesmente colocar o Carnaval em um espaço maior vá resolver tudo. É preciso pensar também na dinâmica do Carnaval e, principalmente, em como manter a interação entre a bateria e o público”, pondera.

Embora defenda a permanência da festa no centro da cidade, Chiano reconhece a importância de melhorias na segurança, na organização e no conforto dos participantes.

 

Melhorias e potencial turístico

Luiz Ezequiel de Resende, conhecido como Bacarini, que também acompanha o Carnaval como folião, defende a mudança de local. Para ele, o espaço atual apresenta limitações relacionadas à segurança, à alimentação, aos banheiros, à iluminação e à decoração.

Ele considera que uma estrutura mais ampla poderia favorecer a participação dos foliões e cita a Avenida Alfredo Penido, a conhecida Avenida dos Artesanatos, como um lugar ideal para realização do Carnaval, considerando o provável aumento da participação de foliões vindos de outros lugares. “Com certeza [a Avenida Alfredo Penido] já oferece toda a infraestrutura necessária para a realização de um mega carnaval para o povo de Resende Costa e turistas, com seus bares, restaurantes, lanchonetes, churrascarias etc. Espaço para estacionamento, montagem de palco e arquibancadas. Destaca-se também a possibilidade de subdividir o espaço para diferentes ritmos musicais.”

Mesmo com a decisão de manter a Rua Gonçalves Pinto, as questões levantadas por Bacarini permanecem relacionadas à organização do evento. “Estamos propondo apenas a mudança de local. O Carnaval continuará na rua, com seus blocos atravessando a cidade”, argumenta.

Para ele, discutir o futuro do Carnaval também significa pensar que um novo modelo poderia atrair visitantes e incentivar ainda mais os jovens a participar da folia em Resende Costa. “Pensar no futuro do Carnaval de Resende Costa, que já foi referência regional, é lembrar que o nosso desenvolvimento cultural e econômico depende do turismo. Este novo modelo de Carnaval atrairá não somente turistas, mas também trará de volta os jovens resende-costenses que, nos últimos anos, têm migrado para outros locais como Belo Horizonte, Prados, Ritápolis e [distrito de] Jacarandira”, afirma. Bacarini também destaca que fortalecer o evento pode contribuir para movimentar diferentes setores da economia local. “Afinal de contas, Carnaval é festa popular”, conclui.

 

Preservar a identidade do Carnaval

A secretária municipal de Cultura, Esporte e Lazer, Giorgianne de Resende Ferreira, a Gigi, também apontou as limitações físicas da “avenida” Gonçalves Pinto como um dos desafios enfrentados pela organização do evento. “Precisamos conseguir organizar palco, barracas, tendas, camarins, banheiros, segurança e a circulação das pessoas em um espaço que tem limitações. Isso acaba tornando a organização mais complicada. Além disso, por se tratar de uma via central e importante para o fluxo [de pessoas e veículos], o fechamento da rua impacta diretamente a rotina da cidade”, afirma.

A secretária destaca, porém, a importância de considerar o vínculo dos moradores com o local tradicional. “A Rua Gonçalves Pinto tem uma importância enorme. Ela se entrelaça com o Carnaval de Resende Costa e permanece viva no coração de muita gente. Aquele lugar guarda uma vida inteira de memórias, encontros e instantes inesquecíveis. Faz parte do patrimônio afetivo da nossa cidade e guarda memórias de várias gerações de foliões.”

A decisão de manter a festa na Rua Gonçalves Pinto mantém o endereço que faz parte da memória dos foliões, mas não elimina as dificuldades apontadas durante a discussão.

O prefeito Lucas afirma que a intenção da administração é preservar os elementos que caracterizam a festa e, ao mesmo tempo, buscar melhores condições para sua realização. “Preservvaremos os blocos, os dias de folia; preservar também a bateria, ou seja, manter a essência do Carnaval de Resende Costa”.

A expectativa é de que o planejamento das próximas edições considere os problemas identificados e as sugestões apresentadas pelos moradores, de modo a manter viva uma das principais manifestações populares da cultura de Resende Costa.

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