Carnaval São João del-Rei: Irmãos Metralhas, escola campeã com enredo sobre o Nordeste


Cultura

José Venâncio de Resende0

Comissão de frente da Irmãos Metralhas, vencedora do Carnaval de São João del-Rei (foto Emmanuel Pinheiro ASCOM Prefeitura Municipal)

É de se perguntar se foi a escola de samba Irmãos Metralhas que invadiu a região Nordeste do Brasil ou se foi o Nordeste inteiro que invadiu a Avenida Tancredo Neves no domingo (14), em São João del-Rei. Podemos dizer que as duas respostas estão certas. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Irmãos Metralhas foi a grande campeã do Carnaval 2026 de São João del-Rei, apresentando com brilho o enredo "Se avexe não! O Nordeste é bravura, é cabra da peste!". A Irmãos Metralhas contou a história e exaltou a cultura da região.

Pela primeira vez, o corpo de jurados foi de fora de São João del-Rei. Por meio de processo de licitação, a prefeitura contratou a empresa especializada FESEC, sediada em São Paulo, que atua há mais de 46 anos em atividades relacionadas ao Carnaval. Para além dessa novidade, houve descontentamento das escolas concorrentes, principalmente a Vem me Ver, que se considerou prejudicada no quesito “evolução” (perda de 0,4 décimos) por conta de um tiroteio que aconteceu na avenida durante o desfile da escola.

Veja aqui Adolescente assassinado durante o desfile da Vem me Ver

Depois de algumas horas de reunião a portas fechadas, com os presidentes das escolas de samba, o que aumentou a tensão em frente ao local de apuração, foram mantidas as notas dos jurados e a vitória dos Irmãos Metralhas (o seu 7º título na história). A Vem me Ver, do bairro do Tijuco, ficou em segundo lugar na classificação oficial, seguida da escola de samba São Geraldo.

 

O Nordeste na avenida

Foi um desfile brilhante tanto em termos visuais (muito luxo, cores, ousadia e emoção) quanto em termos sociais e históricos. O enredo foi “uma exaltação à identidade nordestina, à força do seu povo, às lendas, à fé, à arte de mestres, como Mestre Vitalino e Luiz Gonzaga, ao cangaço, ao Velho Chico e à alegria como forma de resistência”.

Comissão de frente “A Coragem do Cabra da Peste: migração em pau de arara fugindo da seca”, apresentou a caracterização de Lampião (chapéu, a peixeira, as botas) e Maria Bonita.

Algo não muito usual, a escola levou logo na primeira ala as “Baianas Sol do Sertão: o sol forte e a força da mulher sertaneja”. Com cores fortes, em tons dourado e laranja, representavam o sol que incide sobre o sertão, girando suas saias e evocando o calor intenso e a luminosidade. Movimento que traduz a dinâmica da vida, a resistência ao sol escaldante, transformando a adversidade em continuidade.

A primeira alegoria (carro abre-alas), “Sol e Sertão: caveira e mandacaru, morte e esperança”, representava o pau de arara, transporte associado à migração nordestina. Transportava os retirantes para outro estado em busca de uma vida melhor. Homens e mulheres que deixaram sua terra não por livre escolha, mas por necessidade, principalmente rumo a São Paulo.

Uma imponente caveira de bovino simbolizava a dualidade entre a vida e a morte. O gado que acaba morrendo de sede no sertão nordestino. Em contraposição à luz que ilumina e fortalece. O destaque ficou por conta de Lilian Zini, como o sol. E ainda o verde da vida, representado pelo mandacaru.

A segunda e a terceira alas representaram, respectivamente, “Lendas e Mitos: figuras como a Comadre Fulozinha” e “Religiosidade: devoção ao Padre Cícero”. O imaginário popular nordestino ganhou forma na avenida, exaltando as narrativas fantásticas que atravessam gerações e permanecem vivas na tradição oral do sertão. São histórias transmitidas pela fala do povo, carregadas de mistério, ensinamentos e simbologias que integram a memória coletiva da região.

O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira apresentou “Fé e Devoção: festas como a Lavagem do Bonfim e Nossa Senhora do Carmo”.

Em seguida, a 4ª ala, “Versos do Sertão: cordel e xilogravura”. Uma das mais autênticas expressões da cultura nordestina. Fantasias com estampas que remetiam à xilogravura, com traços e estéticas inspiradas nos folhetos tradicionais vendidos em feiras e praças do interior nordestino. Nos adereços de mão, cordéis abertos, simbolizando as rimas populares que narram histórias de amor, bravura, fé e cotidiano.

A segunda alegoria (primeiro carro), “Arte e Palavra: barro, cordel, cangaço e o baião, teve como destaque o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que, quando jovem, fez o serviço militar no então antigo 11 RI (Regimento de Infantaria) de São João del-Rei. Reafirmou-se a musicalidade como elemento fundamental da cultura nordestina. Nas laterais do carro, as cangaceiras, Júlia e Fernanda. Tonho, o Rei Momo, foi destaque com a saudação ao cordel, a Luiz Gonzaga e ao mestre Vitalino.

Essa alegoria celebrou a potência criativa do Nordeste, reunindo artesanato, literatura de cordel e grandes nomes da cultura nordestina. Evidenciou a força da palavra, da arte moldada à mão e da música que ecoa como identidade regional. Bordadas à mão, rendas e páginas de cordel dialogavam com esculturas de barro inspiradas na obra do mestre Vitalino, símbolo da arte popular pernambucana.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira apresentou “Lampião e Maria Bonita: símbolos de coragem”.

Destaque para a bateria, que recebeu o nome de “Batuque do Cangaço: ritmistas como bonecos de barro”. Seus componentes vestiram-se como cangaceiro do sertão, com gibões e chapéus adornados, levando para a avenida a força, coragem e a alegria nordestinas.

Na “Harmonia”, sanfoneiros dialogavam com o samba enredo. E a quinta ala, “O Som do Nordeste: baião, xote e forró”, prestou homenagem à música nordestina, celebrando os mestres responsáveis por consolidar a identidade sonora do sertão por meio do baião, do xote e do forró, em especial Luiz Gonzaga e Dominguinhos da Sanfona. Musicalidade como elemento estruturante da cultura nordestina, capaz de traduzir sentimentos de saudade, celebração e resistência.

A sexta ala, “Águas do Sertão ao Mar: o Rio São Francisco e o litoral nordestino”, valorizou o papel do “Velho Chico”. Já a sétima ala, “Arraiá do Sertão: clima de São João com fogueiras e quadrilhas”, exaltou as festas nordestinas, tão importantes para o povo, representando a dança da quadrilha e as festas de São Pedro, São João e Santo Antônio.

Por fim, a terceira alegoria (carro alegórico), levou à avenida a “Explosão de Cores: o Galo da Madrugada, trio elétrico e os Bonecos Gigantes de Olinda”. O tradicional bloco com mais de um milhão de pessoas, segundo o Guiness Book. Meninas na lateral do carro representavam o frevo, inclusive com as sombrinhas tradicionais da dança típica do Nordeste.

*Acompanhei os desfiles pela transmissão da Rádio São João del-Rei. 

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