Diego Mendonça: os desafios de um pintor evangélico em S. João del-Rei


Perfil

José Venâncio de Resende0

fotoPintando na rua, em forma de protesto.

O pintor são-joanense Diego Mendonça já participou de 80 exposições, entre individuais e coletivas, das quais mais de 15 fora do Brasil. Ele já vendeu quase 800 obras de arte originais, mas muito pouco delas em sua terra natal. “Se eu vendi 15 em São João del-Rei, foi muito. O mineiro tem preconceito de investir em obra de arte, principalmente da própria terra. Como disse Jesus, o profeta não tem honra em sua casa. Nós temos de valorizar o que é nosso. A Europa valoriza os seus artistas, os Estados Unidos valorizam os seus artistas; e o brasileiro não.”

Diego Mendonça, 43 anos, evangélico, descendente de açorianos, natural do bairro do Tijuco, é filho do marceneiro e escultor José Maria Mendonça e de Marilda Nascimento, e neto do comerciante de móveis antigos Jorge Mendonça (já falecido). “Todo mundo na família queria que eu fosse doutor; mas eu desde criança queria ser artista. Meu pai queria que eu fizesse Medicina, mas eu não podia ver sangue. Então, fui fazer Direito.”

Diego Mendonça formou-se em Direito pelo Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves (2009) e foi aprovado na OAB, mas “advoguei três meses. Como a arte sempre pulsou muito forte dentro de mim, minha alma de artista não conseguiu se enquadrar dentro de outra coisa. Então, eu optei por ser feliz dentro daquilo que eu escolhi do que ser rico, infeliz, dentro do que os outros queriam que eu fosse”.

Foi assim que Diego Mendonça ingressou, em 2010, no curso de artes plásticas da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), com ênfase em cerâmica. Depois de cumprir mais da metade do curso, ele descobriu o PIPAUS (Programa Interdisciplinar de Pós-graduação em Artes, Urbanidades e Sustentabilidade) da própria UFSJ. "Bom, se eu quero seguir arte, já tenho um diploma de nível superior, vou tentar fazer este curso.” Então, preparou um projeto para o mestrado focado em obras de arte com material reaproveitado da região, “que era a minha vivência dentro de marcenaria”.

Diego Mendonça cursou, ainda, o pós-graduação em Arte Terapia na Faculdade de Minas (FACUMINAS), de Belo Horizonte. “Tanto que eu dou aulas de pintura e as minhas alunas até largaram terapia de tão boa que é a aula”. Atualmente, ele está cursando o ensino de artes e história na mesma faculdade, além de língua portuguesa, literatura e artes. “Então, estou seguindo a carreira artística. A arte é a minha vida, assim como a fé. Então, eu trabalho muito nessa área do exercício da arte para a manifestação da fé, daquilo que eu acredito, daquilo que eu creio, daquilo que eu defendo. A minha arte não é para chocar, mas é uma arte para encantar, para falar ao coração, para trazer memórias afetivas, para ilustrar cenas do cotidiano.”

Caminho escolhido

Diego Mendonça começou a pintar como autodidata, fazendo quadros decorativos para loja do pai, José Maria. “Meu avô (Jorge Mendonça) também comprava quadrinhos para o antiquário dele, só para incentivar o neto, criança, adolescente.” Seu primeiro quadro foi vendido aos 15 anos de idade. “Então, eram, assim, coisas decorativas, flores, passarinhos, orquídeas etc., coisas bem simples. E quando eu decidi pintar quadros mais sofisticados, eu me inspirei muito em Caravaggio e Michelangelo, os mestres da arte mundial.”

Assim, ele começou a fazer cópias dos trabalhos destes artistas “para aprender a pintar; até que eu comecei a fazer releituras e intervenções nos quadros deles”. Um exemplo foi o quadro da Sagrada Família, de Michelangelo: “eu estampava o quadro, mas fazia uma faixa xadrez, que era influência da loja da minha tia Zélia, junto da Oficina de Agosto – os donos eram sócios de meu pai na época”.

Diego Mendonça incorporou algo de “brasilidade nos quadros”, e assim vendia para o Brasil inteiro e inclusive para o exterior. “Eu introduzia cachos de banana aos pés de Maria, uma arara voando atrás, etc. E o pessoal começou a gostar muito, e eu não sei quantos quadros da Sagrada Família eu pintei em madeira de demolição. Foi uma febre! Até para Miami (Estados Unidos) foram alguns quadros de índio nessa pegada.” Na mesma linha, ele também pintou um quadro da criação do homem, inspirado em Michelangelo, onde também introduziu cachos de banana, cesto de caju, macaquinho correndo na cena, etc.

A influência de Quaglia

Nesse meio tempo, Diego Mendonça conheceu o pintor baiano João Quaglia, por intermédio de Zélia Mendonça que era marchand dele. Na ocasião, Quaglia aconselhou o jovem pintor: "Pare com isso, pare de copiar os mestres. Você tem de criar os seus personagens, criar a sua identidade, criar seus quadros”.

Como nesta época Guaglia morava em São João del-Rei, Diego tornou-se seu aluno (seis anos) e, posteriormente, ajudante (dois anos). “Juntos, nós construímos uma série chamada Músicos, já que eu também estudei no Conservatório e toquei clarinete, durante a adolescência, na Banda Teodoro de Faria e na Orquestra Ribeiro Bastos.” Assim, “em 2008, fiz minha primeira exposição individual, no Centro Cultural da UFSJ, sob a batuta do mestre Quaglia. Depois disso, nunca mais eu parei”.

Arte sacra

Diego Mendonça tem enveredado pela arte sacra, por exemplo pintando quadros bíblicos. “O que eu tento fazer é não pintar, por exemplo, um Jesus como o da igreja católica, loiro dos olhos azuis em sua grande maioria. O Jesus que eu estou pintando foi inspirado num amigo do meu irmão, que pousou para mim e tem cara de árabe. Então, eu tento fazer esse Jesus mais humano, a Maria mais humana, que sofreu ou que recebeu o anjo Gabriel, como o quadro Anunciação que eu pintei; é uma Maria mais com traços daquela região, dos árabes. Então, sim, é para quebrar essa coisa do misticismo religioso na pintura. Eu não coloco, por exemplo, o halo; eu coloco as cenas mais humanistas.”

Nesta linha de trabalho, Diego já fez seis ou sete quadros. “Eu vou fazendo esses quadros nos intervalos porque não são encomenda. Por exemplo, a pietá (obra de Michelangelo) não é uma cena bíblica, mas é uma cena histórica. Já a cena bíblica do descendimento da cruz foi quando José de Arimateia e Nicodemos pediram o corpo de Jesus e foram lá retirar. A Bíblia não fala que Jesus foi colocado no colo de Maria, mas Maria esteve o tempo todo ali, com João, com alguns discípulos, com Maria Madalena. Então, eu pintei Maria recebendo o Jesus no colo, mas eu coloquei José de Arimateia e Nicodemos.” O quadro do descendimento da cruz, pintado na Semana Santa de 2025 em São João del-Rei, encontra-se na exposição de Bruno Reis Galeria, em Belo Horizonte, e no final vai a leilão.

Diego é também autor do tríptico (conjunto de três pinturas unidas por uma moldura tríplice), representando a árvore do conhecimento do bem e do mal, “a queda do ser humano, que foi a tentação que julgaram a culpa na Eva, mas Deus falou foi com Adão, não foi com Eva. Então, a desobediência foi de Adão”. E do quadro da criação de Adão: Também “fiz Daniel na Cova dos Leões; o primeiro milagre de Jesus, que é a transformação da água em vinho; Jesus voltando em glória com os sete selos, quando ele abriu o livro; a ressurreição (Jesus saindo da tumba); a pomba representando o Espírito Santo; e o leão da tribo de Judá (aquela passagem que Jesus era comparado ao leão da tribo de Judá por causa da sua descendência)”.

Atualmente, Diego está pintando a ascensão de Cristo ao céu e Jesus com a mulher samaritana. “E tenho um começado também, que é Jesus e Pedro. Então, aos poucos, eu vou construindo uma história, para futuramente poder fazer um livro, fazer uma exposição com esse tema.”

Dificuldades na terra natal

“Diego, aquele lá do Tijuco?”, é assim que muitas vezes é visto um filho terra, reage o pintor são-joanense. Já aconteceu com impressionistas, como Monet, Renoir e Degas, inicialmente rejeitados em Paris, lamenta. “Van Gogh vendeu um único quadro em vida, para uma amiga do irmão. Então, eu posso dizer que sou privilegiado, se comparado a esses artistas que hoje valem milhões. E o brasileiro tem a síndrome do colonizado, de que tudo que é de fora é melhor. Se o artista faz sucesso lá fora, ele é melhor; então, vou comprar daquele que está fazendo sucesso em Nova York, na Europa. Isso tem mudado um pouco, mas ainda é muito forte.”

Diego Mendonça é convidado para exposições em vários países como Estados Unidos, França, Portugal e Espanha. “Mas em São João del-Rei muitas vezes o pessoal faz exposições e não me chama. Inclusive, na última, da Semana Santa, não fui convidado, mesmo sendo um artista que pinta arte sacra.” E, mais grave, “estão utilizando o patrimônio público, onde o curador tem uma sala todinha pra ele, quando ele tem de ser neutro na exposição. Essa é uma crítica que foi levantada por vários artistas locais, inclusive escultores católicos”.

Diante deste tipo de situação, em 2025, Diego foi pintar na rua, em forma de protesto. “As pessoas me perguntaram: ´Por que que não tem trabalho seu na exposição da Casa do Barão?´ E eu respondi: ´Porque simplesmente não me chamaram, mas eu estou aqui´.” Em compensação, “eu estive muito mais presente perto do público, das pessoas, do que quem estava na própria exposição. Isso foi uma forma de dar um grito, e também de estar perto do público. Acho que o que eu ganhei nesses dois anos em que eu estive na rua pintando foi muito mais do que se eu estivesse na exposição”.

A propósito da Casa do Barão, este foi um dos muitos projetos que Diego Mendonça apresentou ao município. Em duas gestões anteriores, ele propôs à administração local transformar a Casa do Barão em Museu Municipal de Arte. “Inclusive, o projeto que foi executado na gestão anterior foi o meu projeto, só que mudaram algumas coisas.”

A ideia estava em andamento quando Diego se encontrava no Metropolitan Museum, em Nova York; então, ele foi enviando informações do museu para o arquiteto José Luiz Baccarini Neto, então na Secretaria Municipal da Cultura. “Nós queríamos transformar o local em Museu Municipal de Arte, que é o que o Caio Andrade está fazendo hoje, maravilhosamente bem. Embaixo, nós teríamos um ateliê onde se daria aula para crianças de escola pública e haveria exposições temporárias.”

Na época, ao apresentar o projeto, Diego ganhou, como doação, mais de R$ 1,5 milhão em obras de arte, de artistas consagrados de todo o Brasil. O secretário de Cultura da gestão anterior comprometeu-se a executar o projeto; a exposição inaugural chegou a ser definida, com a presença do pintor Carlos Araújo que havia doado dois quadros para o novo museu da cidade. “Estava tudo certo para acontecer, eu seria o curador, voluntariamente, quando veio a pandemia. Os quadros ficaram guardados na minha casa, esperando passar a pandemia para a inauguração do museu. Eu não pedi dinheiro, nem salário, eu só queria o espaço para funcionar o ateliê onde eu daria aulas para as crianças".

Era o fim da pandemia, e Diego Mendonça soube pelo Facebook. Banda de música tocando em frente ao casarão, presenças do deputado Aécio Neves e do secretário municipal de Cultura da época na inauguração do Museu Municipal de Arte do qual “eu seria o curador. Eu nem fui convidado; e nem tive retorno da Prefeitura, nem fui atendido pelo secretário”. Os artistas retiraram as doações e Diego teve de devolver as obras de arte doadas (esculturas sacras, pinturas contemporâneas e clássicas de artistas renomados etc.).

O Instituto

Cansado de depender do poder público, Diego Mendonça decidiu criar em 2025 o Instituto Diego Mendonça, com o objetivo de “promover a arte e trabalhar com crianças em situação de risco. Atualmente, estamos trabalhando com crianças da escola Iago Pimentel, que fica no bairro do Tijuco”.

Uma das iniciativas tem sido a de levar artistas para dar palestras sobre arte, sobre o impacto da arte na vida das pessoas, relata Diego. “E isso tem sido muito impactante, sabe! Uma jovenzinha, adolescente, por exemplo, chegou perto de um dos artistas do Hope, que é grafiteiro e já fez trabalhos para a Nike, para a Adidas, abraçou ele, começou a chorar e disse: ´Você ressuscitou o meu sonho´. E isso não tem preço!”

Uma das aspirações de Diego é o Instituto ter uma sede, um espaço próprio; e para isso uma providência será registrar em cartório a ata de fundação e o estatuto. Enquanto não sai a sede, outras atividades vão sendo desenvolvidas, revela o artista. “Nós já demos bolsas para quatro adolescentes dessa escola, para começar agora em maio estudos de arte: cursos e oficinas de pintura, desenho e escultura. E também já começaram as exposições com a visitação guiada dos artistas”. Por enquanto, patrocinado por Diego Mendonça” e com alguns apoios.

Outra novidade é o trabalho com tecnologia a partir do segundo semestre, conta Diego. “Nós vamos começar a trabalhar com oficinas de inteligência artificial, de construção de marketing etc. com crianças dessa escola.” Tanto aplicado à arte quanto a outras áreas. “É para que essas crianças e adolescentes possam começar a gerar renda. Então, eles podem trabalhar no setor artístico, mas também como designer gráfico, por exemplo. Eles vão trabalhar para os artistas em geral, mas também vão poder trabalhar para qualquer empresa, como autônomo etc.. Então, nós vamos abraçar essas duas áreas (a arte e a tecnologia).” E para isso “nós estamos correndo atrás de doações, de computadores, para que tenhamos condições de ofertar essas oficinas”.

Para além de conseguir o registro da ata de fundação e do estatuto, Diego Mendonça aposta nas parcerias. “Nós temos gente bacana, como o ex-prefeito Ralph Justino e a Nathalia Larsen, do Instituto Vertentes, que fazem parte do nosso Instituto. Foi o Ralph que nos orientou sobre a questão do estatuto. Então, eles estão acreditando no nosso projeto. A gente só precisa de recurso; e um de nossos sonhos é fazer um museu de arte cristã no centro histórico de São João del-Rei.”

Exposições

Entre as cerca de 80 exposições, no Brasil e no exterior, Diego Mendonça cita algumas das mais relevantes. A primeira exposição fora do Brasil de que ele participou foi, em 2006, no evento de decoração “Showin Hight Point By Roberta Shilling”, em Hight Point (Estados Unidos), com dois quadros de índios.

Diego Mendonça também participou, em 2011, da exposição “Three Mineiros”, no consulado geral do Brasil, em Nova York, ao lado de Hélio Souza (que pinta sapatos de luxo) e de Fernando Pacheco (de Belo Horizonte). “Eu fiz uma homenagem à Amazônia, com índios, fauna e flora. Então, foi um sucesso – foram mais de 30 reportagens – que abriu muitas portas.”

Na Europa, a principal participação de Diego Mendonça foi em 2015, no “Salon International D´Art Contemporain”, no Carrousel du Louvre, em Paris (França), com mais de 600 artistas de várias partes do mundo. Na galeria onde estava expondo, ele recebeu o prêmio bronze em votação popular. “Foi uma série linda que eu fiz.”

Outras participações importantes de Diego Mendonça, na Europa, ocorreram em 2016. Uma delas foi na II Bienal das Artes de Versalhes, na França. Outra foi no Triatlon das Artes – Salão de Arte do Principado de Lietchteinstein, Cidade de Vaduz. O pintor são-joanense conquistou o troféu de terceiro lugar com uma escultura de cerâmica.

Outras premiações internacionais relevantes conquistadas por ele foram a medalha de ouro no “42º Salon Premier Art Makes the Diference between Humans”, em Figueira da Foz, Portugal, 2019, com Quadros Díptico Crianças de Circo; o 1º lugar na categoria Artista Internacional, voto popular, do “Troféu Top of Mind International London”, Londres, Inglaterra, 2023; e honra ao mérito, como artista homenageado, na “VI Bienal Europeia e Latino Americana de Arte Contemporânea, 2023.

No Brasil…

Destaques para a medalha de bronze no “IX Salão de Artes da Academia Brasileira do Meio Ambiente”, Rio de Janeiro, 2012, com o “Quadro Criança Indígena”; medalha de ouro na “Bienal Europeia e Latino Americana de Arte Contemporânea”, Rio de Janeiro, 2019, com o “Quadro Protesto por Brumadinho”; e a menção honrosa do júri da “Bienal Europeia e Latino Americana de Arte Contemporânea”, Rio de Janeiro, 2021, com quadro e escultura “Crianças precisam de amor”.

Na Bruno Reis Galeria, em Belo Horizonte, encontram-se quadros de Diego Mendonça em exposição e para leilão. Além disso, o pintor são-joanense tem participado de eventos do meio Gospel com grande repercussão, como o que aconteceu no Mineirão, em maio de 2025, com cerca de 50 mil pessoas, e o congresso organizado, em novembro passado, por Nívea Soares, nos quais ele pintou quadros ao vivo. Desde 2018, o artista também tem participações em congressos da banda gospel Diante do Trono, como também em gravações de álbuns. Agora em maio, ele participará do álbum de 50 anos da cantora Ana Paula Valadão, vocalista da banda. 

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