Em São João del-Rei, Festa dos Passos e Semana Santa com duas igrejas fechadas


Religião

José Venâncio de Resende0

fotoCena da procissão do Encontro na Festa dos Passos de São João del-Rei 2026 (foto Fábio da Silva)

As celebrações dos Passos (festa quaresmal) e da Semana Santa de São João del-Rei, em 2026, estão sendo condicionadas pelo fechamento para reforma das igrejas do Pilar e de São Francisco, tanto em termos da tradicional “Batalha dos Sinos” quanto da logística das solenidades. Os diferentes repiques dos sinos, em diálogo entre as igrejas históricas, encantam moradores e turistas em ritos da Quaresma como procissões do Depósito de Nossa Senhora das Dores e do Senhor Bom Jesus dos Passos, bem como cortejos do Domingo do Encontro (rasouras e momento do encontro das procissões).

O tripé das comemorações é completado com a Semana Santa Cultural, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo em parceria com a Bienal de Arte Sacra de São João del-Rei. Até o dia 5 de abril, serão realizadas atividades variadas como as exposições “Mãos da Terra” e “Caminhos da Paixão” e as Oficinas de Canto Coral e Tapetes de Rua.  

 

Semana Santa

Os preparativos para a Semana Santa (29/03 a 05/04) já começaram há alguns meses, com reuniões internas e com parceiros, como a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo; organização dos convidados para procissões; e verificação da estrutura dos materiais da Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, que promove as celebrações em comunhão com o Monsenhor Geraldo Magela da Silva, pároco da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. As ações, em geral, são desenvolvidas por trabalhadores e voluntários que “nos ajudam a manter viva essa tricentenária celebração”, informa Ricardo Rocha Camarano, provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Dessa forma, a organização já leva em conta o fechamento da Catedral do Pilar e da igreja de São Francisco, uma vez que, desde o ano passado, as solenidades já estão concentradas nas igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de Nossa Senhora do Rosário. “Assim, desde então, nos preparamos para essa mudança, sem deixarmos, no entanto, de manter todas as celebrações”, acrescenta Camarano.  

A preparação da Semana Santa é complexa na medida em que envolve muita gente. “Além dos irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento, que são dezenas que nos ajudam, há também voluntários que auxiliam na montagem dos cenários, limpeza, ornamentação, organização, enfim, em diversas tarefas.” Os custos são cobertos com o apoio da Prefeitura Municipal, que também “nos ajuda na promoção da Semana Santa, sendo importante sua participação de todas as formas. Também contamos com a doação de irmãos e pessoas que nos apoiam na realização de tão importante celebração”.

As celebrações da Semana Santa começam no dia 29 de março (domingo), na igreja de Nossa Senhora do Rosário, com a Bênção dos Ramos, procissão do Senhor do Triunfo e missa solene (Canto da Paixão). Nos dias 30 e 31 (segunda e terça), missas e confissões nas igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de Nossa Senhora do Rosário e via-sacra solene (terça). No dia 1º de abril (quarta), missa e o tradicional Ofício de Trevas – Matinas e Laudes, na Igreja do Carmo (salmos, leituras e cantos. Na quinta-feira (2), missas do Crisma e da Ceia do Senhor (tradicional Lava-Pés na Praça Carlos Gomes), com o Sermão do mandatum”, pelo Padre Mauro Vilela da Silva.

Na sexta-feira (3), a programação inclui o Sermão das Sete Palavras, pelo Padre José Leles da Silva. Marcam o dia a Solenidade da Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, às 15h, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, e o Descendimento da Cruz, às 20:30, nas escadarias da igreja de Nossa Senhora das Mercês, seguido da Procissão do Enterro. As celebrações encerram-se no sábado (4), com o Ofício de Trevas pela manhã e a Vigília Pascal, às 20h, na igreja de Nossa Senhora do Rosário.

 

Festa quaresmal

Manifestação de fé e tradição, a Festa dos Passos (20/02 a 26/03), organizada pela mesa administrativa da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, teve de ser adaptada para contornar as dificuldades resultantes do fechamento da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e da igreja de São Francisco de Assis, segundo o provedor de honra Anthony Claret Moura Nery. Com duas igrejas fechadas, neste ano foi necessário fazer uma “manobra maior” para viabilizar as celebrações, explicou.  

O ponto alto das Comemorações dos Passos foi o quarto fim de semana da Quaresma (13 a 15 de março), dedicado às Dores de Maria ante a Via-Crucis do filho. A procissão do depósito da imagem velada de Nossa Senhora das Dores saiu da igreja de Nossa Senhora do Carmo rumo à capela da Santa Casa de Misericórdia, enquanto a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos, de origem portuguesa, seguiu da igreja de Nossa Senhora do Carmo para a igreja de Nossa Senhora do Rosário.   

No domingo, rasouras (pequenas procissões em torno da igreja) foram seguidas dos cortejos, acompanhados das irmandades e associações religiosas, das imagens de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos Passos e, posteriormente, do encontro no Largo das Mercês e retorno à igreja de Nossa Senhora do Carmo. As solenidades foram marcadas pelos toques concertados dos sinos.  

Pela primeira vez, o Encontro de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos Passos, simbolizando o caminho do Calvário, foi transmitido ao vivo pela TV Aparecida. No tradicional Sermão do Encontro, o padre Jorge Wilson Carvalho Fonseca, Pároco de Sant'Ana do Barroso, lembrou as dores de tantas mães brasileiras com a violência, as drogas, as enchentes e a corrupção, afirmando que Deus olha e se compadece com o sofrimento do coração de todas elas.

Já o exercício do Setenário das Dores, entre 20 e 26 de março, foi mantido na igreja de Nossa Senhora do Carmo. São orações e meditações sobre as Sete Dores de Maria.

Desde o século XVIII, nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, a via-sacra sai pelas ruas da cidade, acompanhada por fiéis para lembrar os últimos passos de Jesus na Terra. Esse ano, a Via-Sacra externa fez um trajeto diferente, em razão das obras de restauro das igrejas de Nossa Senhora do Pilar e de São Francisco.  

A tradicional cerimônia de Encomendação de Almas ocorreu em três sextas-feiras (27/02, 6 e 13/03). Há 300 anos, um grupo de leigos faz peregrinação, altas horas da noite, em cemitérios do centro histórico da cidade, para cantar, rezar e pedir a misericórdia divina pelas almas dos irmãos falecidos. O costume veio com os portugueses no século XVIII. Em pontos tradicionais, são executados os Motetos dos Passos, de autoria dos compositores Martiniano Ribeiro Bastos, Antônio de Pádua Falcão e Willer Silveira.

Essas cerimônias, tanto internas quanto externas, foram abrilhantadas pelas músicas sacras das Orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense, de corporações, como as Bandas Theodoro de Faria, Santa Cecília e Polícia Militar, e de corais, como o da Ordem Terceira do Carmo.

 

Semana Santa Cultural

Em simultâneo, acontece desde 12 de março a Semana Santa Cultural, cuja programação busca unir tradição religiosa, arte e manifestações culturais. São semanas com exposições, palestras, concertos, oficinas e ações comunitárias que valorizam o patrimônio histórico e a religiosidade que marcam o período na cidade.

As atividades começaram com a abertura da exposição “Mãos da Terra”, na sede da Secretaria Municipal de Cultura, mostrando a força da produção artística regional. Esculturas concluídas e peças em processo de criação que aproximam o artista do público são destaques dessa tradição de mais de três séculos.

Destaque ainda para a exposição “De Conto a Ponto”, uma homenagem à tradição das vestes sacras, também na Secretaria. Nesta exposição, as imagens do escultor Fernando Pedersini vestem não apenas tecidos, mas também a memória e o legado silencioso do trabalho feito pela costureira Dona Genura.

Já no Museu de Arte Sacra, acontece a exposição “Caminhos da Paixão”, que reúne imagens de acervos particulares do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, com peças dos séculos XVII, XIX e XX.

Outras atrações foram a confecção de tapetes de rua para a Procissão do Encontro, no Largo das Mercês; a oficina de Canto Coral no Conservatório de Música Padre José Maria Xavier e o ciclo de palestras e mesas-redondas com debates sobre iconografia, arte sacra e história no Memorial Tancredo Neves.  

Oficinas de tapetes de rua, atrações musicais e o concerto da Banda Theodoro de Faria no Largo do Rosário completam a programação. Assim como a Feira da Mineiridade, o concerto “Ave Marias” (Largo de São Francisco) e a apresentação (dia 2 de abril) do grupo “Canarinhos de Petrópolis” na escadaria da igreja de Nossa Senhora das Mercês.

Por fim, até o dia 3 de abril, acontece a Confecção Colaborativa dos tapetes para a procissão, atividade aberta à participação da comunidade, no Largo de São Francisco, bem como a visitação dos Passinhos com a participação da orquestra Lira São-Joanense.

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