O Festival de Literatura de São João del-Rei (FELIT) retornou, após cinco anos de pausa, às praças, teatros e centros culturais da cidade. Entre os dias 16 e 20 de setembro, o FELIT promoveu a resistência cultural e o debate sobre temas sociais, por meio das diversas exposições, oficinas, rodas de conversa e shows.
Um dos momentos mais marcantes ocorreu no sábado (19) no centro cultural da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). O espaço foi palco da exibição do curta-metragem de animação “O menino que engoliu o choro”, seguida de uma roda de conversa entre a escritora Cris Pàz e o editor Joubert Amaral sobre a repressão emocional na infância.
Apesar de enfrentar desafios orçamentários e adequações de programação e autores, a organização do evento reafirma a importância dos festivais literários como verdadeiros atos de resistência e local de acolhimento.
Ativistas do choro
O projeto de curta-metragem contou com um orçamento limitado. Entre os desafios enfrentados durante a produção, Amaral citou prazos curtos e a necessidade de cortar alguns detalhes da história original por conta do custo de produção do filme. O problema do orçamento foi resolvido de forma criativa: Ele convidou pessoas próximas a si para participarem do projeto, como sua própria esposa e seu filho, que deram voz ao menino e à mãe da história.
Lançado originalmente no Youtube, a obra nasceu da colaboração direta entre a escrita e a animação. Cris Pàz autorizou a adaptação audiovisual da obra sob a condição de estar presente ativamente na produção. A criação também ganhou um caráter familiar e artesanal, contando com o trabalho do irmão de Joubert Amaral na construção das animações.
Durante o bate-papo, os convidados destacaram que a literatura infantil e juvenil vai muito além das crianças, pois serve como um “sopro no estômago dos adultos”. Um dedo nas feridas profundas da infância, principalmente masculina, abordando a mais famosa frase “engole o choro” e o estereótipo cultural que os impede de manifestar vulnerabilidade desde a infância.
Cris e Joubert autointitularam-se ativistas do choro, argumentando que a criança tem uma relação natural com suas emoções, mas perdem esta naturalidade por conta das barreiras impostas pelos adultos. A discussão também traçou um paralelo com o período recente de crise sanitária, apontando que “a pandemia foi o nosso engole o choro coletivo”, segundo Joubert, reforçando a urgência de encontrar espaços de acolhimento para as dores do cotidiano.
Embora atrair o público continue a ser um desafio para eventos culturais, o que exige parcerias e uma aproximação constante com a comunidade, a adesão ao FELIT comprovou a força do encontro presencial. Mães, professoras, psicólogas, crianças e estudantes da área da comunicação foram acolhidos na roda de conversa e mostraram que, apesar dos desafios, a existência de projetos como o FELIT e o incentivo à literatura nacional infantil continuam sendo de extrema importância no atual cenário social.
Fonte: Ana Laura Garcia e Larissa Macedo, VAN-UFSJ
O Largo Tamandaré durante a 15ª edição do FELIT (Foto: Ana Laura Garcia).