Girassol abre o desfile das escolas de samba de são João del-Rei


Cultura

José Venâncio de Resende0

Abre-alas da Girassol (foto captada da transmissão da Rádio São João del-Rei).


O primeiro dia de desfile das escolas de samba de São João del-Rei mostrou uma viagem nostálgica pela história de Brasil e África. Enredos de alto nível, beleza plástica, desenvoltura, desfile impecável e pontualidade contribuíram para dificultar a vida dos jurados que, pela primeira vez, são de fora de São João del-Rei. Acompanhei os desfiles das escolas de samba Girassol, Irmãos Metralha e Mocidade Independente do Bonfim pela transmissão da Rádio São João del-Rei.

Veja aqui o vídeo

A escola de samba Girassol abriu os desfiles de 2026, neste sábado (14), na Avenida Tancredo Neves, pouco depois das 22h, na expectativa de se reerguer, como definiu seu presidente Marquinhos do Mototáxi, depois de um passado glorioso e do fracasso de 2025. Para isso, buscou inspiração no rei do Congo, do enredo “Galanga: o negro sem preço que valia ouro”, que no Brasil se tornou Chico Rei.

Imponente, a agremiação rosa e branco do bairro Matosinhos fez um desfile de pouco mais de uma hora, sem erros e dentro do tempo previsto (70 minutos), com muita alegria, emoção, cores vibrantes, belas fantasias, ousadia (cinco carros alegóricos) e a experiência do intérprete Ítalo Melodia, de muitos carnavais pela União da Ilha do Governador (RJ).

A comissão de frente, com 10 integrantes na cor azul, representou a travessia do Atlântico para o Brasil, retratando lágrimas, histórias e memórias que cada um carregava dentro de si. Um décimo segundo integrante dessa comissão de frente, com fantasia diferente (cor branca), a representava Nzambi, o Deus Supremo africano.

Atrás da comissão de frente, o carro abre-alas significava a imersão no Congo, país africano de veio Chico Rei como escravo. Um carro de grande impacto visual, com muitas plumas e penas, que reflete as várias tribos africanas e a captura e vinda forçada como escravos ao Brasil. Predominam o azul, verde, palha e dourado, com elementos naturais representando a vegetação típica do Congo e o requinte dos reinos africanos. Correntes delicadas e harmonizadas retratavam a prisão, a opressão e a resistência.

A ala 2, “Sabedoria Ancestral”, defendia a ideia de que tudo foi tirado do povo preto, exceto a sabedoria. Essa herança ancestral foi preservada. O símbolo da coruja representava a sabedoria; as cores rosa, além de búzios, sementes, palha e demais elementos naturais, enriqueciam a indumentária.

A ala 3 representou a “Travessia dos mundos”, com cores predominantemente azuis. O caminho entre os dois continentes foi doloroso e sofrido, marcado pela incerteza e pelo medo. A leveza de tons nas cores azul e branco retratava a esperança do povo preto de que sua história continuava do outro lado do oceano. 
A ala das baianas, com bela evolução, tinha cores vibrantes em suas fantasias.

A ala 4, “Conversão ao cristianismo, mostrou que, ao pisar em território brasileiro, os negros eram obrigados a se batizar e adotar novos nomes e sobrenomes. Ao perder seus valores, costumes e crenças, assumiam nomes populares e cristãos num processo que tentava apagar sua identidade original.

O primeiro casal, mestre-sala e porta-bandeira, Magda e o Ricardo, numa belíssima fantasia, era conduzido por outros componentes da escola, fazendo ali uma espécie de cerca fantasiada, ao saudar o público.

A bateria do mestre Wildon Galberto teve como rainha Suelen Cantelmo, representando o ouro cobiçado pela coroa portuguesa. Os 90 ritmistas, com belíssimas fantasias, em cores laranja, rosa, vermelho e dourado, representavam o major que foi a procura de escravos para trabalhar em sua mina em Vila Rica, e que encontraria Chico Rei e seus irmãos de cor. Uma fantasia rica, com detalhes nas cores rosa e laranja, vermelho e dourado.

A ala dos passistas faz menção à vestimenta da época, nas cores azul, laranja e dourado, representando os fidalgos da coroa portuguesa que habitaram o centro do Rio de Janeiro. Mas que mais tarde se afastaram pelo incômodo trazido pela sujeira e forte odor vindo das mazelas do mercado de escravos do período do ciclo do ouro.

O segundo carro alegórico, “Mina Encardideira”, abordou o sofrimento e a importância econômica dos escravos. Em Vila Rica, Chico Rei começou a guardar ouro em seus cabelos e assim foi criando o seu patrimônio. Ouro como fonte de riqueza e de sustento e também como meio de troca.
O terceiro carro representou o sincretismo e a construção do templo pelo negro. O carro trouxe elementos do barroco, do catolicismo e do espiritismo e ainda a personificação da Virgem do Rosário.

A quinta ala, do “Congado”, é uma manifestação cultural e religiosa afro-brasileira que mistura fé, dança e ritmo para homenagear santos e entidades do espiritismo; uma da forma de preservar a cultura e a religião, de cultuar os seus deuses e santos de devoção.

Quase no final da escola, a ala da Irmandade representou a criação da irmandade para garantir acesso a igrejas e a lugares onde os pretos não podiam prestar louvor a seus deuses. A indumentária, em azul, branco e dourado, traz imagens de santos católicos que mais tarde moldaram o sincretismo tradicionalmente brasileiro.

A ala Barroca mostrou a intolerância da coroa portuguesa ao não permitir que os pretos frequentassem as igrejas cobertas de ouro extraída por eles. Uma fantasia luxuosa destacava o dourado e as curvas trabalhadas para requintar as igrejas da época.

O último carro alegórico, que fecha o desfile, trouxe justamente o sincretismo e a construção dos próprios templos. Dois carros alegóricos trouxeram justamente esses elementos como São Sebastião, Iemanjá, São Benedito, São Sebastião e Nossa Senhora Aparecida. Então, havia igrejas específicas que os negros frequentavam como as igrejas do Rosário, dos Homens Pretos e de Nossa Senhora das Mercês.  

 

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