A Pequena Indústria de Fabricação de Estanho em São João del-Rei tornou-se patrimônio cultural imaterial do município. A decisão foi aprovada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (CMPPC), em reunião plenária no dia 26 de agosto. A medida reconhece oficialmente uma tradição que atravessa décadas e permanece viva nas mãos dos artesãos da cidade.
O processo de registro contou com a elaboração de um dossiê pela equipe técnica do Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e Turismo, informou a Prefeitura Municipal. “O documento foi fundamental para o levantamento dos estabelecimentos dedicados à atividade e para a documentação das etapas de fabricação, acabamento e decoração das peças, assegurando o embasamento técnico necessário ao reconhecimento.”
O título de patrimônio imaterial ressalta ainda a singularidade da tradição: “São João del-Rei é considerada a única cidade do Brasil que mantém esse modo de fazer em grande escala, o que reforça o potencial da atividade para atrair turistas e visitantes interessados em conhecer de perto a produção local”.
A Prefeitura Municipal de São João del-Rei, assim, assume a responsabilidade pela salvaguarda da tradição, por meio de ações de fomento, difusão e educação patrimonial. “A preservação do patrimônio cultural é um compromisso permanente da gestão municipal, que segue trabalhando para manter viva a história e as manifestações que tornam a cidade única.”
A chance do Museu
“São João del-Rei ainda é um dos únicos lugares da América Latina onde se fabrica peças de estanho. Há diversas fábricas e lojas que produzem desde singelas lembranças até utilidades domésticas. É possível comprar jogos de chá e café, taças em tamanhos variados, pratos, vasos e castiçais. Em algumas lojas, a fábrica – no caso da Fábrica da John Somers, por exemplo – está aberta para a visita dos turistas que podem acompanhar o artesanal processo de produção, antes de decidir o que vai adquirir.”
Este parágrafo é um trecho de correspondência enviada, há pouco mais de 16 anos (24/02/2010), pela Associação Comercial e Industrial de São João del-Rei (ACI del-Rei) ao CMPPC, na qual solicitava a abertura de estudos visando ao “tombamento de todo o acervo do Museu do Estanho”, então situado no interior da Loja John Somers, na Avenida Leite de Castro, nº 1150, Bairro das Fábricas. A carta era uma sugestão do associado da ACI del-Rei, Nilo Assunção Melo, e de José Antônio de Ávila, ambos então membros efetivos do CMPPC.
Entre os fundamentos da proposta, a carta acrescentava que, em São João del-Rei, “a produção de peças em estanho – reiniciada nos anos 1960/1970, com John Somers – resgatou e valorizou o uso do metal, transformando-o em requintados objetos de arte. A importância do estanho é tanta para a cidade que aqui foi criado o Museu do Estanho John Somers, que reúne objetos utilitários confeccionados com este metal”.
Faziam parte do acervo do Museu da Fábrica da John Somers “peças recolhidas de dois navios – um holandês e outro português – que naufragaram na costa brasileira em 1648 e 1668. O pioneiro John Somers dedicou cerca de 5 anos ao trabalho de pesquisa visando uma completa identificação, restauração e reprodução desta coleção antiga; posteriormente, desenvolveu um processo de fabricação de réplicas e de novas peças, reintroduziu a cultura do estanho na cidade e organizou o museu que expõe este impressionante acervo”. Dos restos originais encontrados na fragata holandesa Utrecht, boa parte em São João del-Rei e podia ser considerada como sendo integrante “do mais importante grupo de estanhos antigos já encontrado no mundo”.
Assim, o documento solicitava que fosse feito completo levantamento dos bens existentes no Museu, e que a eles fosse estendido “o benefício da preservação oficial, através do ato de tombamento municipal”. Além disso, pedia também “o tombamento das estantes expositoras do dito museu, do maquinário, tornos, ferramentas diversas, moldes e outros instrumentos que fazem parte da oficina anexa, todos partes do importante e formidável processo artesanal de produção das ditas peças”. Por fim, solicitava, para preservar a memória, “o registro dos modos de fazer, da composição das ligas e das técnicas de fundição relativas à produção dos objetos de estanho como patrimônio imaterial deste Município”.
A perda do Museu
Segundo José Antônio Ávila, do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia de Letras de São João del-Rei, “muito lamentavelmente São João del-Rei perdeu a oficina e o formidável Museu do Estanho. Perdemos os registros materiais do antiquário inglês John Leonel Walter Somers, que começou a produção artesanal de peças de estanho em São João del-Rei por volta do ano de 1968”.
A história do pioneirismo de John Somers em São João del-Rei, enfatiza Ávila, “remonta o tempo em que ele aqui chegou em busca de antiguidades e percebeu a capacidade dos artesãos locais que poderiam criar peças de estanho refinadas, unindo as técnicas tradicionais do século XVIII à tecnologia da época”.
Foi assim que John Somers iniciou a fundição do estanho na cidade, criando utilitários e itens de decoração detalhados. A oficina, que ficava onde atualmente é o Supermercado Bahamas, no Bairro Fábricas, “transformou São João del-Rei no centro de excelência da produção de estanho no Brasil”, complementa Ávila.
“Muitos ex-funcionários dele aprenderam bem o ofício de fundir as peças e acabaram por abrir as próprias oficinas, criando um polo artesanal de sumíssima importância e que é único no país”, salientou Ávila. “As peças, muito bem elaboradas, ganharam projeção nacional e até internacional, fato que consolidou a tradição”, e que agora é valorizado nesta ação de reconhecimento como patrimônio cultural imaterial, pelo CMPPC de São João del-Rei.
“Mas, há 16 anos nós perdemos o Museu do Estanho por falta de ação e de sensibilidade da então presidência do mesmo Conselho, que não atendeu a solicitação de abertura de processo para tombamento do dito museu”, concluiu Ávila.
Antiga loja da John Somers na Av. Leite de Castro.