Por quem o Pierrô chora?


Artigo

André Eustáquio0

É manhã de Quarta-Feira de Cinzas. Na avenida somente resquícios de uma folia que chegou ao fim - palco vazio, confetes ainda espalhados pelo chão. O som dos tamborins deu lugar ao choro do Pierrô, que, inconsolável, perdia furtivamente o seu olhar na solidão de um palco vazio, lamentando mais um Carnaval que se foi.

Como os dias que se vão, assim é a ilusão do Carnaval. Momento de catarse, quando regras são quebradas, revelando almas sedentas de liberdade. É Dionísio vencendo Apolo e se assenhorando dos bons costumes, da moral e das regras. A vida por detrás das máscaras. A realidade cedendo lugar à fantasia. A ordem sendo banida pelo caos. Assim é o Carnaval: sem pecado, sem culpa nem remorso.

Sim, a vontade de viver mergulhado na fantasia de um mundo de brilhos, longe do tédio existencial. O apelo por uma sociedade perfeita se contrasta tenazmente com uma natureza que urge pela quebra dos valores e dos padrões. Eis a dicotomia dos eternos carnavais, que nada mais são do que a revelação de angustiantes episódios da nossa própria existência, marcada pela dúvida, pela vontade, por culpas e conflitos

Mas é Quarta-Feira de Cinzas. Lá se foi a folia e com ela o nosso sonho pela imortalidade fantasiosa. Quão grande é a nossa vontade de permanecer eternamente no templo de Dionísio! O desequilíbrio das formas, a orgia como padrão de comportamento. Porém, eis que Apolo ressurge das Cinzas (ou nas Cinzas?), trazendo de volta o peso da vida real e a necessidade do equilíbrio vital. É mais um Carnaval que se foi. Quantas expectativas foram cumpridas? Porém, quantas frustrações sobraram? A avenida ficou vazia; os foliões se foram; no palco vazio impera agora o silêncio da ausência do samba.

Carnaval: para muitos o eterno despertar de uma juventude poética; para outros, a eterna amargura de uma vida escura, senil e sem graça. Essas são as cores dos episódicos carnavais de nossa existência. São por elas – cores e dores - que o Pierrô despeja suas derradeiras lágrimas. São essas lágrimas que provavelmente saltaram dos olhos de Manuel Bandeira ao escrever essas linhas: “Eu quis um dia, como Schumann, compor/ Um Carnaval todo subjetivo/ Um Carnaval em que só o motivo/ Fosse o meu próprio ser interior.../ Quando o acabei – a diferença que havia! / O de Schumann é um poema cheio de amor, / E de frescura, e de mocidade.../ E o meu tinha a morta morta-cor / Da senilidade e da amargura.../ - O meu Carnaval sem nenhuma alegria!”

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