Em 10 de junho – Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas –, foi dada a partida para as comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões, autor do livro em versos Os Lusíadas. “Nunca estamos à altura da grandeza de Camões nem da grandeza de uma ideia de Portugal”, disse o presidente Marcelo Rebelo de Sousa na cerimônia que partiu do porto chamado Universidade de Coimbra.
Até 2026, serão dois anos de mergulho na vida e na obra de Camões, com peças de teatro, filmes de animação, exposições, programas de televisão, um áudio-livro e episódios em podcast, bem como um concurso escolar para professores e alunos e uma exposição bibliográfica para o ensino básico e secundário. Capitaneado pelo Instituto Camões, o legado do poeta vai navegar além-fronteiras, com a sua obra a ganhar novos ventos em Goa (Índia), Macau (China) e nos países de expressão portuguesa.
Renascimento
Camões (1524-1580) nasceu em Lisboa e viveu pouco mais de 50 anos, dos quais 17 longe de Portugal. Em terras estrangeiras, como soldado, perdeu um olho em batalha (talvez em Ceuta, norte da África) e escreveu a epopeia Os Lusíadas, publicada em 1572. O professor, ensaísta e poeta Frederico Lourenço, autor dos livros Pode um desejo imenso e Camões – Uma antologia, disse que Os Lusíadas foram escritos no Oriente (e salvo das águas) para ser lido no Ocidente. Trata-se, pois, de uma obra escrita na Ásia durante o Renascimento. Para ele, é o poema épico mais brilhante da literatura europeia, o que “leva a que ele esteja numa categoria especial na literatura portuguesa. Camões é o nosso Homero, o nosso Vergílio, o nosso Dante”.
Por que ainda “temos tanta dificuldade em comemorar um livro maior”, um livro que a humanidade reconhece como “um momento único da literatura mundial”?, indaga o jornalista português Carlos Magno. “(É) porque Camões hoje é uma espécie de elefante dentro da sala do politicamente correto. O Camões era um grande poeta, mas era um doidivanas, espadachim, tinha um escravo chamado Jau, no seu tempo não era propriamente um modelo de virtude (…) e é um homem que tem uma fama e uma imagem que eu acho que nós devíamos interpretar como sendo de alguém que é um português típico que saiu daqui e que, em pleno Renascimento, ombreou com os maiores escritores de todos os tempos. Eu tenho muita pena que nós hoje não saibamos ler Os Lusíadas, utilizar Os Lusíadas, ter orgulho d´Os Lusíadas. É evidente que Camões fala mal do Islão, fala dos infiéis, conta histórias que hoje nós consideramos politicamente incorretas, mas é preciso pôr a história no seu tempo.” Ainda segundo Carlos Magno, Os Lusíadas foram feitos numa métrica e num sistema poético que, naquela altura, estavam na moda. Não é fácil, Camões não tinha ao seu lado o Google ou um dicionário de sinônimos. Ele inventou uma nova língua”.
Camões nem mesmo tinha grandes preocupações ortográficas, diz o professor Marco Neves, da Universidade NOVA de Lisboa. “Não havia sequer ortografia na época, apenas uma série de hábitos gráficos seguidos pelos tipógrafos. Não havia nada sistematizado”, pois “a importância da língua para Camões era outra: era um material artístico e era também um desafio; queria mostrar como o português poderia chegar aos píncaros do latim e do grego; e esses píncaros eram as palavras na sua forma e no seu sentido, o ritmo, as imagens e a possibilidade de criar uma obra épica, seguindo as regras determinadas pelo gênero. Camões era um gênio da literatura e da língua, mas não era propriamente um gênio dos prontuários”.
Poesia lírica
O escritor Frederico Lourenço (entrevista à CNN Portugal, 10/06/2024) conta que sua mãe conhecia bastante bem a obra de Camões pelo fato de ter sido aluna, na Escola Francesa de Lisboa, do professor Roger Bismut, um grande especialista do poeta. Mas admite que só conseguiu gostar de Os Lusíadas depois de ter feito o curso de Estudos Clássicos: “depois de ter adquirido aquela cultura clássica, que Camões pressupõe dos seus leitores, passei a achar o poema fascinante”.
Para ele, “o encanto de Camões é tão inesgotável quanto imbatível. Na sua poesia lírica, a beleza da linguagem vive por si só, sem precisarmos conhecer os poetas que ele leu e que estão por trás dos seus versos: Vergílio, Horácio, Petrarca, Garcilaso e Boscán. Claro que a sua poesia se torna ainda mais interessante se conhecermos os modelos, porém ela vive de forma autônoma”. No caso de Os Lusíadas, “o poema não faz sentido se o divorciarmos dos seus modelos antigos, sobretudo a Eneida de Vergílio”. No entanto, o autor aconselha que, “para apreciarmos a linguagem épica de Camões em toda a sua plenitude, precisamos de saber latim”.
Aos leitores jovens, Lourenço aconselha que comecem pelos sonetos. “São poemas mais breves, muitos deles de uma beleza imediata. Quem não adora logo à primeira Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades ou Amor é fogo que arde sem se ver?” Eis alguns sonetos da Lírica de Camões (Antena 2, 25/05/2024) sobre o amor e o desamor, tão caros ao poeta: Oh quão caro me custa o entender te; Se tomar minha pena em penitência; Que me quereis, perpétuas saudades?; e Que poderei do mundo já querer.
Entre as lições da Lírica de Camões, Frederico Lourenço enfatiza a “intemporalidade dos sentimentos humanos: Camões escreve aparentemente sobre a sua vida sentimental, entretanto, no fundo, há uma universalidade enorme nos seus versos e na forma como ele verbaliza as emoções humanas”. No caso específico de Os Lusíadas, observa que o poema “exige dos leitores mais cultura e conhecimentos”. Mas é uma obra que configura uma meditação grandiosa sobre Portugal. “Tem, por isso, uma mensagem que ainda é relevante atualmente porque nos ajuda a compreender, à luz de hoje, o nosso passado.”
Lendas e mitos
Segundo especialistas (reportagem CNN Portugal, 10/06/2024), sabe-se pouco sobre a vida de Camões, há poucas certezas, poucos documentos – três relíquias no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, inclusive o que se julga ser o retrato mais fiel do poeta. O enigma começa sobre a data e o lugar de seu nascimento: possivelmente 23 de janeiro de 1524, em Lisboa. Para além da capital, cidades como Vilar de Nantes (próximo à fronteira da Galiza, na Espanha), Alenquer, Constância, Santarém e Coimbra brigam pelo berço de Camões.
Segundo seus primeiros biógrafos, citados por Leonor Especial (Política, História e Patrimônio de Portugal, 10/06/2024), “a Casa ancestral dos Camões tinha as suas origens na Galiza. Por via paterna, Luís de Camões seria descendente de Vasco Pires (ou Perez) de Camões, trovador e fidalgo, que se mudou para Portugal no tempo de D. Fernando I…”. Camões “terá sido protegido e educado por seu tio Bento, que o encaminhou para Coimbra para estudar”. Embora o seu nome não conste dos registos da Universidade, é certo que, por “seu elaborado estilo” e “profusão de citações eruditas” nas suas obras, tenha recebido “uma sólida educação”. Com cerca de vinte anos, transferiu-se para Lisboa “antes de concluir os estudos.” De família pobre, embora fidalga, manteve “contatos intelectuais frutíferos na Corte de D. João III, iniciando-se na poesia.”
No campo das lendas, terá Camões escolhido entre salvar os manuscritos de Os Lusíadas ou a mulher por quem estava apaixonado? “Na viagem de volta a Goa, naufragou, conforme diz a tradição, junto à foz do Rio Mecom, salvando-se apenas ele e o manuscrito de Os Lusíadas, evento que lhe inspirou as célebres redondilhas Sobre os rios que vão”, relata Leonor Especial. No naufrágio, terá morrido a donzela chinesa Dinamene, mas há dúvidas entre biografos quanto à escolha de Camões entre ela e os manuscritos.
Também não se sabe ao certo em que bairro lisboeta morreu Camões em 10 de junho 1580: terá sido na Mouraria? Acredita-se que os restos mortais estão no Mosteiro dos Jerônimos, um dos locais mais visitados pelos turistas nacionais e estrangeiros.
Aos contemporâneos
Enquanto se aguardam as festividades dos 500 anos, que tal ficar com o poema do poeta português (naturalizado brasileiro), Jorge Sena, intitulado “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”:
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
(Metamorfoses. Edições 70, Lisboa, 1988).
Clique aqui para ouvir seis sonetos da Lírica de Camões, sobre o amor e o desamor, interpretados por Raquel Marinho.