Reformado, Museu da Inquisição de Belo Horizonte reabre em abril ao público


Cultura

José Venâncio de Resende0

fotoMuseu da Inquisição (foto: divulgação).

O Museu da História da Inquisição, na capital mineira Belo Horizonte, reabre ao público em 5 de abril, após passar por obras de ampliação, revitalização e modernização durante onze meses. A reinauguração será no dia 31 de março, às 15 horas, com palestra da historiadora Neusa Fernandes do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ).

“Na verdade, fizemos um segundo piso, mantendo o primeiro”, diz o engenheiro e pesquisador Marcelo Miranda Guimarães, fundador e presidente do Museu. Para além de incluir pesquisas por computador, auditório novo para 50 lugares e sala nova de “combate à intolerância, o pano de fundo do museu”, a reforma também permitirá “contar uma história não contada até então nos livros curriculares que é a história da Inquisição”.

“Existem 40 mil processos na Torre do Tombo dos cristãos-novos, dos hereges que foram inquiridos pela Inquisição que durou 300 anos. Porém 80% dos réus da Inquisição são cristãos-novos, e o Museu trata especialmente deles, levantando informações sobre eles, a penalidade que eles receberam; muitos foram mortos”, explica Guimarães que é também membro do IHGMG e autor do livro Há restauração para os descendentes de judeus da Inquisição?.

Guimarães baseia-se na tese de doutorado da professora Neusa Fernandes, presidente do IHGRJ, cujo livro tem o título de A Inquisição em Minas Gerais no Século XVIII. No livro, Fernandes cita inclusive a região de São João del-Rei, na antiga Comarca do Rio das Mortes, onde aparecem nomes daqueles que foram processados pela Inquisição.

Segundo essas pesquisas, são judeus cristãos-novos da região: Agostinho José de Azevedo, Álvaro Pinto, Antônio Dias Correa, Antonio do Valle, Antonio José de Azevedo, Antonio Machado Coelho, Bartolomeu Roiz, Bernardo Ferro, David Mendes, Diogo de Avila, Diogo Dias, Fernando Gomes de Carvalho, Francisco da Costa, Francisco Nunes de Miranda, Francisco Roiz, Garcia Rodrigues Paes, Izabel Bernar, João de Moraes, João Nunes, João Nunes de Lara, João Nunes Vizeu, João Roiz, João Roiz da Costa, José Nunes Henriques, José Roiz de Oliveira, Joseph Rodrigues, Luiz Antonio, Luiz Mendes de Moraes, Luiz Vaz, Manuel da Cunha, Manuel Froes de Lara, Manuel Furtado Oróbio, Marcos Mendes, Marcos Mendes Sanches, Miguel da Cunha, Migueles Teles da Costa, Pedro da Silva, Pedro Nunes de Miranda, Sebastião Nunes Alves. 

Um pouco da história

Inaugurado em 2012, o Museu da História da Inquisição, que voltará a receber o público para visitações em abril, tem contribuído no resgate da memória de uns dos importantes colonizadores de nosso país, conhecidos como cristãos-novos. Esses colonizadores marcaram importante presença desde a época do descobrimento. Mas, por motivos e regras impostas pela Inquisição, parte dessa nossa importante história foi e ainda hoje continua omitida dos livros didáticos.

O Museu conta a história da Inquisição através de painéis, gravuras e pinturas de artistas, como o pintor espanhol Francisco Goya, além da exposição de documentos e livros antigos do século XV ao século XIX; objetos e réplicas de alguns equipamentos de tortura em tamanho real como o polé, o pôtro, o garrote e outros (Fonte: site do Museu).

“O termo Inquisição refere-se a várias instituições dedicadas à supressão da heresia no seio da Igreja Católica.”

Ao subir ao poder na Espanha, os reis católicos Fernando e Isabel de Aragão, “com a bandeira do catolicismo, conseguiram unificar os reinos ibéricos. Dessa união, surge de forma consolidada a Espanha. O reino culpava os judeus, diante da Santa Sé romana, de todos os males que afligiam os reinos espanhois da Inquisição, com o famoso manual inquisitório Directorium Inquisitorum”.

“Para os judeus, dizia-se: ´a morte ou água benta´. Centena de milhares de judeus foram batizados, porém guardando em suas casas os ritos judaicos, o que lhes rendeu maior perseguição, começando então os Pogroms: ataques violentos em massa aos judeus, onde cerca de 50 mil foram mortos e cerca de 120 mil fugiram para Portugal.”

“A Inquisição portuguesa foi criada em 1536 e existiu até 1821. A Inquisição romana ou ´Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício´ existiu entre 1542 e 1965. A caminho da fogueira na Espanha e em Portugal, a Inquisição abusava da crueldade para punir quem se desviasse da fé católica.”

No Brasil

“O Brasil foi descoberto em pleno período da Inquisição que em nosso país durou mais de três séculos, ou seja, podemos dizer séculos de intolerância, de crueldade e violência com aqueles que foram inquiridos, processados, condenados e executados nas fogueiras da Inquisição em Lisboa, Évora e Coimbra. É interessante investigar que das treze naus que compunham a esquadra de Pedro Álvares Cabral, onze delas eram comandadas pelos capitães que apresentavam nomes de cristãos-novos (nome dado aos judeus que foram obrigados à conversão forçada ao catolicismo), como Simão de Pina, Simão de Miranda de Azevedo, Sancho de Tovar, Nicolau Coelho, Aires Gomes da Silva, Gaspar de Lemos que era um judeu de origem polonesa e outros. Seria uma coincidência? Na terra natal de Cabral, Belmonte, existiu uma grande colônia judaica, e sabe-se que o descobridor do Brasil tinha descendência de judeus conversos ao cristianismo.”

Com o ciclo do ouro, logo após o período holandês, os cristãos-novos portugueses e do nordeste brasileiro, atraídos por essa imensa riqueza mineral, ouro, diamantes e pedras preciosas, vieram para as Minas Gerais.  “Muitos saíram daqui com destino às fogueiras da Inquisição em Lisboa, pois aqui foram inquiridos, processados e em Lisboa condenados e executados. Dentre eles, podemos ver seus sobrenomes bem brasileiros, como os Cardoso, Miranda, Nunes, Silva, Pereira, Pinto, Azevedo e muitos outros.”

Devido a este fato relevante, o primeiro Museu da História da Inquisição dedicou uma sala especial à história do Ciclo do Ouro em Minas Gerais e Brasil e a presença judaica no nordeste brasileiro. “Historiadores renomados como Dra. Anita Novinsky, Dra. Neusa Fernandes e outros afirmam que o Brasil hoje contém a maior população de descendentes de cristãos-novos (também como “marranos” ou anussim) do mundo, alcançando com certeza mais de 10% da população brasileira, e até mesmo 20% para alguns historiadores” (Fonte: Wikipédia/Museu).

O Museu da Inquisição fica localizado na Rua Cândido Naves, 55 - Bairro Ouro Preto - Belo Horizonte. O telefone é (31) 2512-5194. As visitas poderão ser feitas de terça-feira a sexta-feira, entre 9h e 16h, e aos domingos, das 9h às 15h.   

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