A programação do 26º Reszendão em Lagoa Dourada – que vai comemorar os 300 anos de casamento dos açorianos João de Resende Costa e Helena Maria de Jesus – não prevê visita à Fazenda do Engenho Grande dos Cataguazes (antiga Fazenda Engenho dos Cataguazes), na zona rural, moradia do casal e berço da família Resende no Brasil. Assim, os “primos” esperados no encontro (entre 17 e 19 de julho) não terão a oportunidade de conhecer a histórica fazenda, que é propriedade particular.
Veja aqui a programação do Reszendão
João de Resende Costa (ilha de Santa Maria) foi um dos primeiros açorianos a se radicarem no território ainda inexplorado e promissor do Sertão dos Cataguazes, ao lado de nomes como Diogo Garcia (ilha do Faial); a viúva Maria Nunes, seus filhos Antônio Nunes, Antônia da Graça (e o marido Manoel Gonçalves da Fonseca), Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus, bem como suas netas Maria Teresa de Jesus e Catarina de São José, todos também do Faial, de acordo com Dauro José Buzatti (Fazenda Engenho dos Cataguazes – o berço dos Reszendes).
Diogo Garcia, o pioneiro, e João de Resende Costa deslocaram-se para o Sertão dos Cataguazes, radicando-se, respectivamente, na Freguesia de Nossa Senhora do Pilar, da Vila São João del-Rei, e na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Prados, no então território da Capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada. As filhas da viúva Maria Nunes, que ficaram conhecidas como “As Três Ilhoas”, tornaram-se pelo casamento os “troncos das três grandes famílias dos Resendes, Carvalhos e Junqueiras”, segundo Francisco de Paula Ferreira de Resende.
Segundo Buzatti, os termos “Paragem dos Cataguazes”, “Sítio dos Cataguazes”, “Minas dos Cataguazes”, “Sertão dos Cataguazes” (todos normalmente citados com “z”) eram usados indiscriminadamente nos primórdios de povoamento da região do Rio das Mortes. A origem seria de “Catu-auá” (índios do mato ralo), nome que identificava um conjunto de tribos indígenas que se deslocava por toda aquela região dos Campos.
Herdeiros
Com base em documentos pesquisados, Buzatti verificou “que, até o ano de 1758, não existem referências a nenhuma propriedade denominada Engenho Velho dos Cataguazes”.
Maria Helena de Jesus, filha de João de Resende Costa e Helena Maria de Jesus, morou na fazenda dos pais onde faleceu. Viúva do capitão português João Antônio da Silva, fez seu testamento aos 21/04/1812, quando apareceu o nome “Fazenda do Engenho dos Cataguazes”, em documento escrito 52 anos após o da sesmaria dada a José Antônio da Silva.
Após a morte de Maria Helena, já viúva, parte da Fazenda dos Cataguazes passou às mãos do seu filho, o capitão Manoel Antônio da Silva Resende. Ao morrer solteiro com 74 anos de idade, instituiu herdeiro dos seus bens (em testamento de 25/02/1815) o sobrinho Manoel Dutra Gonçalves de Resende. Como não apareceram outros donos da Fazenda Cataguazes, acredita-se que os irmãos venderam suas partes ao capitão Manoel Antônio, daí a sua declaração de ser “morador na minha Fazenda dos Cataguazes”, considerou Buzatti.
Nas mãos de Manoel Dutra Gonçalves, a Fazenda dos Cataguazes começou a sofrer desmembramento de suas terras, por partilhas, vendas ou arrematações sucessivas. “A Fazenda dos Cataguazes, pertencente então a Manoel Dutra, após 1851, com a execução de arrematação e a aquisição de partes por diversos interessados, praticamente se esfacelou. Como compradores aparecem inclusive seus novos genros, Antônio Vieira da Silva Pinto e o coronel Eduardo José de Resende”, relata Buzatti.
A fragmentação da antiga Fazenda dos Cataguazes gerou seis novas fazendas, onde aparece pela primeira vez o nome “Engenho Grande”: Fazenda de Cataguazes, de José Dutra Gonçalves (130 alqueires); Fazenda de Cataguazes, de Antônio Vieira da Silva Pinto (235,5 alqueires); Fazenda de Cataguazes, de Carlos de Assis Resende (35 alqueires); Fazenda do Engenho Grande, de Pedro José Ferreira (40 alqueires); Fazenda do Engenho Grande, de Eduardo José de Resende (100 alqueires); e Fazenda do Engenho Grande, de Francisco José Ferreira (35 alqueires).
Depois dos desmembramentos, Antônio Vieira da Silva Pinto terá arrematado as benfeitorias, casas de vivenda, engenho e terras. “Mas ele não chegou a morar na fazenda (de Cataguazes). Além de ser morador em Queluz (hoje Conselheiro Lafaiete), seus interesses se concentravam em Miraí, onde possuía um vasto latifúndio.”
Eduardão
Segundo Buzatti, é muito provável que, a partir de então, devido à capacidade empreendedora do coronel Eduardo José de Resende, conhecido por Eduardão, “um verdadeiro comprador de fazendas, a quase totalidade das terras e as respectivas benfeitorias da antiga fazenda dos ´Cataguazes´ tenham passado gradativamente às suas mãos, sendo incorporadas à sua Fazenda do Engenho Grande”.
Buzatti acredita que o coronel Eduardo tenha se instalado, pela lógica, no “sobrado da fazenda”, moradia anterior de Manoel Dutra, seu sogro. “É possível que tenha demolido as casas de vivenda de piores condições e seguramente conservado e melhorado o sobrado principal, ou seja, a sede.”
Ainda para Buzatti, “Ele não teria motivo algum para demolir o sobrado principal da fazenda que fora dos seus sogros e sim reformá-lo, ampliando-o e dando-lhe uma condição melhor de moradia”.
Dona Joanita
Tataraneto de João de Resende Costa e Helena Maria de Jesus, Eduardão nasceu a 3 de outubro de 1828. Casado com Ana Antônia da Silva Resende, ele foi grande fazendeiro em Lagoa Dourada e famoso criador de cavalos e muares em sua fazenda.
Mais tarde, a filha de Eduardão, Joana de Resende Tavares de Melo, a dona Joanita, viúva do médico e político José Tavares de Melo, herdou o patrimônio de seu pai, que posteriormente passaria às mãos de um dos seus filhos, José Tavares de Melo. Ao ficar viúva, dona Joanita recebeu, em 1924, o espólio do marido, cuja partilha só seria formalizada em 1959. Dona Joanita continuou morando na Fazenda do Engenho Grande.
José Tavares de Melo Filho, então com 14 anos, recebeu como espólio do pai um terço da sede da Fazenda do Engenho Grande (20 cômodos, paiol, moinho de fubá, usina elétrica, cobertas, cômodos para despejo, galinheiro e demais benfeitorias) e cerca de 9 hectares (terras de cultura), cujo registro tem a data de 27 de dezembro de 1976.
Casado com Anna da Conceição Souza Tavares de Melo, ele comprou a parte dos irmãos e ficou com toda a sede. Após o seu falecimento, a viúva herdou o imóvel (Matrícula 152, livro 2 A, folhas 50 a 52 do extinto Serviço Registral de Lagoa Dourada, fornecido pelo Ofício de Registro de Imóveis de São João del-Rei).
Atualmente, a sede da Fazenda do Engenho Grande dos Cataguazes encontra-se na posse de Antônio Penido de Resende (Matrícula 7755, folhas 109, Livro 2-U, Ofício de Registro de Imóveis de São João del-Rei). Procurado pela reportagem, Antônio Penido de Resende não respondeu às mensagens.
Mais história…
Josepha Maria de Resende, filha dos açorianos João e Helena, casou-se com o coronel Severino Ribeiro, filho de Estevam Ribeiro e de dona Leonarda Maria, ambos de famílias nobres de Lisboa, Portugal. O casal Josepha e Severino foi dono da Fazenda Cachoeira, na então Capela de Santo Antônio de Lagoa Dourada (pertencente a Prados).
Manoel de Jesus Ribeiro (irmão do Marques de Valença), um dos filhos de Josepha e Severino, era pai do capitão Severino Ribeiro de Resende. Este casou-se com Joaquina Umbelina de Resende, e foram pais de Eliziário Ribeiro de Resende, casado com Maria Helena Vieira de Resende.
Maria Helena Vieira de Resende, por seu pai, era tataraneta de Maria Helena de Jesus, irmã de dona Josepha. Esta mesma Maria Helena (filha de Manoel Dutra Gonçalves de Resende e Maria Rosa de Jesus) casou-se com o major Antônio Vieira da Silva Pinto. Um dos sete filhos do casal, Maria Cândida Vieira de Resende, uniu-se a Antônio Vieira de Resende Silva.
Maria Cândida era irmã do fazendeiro em Miraí e em Queluz, Américo Vieira de Resende, casado com Maria Rosa de Resende, filha de Eduardão. Os pais de Eduardão eram Joaquim José de Resende e Maria Madalena de Jesus Xavier. Já os seus avós eram o capitão Antônio Castório da Silva Resende e Ana Maria Gonçalves de Jesus. Castório era filho do capitão José Antônio da Silva e de Maria Helena de Jesus, portanto bisavós de Eduardão.
Fontes:
-Fazenda do Engenho dos Cataguazes – O berço dos Reszendes, de Dauro José Buzatti, Lagoa Dourada-MG, 2007.
-Genealogia dos Fundadores de Cataguazes, de Arthur Vieira de Rezende e Silva, A. Coelho Branco F.º (editor), Rio de Janeiro, 1934.
