São João del-Rei: histórico casarão do Embaixador Gastão da Cunha passa à posse do município

Leia ainda a história do diplomata são-joanense neto de portugueses, em artigo do arquiteto e professor André Dangelo.


Cultura

José Venâncio de Resende0

fotoSobrado que pertenceu ao embaixador Gastão da Cunha (fotos arquivo pessoal André Dangelo).

O imóvel “Casa Embaixador Gastão da Cunha”, localizado no centro histórico de São João del-Rei (MG), passa a pertencer ao Poder Público Municipal. A Câmara Municipal autorizou ao poder executivo receber na forma de doação o casarão de três andares, tombado pelo município em 15 de julho de 2004. O sobrado foi doado por mais de uma dezena de herdeiros à Prefeitura, que arcará com todas as despesas referentes a transferência imobiliária. 

O imóvel terá como finalidade a criação de um Centro Cultural, aberto ao público em geral, para manifestações artística e cultural, com espaço reservado para amostras, exposições, apresentações musicais, oficinas, escola de belas-artes e atividades relacionadas com arte, cultura e história em geral. Além disso, está prevista a instalação de uma galeria em memória do embaixador Gastão da Cunha e de sua família, com área de exposição permanente.

Recursos 

O valor histórico do casarão e a necessidade de reformas foram destacados pelo secretário municipal de Cultura e Turismo, Caio Andrade. Já há um valor médio de R$ 476 mil, aprovado no PAC do governo federal, para o custeio de todos os projetos que envolvem a obra (restauro, arquitetura, esquadria, bens móveis integrados, arqueologia, museu gráfico, paisagismo, estrutura, instalações elétrica e luminotécnica, prevenção de combate a incêndios, infraestrutura de cabeamento etc.). 

Assim, a medida mais urgente será a de buscar o recurso federal para em seguida reformar e entregar o casarão à comunidade, disse Caio Andrade em entrevista à Rádio São João del-Rei. Ele destacou a importância do papel do diplomata e embaixador Miguel Gastão da Cunha em prol da paz mundial nas Nações Unidas e tantas outras contribuições dele ao país. 

De Portugal para São João 

A rua onde fica o casarão leva o nome do pai do diplomata são-joanense, o médico Balbino Cândido da Cunha, de acordo com o arquiteto e professor André Guilherme Dornelles Dangelo, no artigo “Gastão da Cunha e São João del-Rei (Algumas notas biográficas)”. Gastão da Cunha era bisneto do casal português Domingos José da Cunha e Maria Margarida da Cunha, naturais de Braga. Seu avô, de mesmo nome, foi batizado na freguesia de Vilar da Veiga (município de Terras de Bouro no distrito de Braga). “Em Portugal, formou-se em medicina pela tradicional Universidade de Coimbra. Envolvido posteriormente com política foi ativo na defesa da causa constitucional de Dom Pedro I em Portugal.” 

Com a vitória momentânea das tropas de Dom Miguel (irmão do ex-imperador brasileiro), Domingos (filho) “teve de exilar-se em Londres, onde se empregou como médico em uma embarcação que navegava rumo a América do Sul, vindo parar primeiramente no Rio de Janeiro e posteriormente em São João del-Rei”, relata Dangelo. 

Na cidade, Dr. Domingos casou-se em 7 de agosto de 1830 com Balbina Cândida da Silva Negreiros, de família tradicional. O segundo filho, Balbino Cândido da Cunha, seguiria a profissão do pai, diplomando-se em 1854 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. De volta a São João del-Rei, casou-se com Antonia Carolina Pinto da Fonseca. Como o pai, lecionou no Externato da cidade e prestou serviços médicos na Santa Casa de Misericórdia.

Radicado por um pequeno período na cidade de Cristina, Sul de Minas, além de exercer a profissão, iniciou-se na política como vereador local. De volta a São João del-Rei, foi presidente da Câmara Municipal e, posteriormente, deputado-geral da Assembleia Provincial (1882-1885). Foi ainda presidente da província do Paraná (1888-1889) a convite do imperador D. Pedro II. 

No seu inventário, cujo inventariante foi o filho e embaixador Gastão da Cunha, é citado o sobrado da antiga Rua São Francisco como bem de morada da família. Em 7 de fevereiro de 1887, o nome foi mudado para Rua Balbino da Cunha, por sugestão do vereador Joaquim Francisco de Assis Pereira. 

Carreira jurídica e política 

O são-joanense Miguel Gastão da Cunha foi o segundo filho do casamento de Dr. Balbino com Antonia Carolina, e não seguiu a carreira médica, escreve André Dangelo. “Talentoso e aplicado nos estudos, cursou humanidades na sua terra natal e desde cedo optou por seguir a carreira jurídica, diplomando-se posteriormente na tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco em São Paulo, em 1884.” Na magistratura, foi promotor público na cidade de Rio Novo (MG), a partir de 1885. Em 1887, tomou posse como juiz da Comarca de Ubá e, posteriormente, atuou nesta função em outras cidades mineiras. 

Ao se casar em 1888 com a jovem viúva Ercilia de Castro Penido, filha de Carlos Batista de Castro e Maria José Batista Machado de Castro – Barões de Itaipe – envolveu-se com a política, “seguindo os caminhos de seu pai e (de seu) avô”. Elegeu-se deputado federal por Minas Gerais por duas legislaturas e, no ano anterior ao seu ingresso na carreira diplomática, foi professor da Faculdade de Direito de Minas Gerais, subprocurador do Estado e diretor da Imprensa Oficial do Estado. Foi assim que se iniciou na carreira jornalística. 

“Na Câmara dos Deputados, onde brilhava pelas suas invejáveis qualidades intelectuais e seu talento como parlamentar, foi onde primeiramente Gastão da Cunha chamou a atenção do Barão do Rio Branco, por discutir e defender todos os atos do Itamarati com grande clareza e profundidade de causa.” Assim, prossegue André Dangelo, “em 1905 renuncia ao seu mandato de deputado federal e à carreira política partidária para se dedicar às questões diplomáticas que vão glorificar e unificar sua vocação jurídica e política”. 

O diplomata

Em 1907, Gastão da Cunha entrou oficialmente para a carreira diplomática depois de realizar duas missões especiais, ainda como deputado, junto ao Itamarati. “Na nova carreira, mesmo já tendo 44 anos, adapta-se de maneira primorosa, como se já houvesse palmilhado todos seus postos”, observa Dangelo com base no livro O meu velho Itamarati do embaixador Luiz Gurgel do Amaral. 

A partir desse período, ligou-se ao jornalismo Republicano e à figura emblemática do Barão do Rio Branco, de quem se tornou amigo e aliado, relata Dangelo. Em 12 de dezembro de 1907, foi nomeado ministro Plenipotenciário e Enviado Extraordinário junto ao Governo do Paraguai, “onde cumprirá importante temporada de trabalhos, tendo sido neste período árbitro brasileiro nos Tribunais Arbitrais Brasileiro-Boliviano e Brasileiro-Peruano, e delegado brasileiro em duas conferências Pan-americanas”. 

Em 1911, Gastão da Cunha iniciou sua carreira como embaixador na Europa, tendo sido nomeado para a Embaixada de Lisboa. E, em 16 de maio de 1913, foi indicado para embaixador junto à Santa Sé. 

Por um curto período, foi nomeado em 1915 para o cargo de subsecretário de Relações Exteriores do Itamarati, no Brasil. “Em 25 de novembro daquele ano faz uma de suas últimas visitas para rever parentes e amigos na sua cidade natal”, conta Dangelo. “Nesta ocasião, como registra a imprensa da época, foi recebido com festa, na Estação Ferroviária, por autoridades e populares como prova do carinho e reconhecimento que tinha por ele o povo são-joanense.” 

Posteriormente, Gastão da Cunha trabalhou muito tempo na Europa, “principalmente nas embaixadas do Brasil na Dinamarca, Suécia, Noruega, Madrid e, por último, em Paris, onde teve como seu secretário na Embaixada o irmão Álvaro Cunha, também diplomata”. Seu cargo mais expressivo na diplomacia brasileira foi exercido dentro da Liga das Nações, precursora da atual ONU, lembra Dangelo. 

No início da década de 1920, já aposentado do Itamarati, o diplomata dedicou-se ainda às atividades ligadas à imprensa no Rio de Janeiro e continuou “a fazer viagens anuais a São João del-Rei, principalmente para prestigiar a tradicional Festa de Passos durante a quaresma”. 

O embaixador faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 4 de julho de 1927 aos 64 anos de idade. “Como última expressão de sua identificação com os valores tradicionais e religiosos da sua terra natal, Gastão da Cunha deixou para a imagem do Senhor dos Passos da Matriz do Pilar de São João del-Rei sua comenda recebida das mãos do Papa Pio X como Embaixador junto a Santa Sé da Ordem de São Gregório Magno. Vinculado por tradição de família à Ordem Terceira de São Francisco, onde estão sepultados seus ancestrais, seu retrato como benfeitor da Ordem ainda pode ser visto na sala do Consistório desse mais que bicentenário sodalício religioso.” 

Sobre o sobrado 

O sobrado onde residiu Dr. Balbino e onde nasceu e foi criado Gastão da Cunha “felizmente ainda existe em São João del-Rei, quase sem nenhuma descaracterização, embora castigado pelo tempo que tudo corrói”, assinala André Dangelo. 

Até então, o casarão pertencia aos descendentes de uma sobrinha de Gastão da Cunha, Dona Sara da Cunha, filha única de Augusto da Cunha e de Durvalina Panfiro da Cunha, que ficaram com o sobrado depois do término do inventário do Dr. Balbino da Cunha. Dona Sara casou-se com João da Costa Rodrigues, e os filhos do falecido casal passaram a deter a posse e se tornaram herdeiros legais do “histórico imóvel, tombado pelo IPHAN isoladamente desde 1938 como testemunho da alta relevância da importância histórica e cultural de preservação desse imóvel para patrimônio cultural brasileiro”, destaca André Dangelo. 

Agora que o imóvel foi doado ao Município, é o momento das “intervenções de restauro conservativo” defendidas por André Dangelo, para que seja dado ao imóvel “algum uso público digno do seu passado, a fim de conservá-lo para a comunidade são-joanense”. Pois se trata de “um bem arquitetônico que, por ter estado imune, até agora, a todas as modificações que a modernidade impôs a todos os antigos edifícios da cidade, foi também testemunho de vidas de personagens históricos da cidade”, um “celeiro de cultura, patriotismo e intelectualidade durante o século XIX” e “de construção do conceito de modernidade nas primeiras três décadas do século XX, da qual o trabalho de Gastão da Cunha na diplomacia é um dos maiores símbolos”.

     

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