São Vicente, padroeiro de Lisboa e ligado à história de Portugal


Cultura

José Venâncio de Resende0

fotoIgreja e Mosteiro de São Vicente de Fora.

Poucos sabem, mas São Vicente, que é comemorado em 22 de janeiro, é o padroeiro oficial da cidade e da diocese de Lisboa, a capital portuguesa. Santo Antônio seria, vamos dizer, o padroeiro popular. Mas, ao contrário do lisboeta Santo Antônio, São Vicente era espanhol, foi diácono em Saragoça (região de Aragão) e martirizado no século IV na cidade de Valência. 

No século VIII, as relíquias de São Vicente chegaram num barco à costa de Sagres, na sequência da invasão muçulmana da península ibérica. Mais tarde, no século XII, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, prometeu que, se Lisboa fosse conquistada aos mouros, recuperaria as ossadas de São Vicente e mandaria erguer uma igreja e um mosteiro no local onde concentrou os seus soldados no cerco à cidade. Diz a lenda que a nau que trazia as ossadas do santo, em 1173, terá sido protegida por dois corvos, uma imagem que ficou para sempre associada ao símbolo da cidade.

Lisboa foi conquistada aos Mouros em 1147, um ano após a morte de D. Egas Moniz de Ribadouro, tutor de D. Afonso Henriques e portador da “Honra de Resende” pelos serviços prestados à luta pela independência de Portugal. Assim, a invocação a São Vicente é parte da consolidação de Portugal como nação, mas, de certa forma, também Resende, às margens do rio Douro, está indiretamente ligado à conquista de Lisboa. A “Honra de Resende” era constituída pelas terras de Resende, Felgueiras e grande parte de Cárquere que formavam o Paço de Resende. Na atual freguesia de Cárquere, ainda existe o pomposo e românico Mosteiro de Santa Maria de Cárquere (erguido, segundo a lenda, após o milagre da cura das pernas do ainda menino Afonso Henriques).

O Mosteiro de São Vicente de Fora, entre a Alfama e a Graça, foi edificado fora dos muros de Lisboa, na zona da reconquista; por isso, acabou por ficar com esta designação, explica a historiadora Sandra Costa Saldanha, diretora do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja*. “Com a chegada das relíquias de São Vicente, vai converter-se num lugar de peregrinação muito importante das comunidades e sobretudo da população da cidade de Lisboa. (…) Numa altura em que era indiscutível que São Vicente era o padroeiro da cidade. Um tema que hoje não é assim tão claro, se considerarmos a popularidade de Santo Antônio (que) sem dúvida, a partir do século XVI, vai como que destronar São Vicente.”

Presença incômoda

No mesmo século XVI, curiosamente, outro espanhol, Filipe II de Espanha e I de Portugal, mandou reedificar o mosteiro, quando estava parcialmente destruído, relata Sandra Saldanha. “Com a entrada das tropas espanholas em 1580, Filipe I vai encontrar em São Vicente de Fora um símbolo do seu reinado e vai empenhar-se na reedificação deste (mosteiro) que era já um símbolo nacional. E, portanto, o que nós hoje encontramos aqui, em São Vicente de Fora, é um resultado quase integral dessa reformulação filipina.”

Assim, na portaria do Mosteiro, estão algumas iconografias que ajudam a perceber o papel da monarquia espanhola em São Vicente, explica Sandra Saldanha. Um painel “de alguma forma anacrônico” apresenta a atual fachada de São Vicente de Fora (cuja primeira pedra foi lançada em 1582 por Filipe I) associada a uma representação de D. Afonso Henriques; “e portanto há aqui, claramente, essa vontade de alguma forma apagar essa passagem dos Filipe por São Vicente de Fora e de, sobretudo, sublinhar, cimentar a relação com o primeiro rei de Portugal”.

Além disso, é “simbolicamente um edifício de uma grande importância”, acrescenta Sandra Saldanha. Há uma relação de longa data do mosteiro com a família real, desde D. Afonso Henriques, e depois no século XVI e, sobretudo, no século XVII, desde 1640, com a Casa de Bragança. “E, a partir daí, encontrar São Vicente de Fora como um local eleito para Panteão dos Bragança, precisamente; desde logo, durante o século XVII e depois essencialmente ao longo do século XVIII e século XIX. E, portanto, São Vicente de Fora é também muitíssimo importante por essa razão, porque se encontra aqui o Panteão dos Bragança.”

Por fim, Sandra Saldanha lembra que o mosteiro é hoje a sede do Patriarcado (Arcebispado da Igreja Católica). “É uma coincidência de fato muito feliz porque é um local simbolicamente muito relevante justamente para a sede do Patriarcado de Lisboa.” 

*Saiba mais aqui sobre São Vicente

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