Centenário de Valcides santeiro comemora-se em setembro


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José Venâncio de Resende0

Foto da família. A partir da esquerda, Geraldo, Valcides, Ana Rita, João Praxedes, Tibúrcio, Carmem, Maria e as crianças Dirceia, Dulcineia e Dilson (no colo)

Resende Costa prepara-se para comemorar, em setembro, o centenário do escultor Valcides Mairinque de Arvelos*, artista local com prestígio internacional. O “santeiro”, nascido em 6 de setembro de 1926, era filho do barbeiro João Batista Praxedes (1895-1974) e de Ana Francisca de Jesus (1895-1955). Foi casado com Maria José da Silva, filha de Antônio da Silva Ribeiro, o Antônio da Pereira, e de Amélia Resende.

Com apenas o primeiro ano do antigo curso primário, Valcides começou a desenhar e a fazer brinquedos em madeira para crianças, segundo sua irmã Ana Rita Mairinque (Jornal das Lajes, 01/03/2003). Aos 15 anos, auxiliou Ramon Dominguez na pintura da igreja matriz (foi responsável pela parte decorativa das paredes e pilastras). Aos 19 anos, fez o primeiro crucifixo; depois, uma imagem do Senhor dos Passos (reproduzida de um santinho) e em seguida um anjo, inspirado nos anjos do altar-mor da igreja de Nossa Senhora da Penha em Resende Costa. Daí pra frente, este mestre de ofício passou a fazer entalhes em baixo-relevo e posteriormente imagens em tamanhos grande e médio.

Em 1972 (21/06), o santeiro ganhou notoriedade nas páginas da revista Veja. Na reportagem, Valcides foi considerado “um fenômeno”, cujo valor estaria “diretamente relacionado com a espontaneidade da criação”. Seu primeiro contato com a arte barroca terá ocorrido em meados dos anos 1960, durante uma visita à igreja de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei. Daí por diante, passou a esculpir obsessivamente para se libertar de suas “privações”. Não parou mais de receber encomendas de religiosos e colecionadores de arte sacra.

Nesta reportagem, Valcides revelava alucinações criativas: “Algumas vezes, estou trabalhando e de repente aparece um santo entre as nuvens e pede para eu fazer uma imagem dele. Então, como não posso negar um pedido de quem já mereceu o céu, desenho seu corpo na madeira e começo o trabalho”. O santeiro também revelou ter visões de santos e padres, bem como ser “incomodado por assombrações que atrapalham o seu trabalho”. E tinha a mania de não estender a ninguém a mão direita aberta por receio de, por seu intermédio, maus espíritos contaminarem o corpo.      

A vida inteira, Valcides trabalhou em um barracão, nos fundos da casa/barbearia de João Praxedes, em condições bastante primitivas. A rotina era sempre a mesma. Seu irmão Geraldo desbastava os troncos com um formão, seguindo o risco original, e ainda cuidava do dinheiro; por este trabalho, tinha direito a 50% das vendas. A parte artística era feita por Valcides, com um simples canivete, seguindo a imagem mental que ele criava do santo a retratar. Ou seja, nem sempre adotava o modelo de eventual estampa fornecida pelo interessado. “Não vai sair desse jeito, não. Vai sair como eu vejo o Santo, na minha consciência”, advertia.

 

Estatueta de Tostão

Em 1973 (14/03), o Jornal do Brasil destacou o canivete do artista, instrumento de trabalho usado em obras como o busto do ex-presidente Eurico Dutra e as imagens de São José e de Nossa Senhora da Conceição; também se referiu a uma pintura feita no interior da igreja matriz de Resende Costa. No mesmo ano (em 09/07), o jornalista mineiro Mário Fontana realçou que Valcides se despontava como escultor no cenário nacional, com suas obras, principalmente imagens, em madeira. Uma delas foi a estatueta do jogador Tostão (Cruzeiro e seleção brasileira), esculpida pelo santeiro e presenteada ao paraninfo pelos formandos de 1968 do Ginásio Nossa Senhora da Penha, entre eles o juiz Marcos Alves de Andrade, o Marquinhos do Valdemar.

Em 1981 (14/10), o jornal Estado de Minas relatou a entronização da imagem esculpida em cedro da padroeira da capital Belo Horizonte, Nossa Senhora da Boa Viagem, no saguão da Estação Rodoviária. Valcides voltou a ser destaque, desta vez no Caderno de Turismo do Estado de Minas (03/09/1982), ao ser considerado um importante escultor, comparado aos nossos artistas coloniais por causa das suas impressionantes imagens. Tanto que o santeiro foi homenageado pelo conterrâneo e escritor Gentil Ursulino Vale, na Folha Acadêmica de Divinópolis (27/08/1988), como um entalhador e escultor renomado do Brasil. Gentil descreveu sua alegria ao saber que uma imagem de Nossa Senhora, esculpida pelo artista, estaria no Museu do Vaticano. 

O trabalho de Valcides apareceu em destaque no Jornal Ciência e Cultura (julho de 1995), ao mostrar uma linda imagem de Santa Ana, que foi parar em Brasília, além de mencionar as inúmeras imagens destinadas a igrejas e casas particulares. Brasília também foi contemplada com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, entalhada em madeira pelo santeiro, que foi instalada no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República. 

Segundo reportagens do Jornal das Lajes (02/05/2003, 11/02/2010 e 17/01/2023), Valcides esculpiu inúmeras imagens, como Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora do Cenáculo e Nossa Senhora da Boa Viagem (BH); Cristo Crucificado em igrejas de Barbacena, Juiz de Fora (1,60m), Lagoa Dourada e Nova Serrana; Nossa Senhora das Dores (na cidade paulista de Queluz); Nossa Senhora da Conceição (1,90m); réplica da imagem de Nossa Senhora da Penha de França e o Cristo na Cruz (igreja matriz de Resende Costa); e Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores (distrito de Jacarandira). Artista de projeção nacional e internacional, sua arte chegou a Roma: uma réplica da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem foi doada em 1989 ao Papa João Paulo II.

 

Preços e recibos

No início, as esculturas de Valcides eram vendidas por 30 cruzeiros, em média, segundo a reportagem da revista Veja (1972). Depois de um leilão no Centro de Artesanato no Palácio das Artes de Belo Horizonte, os irmãos elevaram os preços para cerca de 600 cruzeiros.

Dois exemplos ilustram esta situação pelos extremos, tendo por base o conturbado ambiente inflacionário nacional.

Em resposta a uma carta de Valcides, o então pároco de Prados, Monsenhor Assis, enviou correspondência em 24/10/1967, manifestando-se “acanhado pela demora no pagamento” de imagens encomendadas. Na ocasião, enviava 300 cruzeiros novos, “é o que já consegui arranjar”, referente ao pagamento de duas imagens de Santo Antônio. “Eu lhe dei 200 cruzeiros novos por conta e fiquei devendo 100 cruzeiros novos.”

Já a imagem de Nossa Senhora Aparecida, prosseguia Monsenhor Assis, “tendo menos trabalho de arte, como você mesmo reconheceu em sua carta, poderia bem ficar pelos 200 cruzeiros novos, que ainda sai mais cara que as duas primeiras”.      

Refletindo a inflação do país na época, um recibo de 11/04/1985, assinado pelos irmãos Valcides e Geraldo, retrata o pagamento de 200 mil cruzeiros, referente a uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, por parte do pároco de Resende Costa, Monsenhor Nelson Rodrigues Ferreira.

 

Família

Valcides é neto de José Francisco Praxedes e Maria José de Jesus Praxedes, pelo lado paterno; e de Elisiário Mayrinck da Silveira e Anna Francisca de Jesus (lado materno). O sobrenome Arvelos vem do ascendente português Pedro Rodrigues de Arvelos, nascido em Paredes de Coura, região de Viana do Castelo, e falecido em Ritápolis, antiga Santa Rita do Rio Abaixo. Quanto ao sobrenome Mayrinck, acredita-se que seja de origem holandesa.

Além de Valcides, Geraldo e Ana Rita, o casal João Praxedes e Ana Francisca teve os filhos Maria, Carmen, Jorge Luís, Alberico, Isaura e Tibúrcio, todos já falecidos.

Valcides faleceu no dia 2 de agosto de 2008, aos 81 anos, sem possuir bens. Durante três anos, ele ficou acamado após sofrer um AVC, mas não parou de trabalhar, segundo Ana Rita. A última obra do artista foi uma imagem de São Bento, “encomendada por um turista, mas que não ficou perfeita porque ele já estava doente. O dono da obra não quis levar, deixou pra ver se ele consertava, mas não teve mais tempo”.

 

*Agradecimento especial a Kesller Sulivan Melo dos Santos e Dulcineia Maria das Dores Melo pelas informações.

 

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