NATAL... MAIS DO QUE A PALAVRA
26 de Dezembro de 2017, por José Antônio 0
As palavras sempre escondem possibilidades outras de acontecer. Basta mudar uma sílaba para o vento ficar bento e soprar a guerra pra longe da terra.
As palavras também sonham e nos convidam para o seu sonho. Sonhar com as palavras é mergulhar no fundo do mundo, rasgar o véu do céu e negar a morte com uma outra sorte.
As palavras nasceram para a liberdade. Elas têm que se esfolar de uso, quase sempre têm que se quebrar para que possam renascer inteiras e com roupagem nova nos sentidos novos. Trincadas... jamais trancadas.
Natal... a palavra Natal!
Natal não pode ser intocável. Não pode ser presente pra sempre embrulhado. Natal não pode ser palavra de concreto e chumbo, palavra que pesa no calendário. Pelo contrário, Natal deve ser palavra que voa na leveza daquela invenção de que toda criança é mestre.
Natal... Na... tureza... Natureza! O Natal é festa da criação. A vida se veste de uma esperança estranha, que incomoda e faz chorar... esperança que nos promete uma alegria que desconhecemos e nos impele ao outro. Talvez seja esta a natureza do Natal: a sinceridade honesta para com as coisas da vida, pois nem tudo é lágrima que insiste... nem tudo é riso que teima. Viver o Natal é colocar a serenidade como mais uma personagem no presépio.
Natal... Na... cimento... Nascimento! Nascer é romper a barreira da não existência. Passei a existir. Mesmo que um dia eu me transforme em pó, agora eu sou cimento, pois meu existir funda a sua concretude irrepetível na história. Sou cimento com raízes matinais. Sou árvore com alicerces vicejantes. Sou história que se faz limpa na água pura que emana da gruta de Belém.
Acho que assim eu posso desejar Feliz Natal nestes dias. Feliz serenidade! Feliz história! Feliz vida... com todos os seus riscos, surpresas, perdas e conquistas!
Que a palavra “Natal”, com suas possibilidades de soprar vida nova (pois toda palavra é assim), faça você acrescentar sílabas e sentidos surpreendentes ao vocabulário da sua existência. Isso é não morrer.
E Natal é nascer.
Feliz Natal!
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*JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei.
Membro da Academia de Letras de São João del-Rei.
e-mail: [email protected], [email protected]
Estratégias
12 de Dezembro de 2017, por José Antônio 0
Eu estava na minha, juro que estava. Aliás, ando ultimamente tão na minha que, se eu caísse no mar, a última coisa que eu iria perceber seria a água.
Por isso não entendi aquelas provocações gratuitas do outro lado da calçada. Eram pra mim que elas se dirigiam. Que mal eu tinha feito a ele? Fiz que não estava nem aí e continuei meu itinerário. Na minha. Mas as provocações continuaram. Intensificaram-se até.
De repente, ele atravessou a rua e veio vindo em minha direção, provocando-me. Desafiava-me para qualquer coisa. Deveria estar me ofendendo também, mas eu não conseguia decifrar a sua língua. Diga-se de passagem, linguajar limitado e sem criatividade, repetindo sempre o mesmo bordão irritado.
Cismou comigo do nada. Antipatia gratuita mesmo.
Não foi com a minha cara aquele cachorro preto e peludão. Não sei o que ele viu em mim pra ficar com tanta raiva... ou revolta. E como latia o danado!
Parei numa vitrine pra suavizar a situação. Quem sabe assim o bicho iria embora? Qual o quê! Ele parou ao meu lado e ficou olhando pra cima, na direção de meus olhos, e latindo muito. Aquilo já estava chamando a atenção dos outros.
O pior é que outros bichos também começaram a se juntar à cena, deixando tudo ainda mais complicado. O primeiro foi o mico. O outro bicho que chegou foi a pulga, que se alojou atrás da orelha de quem observava a cena. Veio um sapo também, mas eu não iria engolir: tratei de espantar o cachorro estressado.
Foi embora. Parou lá na frente, perto de uma esquina. Ficou latindo de longe.
Então, veio-me à lembrança a sabedoria do meu pai quanto à diplomacia com os bichos: “Se você quiser ganhar a simpatia de um animal, dê comida a ele.”
Saí da lanchonete com uma empadinha de frango e agachei, colocando-a no chão. O cachorro não pensou duas vezes: veio correndo e abanando o rabo. Comeu tudo e ainda lambeu o chão.
Resolvi a situação? Piorou. O bicho não podia me ver que já vinha logo fazendo festa. E me abordava nos lugares mais variados: posto de gasolina, fila da lotérica, padaria (mais empadinhas), banheiro da rodoviária... Às vezes eu saía de mansinho... outras vezes eu saía de repente. Sempre o despistava.
Havia já uns meses que eu não via o tal do cachorro. Confesso que ele entrou para a minha lista dos esquecidos. Pois ontem, já de tardinha, eis que me surge o cachorrão preto e peludo. Ainda estava vivo. Ainda estava bravo. Ainda estava do outro lado da calçada. Foi só me ver que começou a latir, olhando-me de modo ameaçador.
Não deu outra: empadinha de frango.
Comeu e foi embora.
Cada um tem a sua diplomacia pra conseguir as coisas. Eu com a minha, mais calma e estratégica, consegui acabar um dia com a sua raiva. Ele com a dele, explosiva e com a cabeça quente, conseguiu ganhar empadinha de frango. Diplomacia esquentada pra ganhar lanche. O jeito é ter paciência, coitado. É cachorro de rua, nem nome deve ter.
Ou melhor... acabou de ganhar um: Cachorro Quente!
Unhas pintadas
14 de Novembro de 2017, por José Antônio 0
A mulher pinta as unhas. Ou pinta as garras? Como felinas cromáticas, sabem arranhar colorido. Cravam cores e matizes na pele vulnerável da vítima masculina. Então a corrente sanguínea vira esmalte.
E as tonalidades? E os nomes para as tonalidades? Covardia para os meus pobres bastonetes.
Foi num jantar que reparei quando ela erguia suavemente a taça de vinho até os lábios:
– Bonito o esmalte!
– Nunca fui santa...
– Hein?
– É a cor do esmalte: “Nunca fui santa”.
Outra noite, no concerto sinfônico. Ela se virou para mim... e falou baixinho e insinuante:
– Beijo roubado...
A ocasião fez o ladrão. Ela ficou brava:
– O que é isso? Ficou maluco? Estamos num concerto. Tem plateia aqui. Onde já se viu? Beijar...
– Mas você disse...
– “Beijo roubado” é o nome do esmalte.
Afundei-me na cadeira, mais vermelho que nariz de palhaço... que, por sinal, também é nome de esmalte.
Musas fiandeiras do coração do homem...
Mãos ágeis... mãos sagazes... mãos ternas... mãos sádicas...
Mãos esmaltadas.
As Mãos de Eurídice roubaram o pobre Gumercindo Tavares com o esmalte “Desejo”. Depois, Eurídice pintou as unhas com o “Destino dos sonhos”. E o roubado Gumercindo abandonou a família para enricar uma aventureira. Quando o Gumercindo acordou, já era tarde. Suas próprias unhas já estavam roídas e ele afundado na miséria. Eurídice, com o esmalte “Saia justa”, assim também deixou o homem. O final da história foi esmaltado com “Ponta de ira”: a acetona amargurada de Gumercindo arrancou a tinta viva da amante.
Ariadne, com unhas do esmalte “Avista”, deixou o fio para Teseu avistá-lo e sair do labirinto. Penélope, com o esmalte “Deitar na rede”, passou anos tecendo e destecendo a mesma coisa todos os dias à espera de Ulisses.
A malfadada Eva, com o esmalte “Causei”, fez jus à cor da unha. Vai ver que não viu que a serpente usava o esmalte “Malícia”...
Unhas coloridas... São belas. São perigosas. Sabem traçar possibilidades nos riscos. Sempre que a unha pintada coça o meu desejo, eu me entrego aos arranhões da “Garota Verão” e... “Deixa beijar”!
A mulher pinta as unhas, as garras e as guerras.
E vencem.
Numa folha qualquer não desenho um sol amarelo
11 de Outubro de 2017, por José Antônio 0
O desenho sempre foi o traço (torto!) da minha incompetência frente à figuração da realidade. Risco e arrisco contornos ridículos, tentando trazer o real para o meu papel. Jamais consigo. Ou o real não é captado ou o real é decapitado.
Sei que o problema não é só comigo. Tive uma namorada cujo pai trabalhava desenhando retrato falado para a polícia. Era realmente um caso de cadeia. Seus retratos falados eram verdadeiras calúnias à fisionomia dos retratados. A polícia sempre ia atrás do cara errado.
Acabou demitido, pois precisavam de quem soubesse fazer retrato falado... e não retrato falhado.
Quanto a mim, sou erudito em aquarela do tosco. Nem sol eu sei desenhar direito. Fica igualzinho moeda que caiu em cima de inseto.
É difícil de acreditar, mas na minha mocidade cismei de participar de um concurso de desenhos. Criei um personagem e fiquei semanas a fio burilando a sua forma. Mandei para a banca avaliadora. Quem vencesse teria a sua obra transformada em desenho animado.
Se o concurso fosse de desenho desanimado, eu até acho que teria alguma chance. Mas não deu. Talvez o nome do meu personagem não tenha ajudado, sei lá: Xapotó!
Porém, uma coisa me consola: meus desenhos são dinâmicos e têm vida própria. Isso é uma vantagem minha sobre quem desenha bem.
Se o bom desenhista mostra o seu desenho de uma casa, todos irão dizer que se trata de uma casa. Bem desenhada, tudo bem, mas não passa de uma casa. Comigo é diferente. Meus desenhos vivem suscitando visões diferentes: quando eu desenho alguma coisa, todos pensam que é outra coisa. Meus desenhos transcendem a si mesmos.
Uma vez, desenhei um cavalo e teve gente que disse estar vendo uma ponte de madeira. Desenhei um jacaré e mostrei para o meu filho:
– Puxa, pai, eu não sabia que você desenhava tão bem um regador...
Mas eu não desisto. Sei que meus desenhos são feios. No entanto, eles provocam mais o artista que vê do que o artista que desenha. Já me conformei com o meu jeito torto de ver as coisas. Vou capengando atrás das formas, tentando entender o traçado de cada uma. O que consigo é do meu jeito.
Não sei... se eu desenhasse de modo fiel ao real, eu trairia a mim mesmo. Prefiro ser fiel a mim mesmo e trair a previsibilidade do real. Acredito que assim eu consigo surpreender sensibilidades perante desenhos esdrúxulos.
Eu não queria dizer, mas nem gosto de pensar como seria se eu desenhasse o meu próprio autorretrato...
Vai encarar?
15 de Setembro de 2017, por José Antônio 0
Já ouvi por aí que a verdade é a perfeita correspondência entre a realidade e seu conceito. Ora, se cada um busca a sua própria perfeição, vive a sua própria realidade e se orienta pelos seus próprios conceitos, então a verdade é relativa. E isso tem até uma certa vantagem. Se a verdade é relativa, nada está definido e as situações não são inflexíveis. As situações se situam. Entenderam bem, radicais de viseira?
Tem vezes que a própria verdade nos obriga a assumir seu lado relativo e mostrar que ela pode ser interpretada de modos diferentes... e inesperados.
Outro dia, fiquei sabendo mais uma do Mané Cráudio, meu amigo pagador de mico. Mané Cráudio tem a alquimia do peru: engraçado, constrangedor, desajeitado... e aquela sensação de “não é que é mesmo?”.
Pois é. O Mané Cráudio resolveu comprar – escondido – umas revistas masculinas. Entrou na livraria e foi direto aos jornais. Enquanto folheava alguns, varria com o canto do olho tais revistas dentro dos pacotinhos de plástico. Discretamente, apanhou umas cinco, cujas capas concentrariam a circulação sanguínea na face de qualquer ser humano que tenha um só pingo de vergonha.
Na hora de pagar, Mané Cráudio, querendo sair logo dali, alegou que estava com pressa. O caixa não sabia quanto as revistas custavam, pois haviam mudado de preço. Foi aí que o rapaz, levantando aquela porção de pernas, bocas, seios e otras cositas más, gritou para o colega lá no fundo da loja:
– Piu-Piu! Ô Piu-Piu! (Até o apelido contribuiu para o requinte da coisa.) Qual é o preço dessas revistas de mulher pelada? É pro rapaz aqui, ele tá com pressa.
Mané Cráudio quase botou um ovo.
Foi logo se desculpando, assumindo a verdade num outro viés, diante de uma loja inteira que olhava para ele. Nessa hora, todo mundo vira pesquisador:
– É que eu estou fazendo uma pesquisa sobre o comportamento sexual dos habitantes do...
Foi embora sem terminar a frase, deixando nas mãos do amigo do Piu-Piu toda aquela ginecologia embalada em plástico.
A verdade tem suas exigências. Como esta outra que presenciei numa cerimônia de formatura no ginásio da escola. Lotado. Foi quando uma voz anunciou nos alto-falantes:
– Há um fusca cor-de-abóbora, com as portas azuis e um autocolante do Mickey no vidro de trás estacionado em frente a uma garagem. O proprietário, por favor, queira retirar o veículo, pois o dono da garagem precisa entrar.
O recado foi dado repetidas e cansativas vezes, mas o tal proprietário do fusca cor-de-abóbora jamais apareceu. Se estava lá na cerimônia, preferiu assumir a verdade de modo relativo e deixar que o guincho levasse embora seu jerimum de quatro rodas. Mais tarde, ele se explicaria na polícia.
Talvez fosse melhor.