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Amigo oculto

11 de Dezembro de 2012, por José Antônio

É sempre a mesma coisa: alguém chega perto da gente com as mãos em forma de concha. Lá dentro, aquela porção de bolinhas de papel. Aí, você pega uma, abre e lê, secretamente, o nome da pessoa a quem você deve presentear. Já que você vai presentear secretamente a alguém, então você vira  amigo oculto.

Até agora, novidade nenhuma. Desde os mais remotos tempos, casados e casadas presenteiam secretamente seus amantes. Trata-se do amante oculto. Só que no caso do amante oculto – e é realmente um caso – ninguém desembola nenhum papel. Pelo contrário, a vida é que se embola toda.

Deixando de lado as puladas de cercas ocultas, umas longas e outras curtas, voltemos ao amigo oculto. A brincadeira possui algumas peculiaridades. Geralmente, é nas proximidades do Natal que os amigos se ocultam. Uma outra peculiaridade: o teto e o piso do preço dos presentes. Isso é sensato, pois uma vez dei um perfume e ganhei um apito. Uma outra vez, dei uma agendinha, dessas roscofes, e ganhei um par de sapatos. Minha cara caiu. Até senti saudades do apito.

Tenho participado de amigos ocultos em que uma só pessoa fica sabendo quem saiu com quem. Ela, então, faz uma lista do que cada um gostaria de ganhar e, secretamente, telefona para cada um dos presenteadores informando o presente que devem comprar.

Na noite do evento, os participantes, um por um, desfiam um monte de qualidades brilhantes de quem vai receber o presente, só pra ver se a turma descobre quem é. A gente até chega a pensar que Madre Tereza de Calcutá, ou Dalai Lama, ou ainda João Paulo II estão na rodada.

E a coisa tem requintes de teatro. O presenteado sente-se como a pessoa mais surpreendida do mundo, sorri para todos, abre o presente e representa a mais fingida  curiosidade, como se não soubesse o que está lá. Ora, bolas, foi ele mesmo que pediu aquele CD, aquele livro, aquela camisa. E ainda diz: Era isso mesmo que eu queria!

Quanta novidade!!!

Eu, cá comigo, ando cismado com essas coisas. No último amigo oculto, a pessoa organizadora ligou para mim e perguntou, secretamente, o que eu gostaria de ganhar. Haviam me indicado, numa viagem que fiz, um livro chamado Novela de Sansão. Pedi o livro.

Não deu outra: na noite do amigo oculto ganhei uma panela de pressão.

– Você me desculpe... a ligação estava ruim... quem sabe se...

E fui embora com a minha panela de pressão. Não veio o Sansão com a sua novela nem Dalila com suas habilidades culinárias. Minha panela virou panela de opressão. Fica ali num canto da cozinha, mais inútil do que vice-governador, insultando-me com a sua inadaptação. E o pior: quem me deu a tal panela sempre me visita e faz questão de ver o monstrengo. Agora ela é panela de repressão.

No próximo amigo oculto, já que tenho de aproveitar a panela e gosto muito de peixe, vou pedir um livro de receitas que ensine a fazer moqueca de pirarucu.

... pensando bem, é melhor deixar pra lá. Podem entender errado.

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