Há bilhetes em que a escrita transcende o espaço físico que lhe é destinado no papel. Para esses casos, o bilhete muitas vezes apresenta aqueles avisos ao pé da página: Vire... Continua... No verso... Leia atrás...
Tem gente que, além desses avisos, ainda desenha uma pequena seta indicando que o leitor deve ler atrás do bilhete. Zelo pragmático.
A vida não tem o costume de me mandar cartas longas. Os recados que recebo da vida – e são muitos – não passam de bilhetes rápidos e circunstanciais. Recados geralmente vindos de detalhes que muita gente não vê. As mensagens são curtas. Longo é o meu parar sobre elas. Chamo isso de encantamento.
Paro tanto nesses recados e detalhes que acabo percebendo que a vida também deixa alguns desses avisos para mim ao pé da página de seus bilhetes.
Uma vez, presenciei a morte de alguém. Foi um momento rápido e suave. Seus olhos não se fecharam totalmente e seus lábios esboçavam um leve sorriso tranquilo. Parecia que a pessoa contemplava algo maravilhoso e pleno de paz. Então eu li, nesse bilhete da vida, um aviso ao pé da página:
Continua...
Houve momentos em que a vida me mandou bilhetes falando de detalhes que enganavam pela ilusão da beleza fugaz, pelo engodo das promessas sem futuro, pela rasteira da novidade sem passado. E lá embaixo, ao pé da página, o aviso:
Leia atrás...
Um dia, a dor me visitou. E a visita virou invasão. A realidade sufocou meu coração, mas o sonho o deixava respirar. E meu coração viu, impotente, o saque da dor ao meu mundo. E minha paz foi embora no detalhe da lágrima cinzenta que as árvores choram quando veem suas folhas se desfazerem na indiferença do outono. E lá embaixo, mais uma vez, ao pé da página do bilhete:
Continua no verso...
E continuei no verso, pois aprendi a fazer poesia.
O amor também envia seus bilhetes. E ele também deixa os seus avisos ao pé da página. Se minha amada lesse os avisos que meu amor deixa ao pé da página dos seus bilhetes, ela entenderia os detalhes que dispensam a obra.
Ah, minha amada, é ao pé da página que estou, pois é aos teus pés que me coloco.
Leia atrás... Atrás de cada recado uma sinfonia de entrelinhas, um coral de sussurros, o meu íntimo mais verdadeiro disfarçado de vozes outras.
Continua... A tua nudez cristalina e ardente continua nas auroras do meu desejo, invade a noite que foge do meu sono, pinta luas de rubi no teto da minha ânsia.
Continua no verso... Continuam debaixo de minhas unhas pedacinhos de tua pele e o sal de teu suor, continua em meu ouvido o gemido de teu voo e o riso de teu repouso, continua em minha retina a tua nudez que – embora tímida – arranca o pudor da minha busca.
A mulher que da bruma se fez carne, osso e sangue... continua no verso.