Cem vezes.
Pois é, leitor, eu teci cem crônicas e mais de cem tônicas nessa nossa centena de encontros mensais. Em cada um desses nossos cem encontros, eu roubei minutos de seu olhar, risos tímidos do canto de sua boca, gargalhadas que lutavam contra o fôlego, lágrimas furtivas com medo de escorrer...
Roubei tudo isso de você. Mas roubei sem levar, pois todas essas coisas já eram minhas também: afinal, a literatura sempre nos faz um só.
No entanto, você também roubou de mim: roubou meu sossego diante da palavra não escrita... roubou minha calma quando eu vi que meu texto precisava de leitor... roubou minha lua quando eu corri atrás de estrelas para costurar constelações sem céu, pois até o céu eu tive que inventar algumas vezes.
Cem crônicas...
Cem roubos, cem arroubos. Tudo em mão dupla. Essa dupla mão que me escreve e que escreve você, essa dupla mão que faz do sentido algo de parceria cúmplice.
Ladrão que rouba ladrão... porém, eu não quero os cem anos de perdão.
Cem vezes.
Cem meses.
Isso dá oito anos e oito meses. Quase gestei o nono ano.
Cem vezes escrevi. Mais de cem vezes reescrevi. Muito mais de cem vezes reli.
Aos poucos, fui aprendendo o diferente... e o igual de forma diferente.
Cem crônicas.
Cem pautas. Sem faltas. Respondi à chamada de cada mês e dei presença a tantas coisas que passaram. Lembrança virou ficção. Ficção virou saudade. Saudade virou verdade. Verdade virou pelo avesso, mostrando os porões da minha alma e os andaimes da sua fragilidade, leitor.
Para conseguir isso, o coração tem que ser multidão e a alma tem que ser solidão. Enquanto o coração distribui a crônica em 365 momentos, a alma singulariza todos eles no solitário momento da criação. São 365 pedaços de um ano de solidão.
Cem crônicas.
Cem anos sendo roubado por sua leitura, leitor, para que seu coração fique ainda mais coletivo. Cem anos roubando a sua solidão, leitor, para que a minha solidão fique ainda mais só.
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de solidão.
Minha centésima crônica no Jornal das Lajes...
Hoje à noite, vou comemorar com as minhas cem filhas de papel vivo. Em cada uma delas, o sangue canta e a alma escorre. Vou abrir um vinho e tomar um porre de ânimo para mais cem histórias.
Não nasci em Resende Costa, mas cada uma de minhas crônicas aqui é como se fosse um gameta tentando perfurar a membrana de pedra do óvulo das Lajes. Pouco a pouco, vou me fazendo feto sempre aprendiz dessa terra boa.