Como pensar na palavra sem a palavra? Como pensar... sem a palavra? O que não se diz passa a não existir. Não sei se o perigo está no não existir pela palavra não dita ou no existir pela palavra proferida.
Palavra silenciada é vida que não acontece. Palavra silenciada é comunicação estrangulada... é declaração de amor emudecida... é xingamento que não xinga... é notícia que não se revela...
Por causa da palavra silenciada, muitos ouvidos se tornam surdos. A palavra não proferida impede de chegar aos ouvidos o velho que se renova, o comum vigente que deixa de ser fato e a novidade nascente que deixa de ser feto. Pela palavra não dita, o autoritarismo campeia sobre as bocas amordaçadas pelo medo ou pelo silêncio imposto.
O que é o silêncio dos lábios? Pode ser ponderação, pode ser sabedoria, pode ser cautela. O que está por trás do silêncio dos lábios? Também pode ser ameaça recolhida ou terror sem sílabas.
Por outro lado, a palavra dita.
A palavra falada é a entonação da alma. Por causa da palavra falada, tantas conquistas... mas quantos riscos! A palavra falada risca possibilidades que muitas vezes fogem ao controle de quem fala.
Palavra... muitas vezes ela fere mais que punhal, pois o sangue que ela derrama é o da alma.
Palavra... muitas vezes ela provoca mais que beijo, pois o que ela enternece e excita é a compreensão.
Palavra... se ela agride mais que pancada, também pode curar mais do que remédio.
Palavra... muitas vezes ela cura mais que remédio, pois o que ela anima é a vida.
Palavras ditas, palavras não ditas... tantas palavras. Por causa delas, a ofensa que nasce ou o elogio que aproxima, o adeus que tortura ou o encontro que alegra, o insulto que revolta ou a repreensão que conserta.
Palavras... facas de dois gumes, gumes de dois riscos: não dizer é arriscado, dizer é arriscado. Viver é dizer, dizer é viver. Viver, já lembrou Guimarães Rosa, é arriscado. Mas, penso eu, vale a pena o risco.
Pior é ser riscado da história por não ter proferido a sua existência.