Foi assim mesmo. Na lata.
De que se tratava aquilo? Era uma aluna com quem eu conversava pouco, apenas o mínimo do trivial reduzido e abreviado. Meio desconsertado, disse que sim. Montei uma cara de satisfação e agradeci. Ela abaixou os olhos e foi embora sorrindo em silêncio. Mistério.
O que aquela menina queria logo comigo? Só podia ser alguma armação pra cima de mim. Eu era muito exigente com provas e notas. Uma vingança? Não cheguei a pensar em envenenamento nem remédio pra desandar intestino, mas resolvi não ir.
Semana seguinte, fim de aula no Assis Resende. Noite solitária. Despedi-me da Dulce e saí. No portão, uma sombra começou a falar debaixo do poste:
– Nós esperamos você. Até matamos um frango... e você nem apareceu.
A menina! Eu até já tinha me esquecido daquela história.
– Pois, é... você sabe... o fim de semana... é que... o domingo... pois é, né... caiu... quer dizer, coincidiu... fim de semana... desculpe... prometo... ou melhor...
– Faz assim: a gente espera você no domingo que vem de novo. Quero que você conheça minha família.
Fiz uma graça, para ficar bem na fita:
– Com uma condição. Que vocês matem outro frango.
Ela sorriu em silêncio e em silêncio foi embora, até sumir na lombada ali perto da casa da Lilia Lara. Meus olhos não conseguiram descer a lombada, mas minha curiosidade levava lambada. O que queriam de mim?
O domingo veio e eu olhei o papelzinho com o endereço. Cheguei com algumas flores, pois a gente deve ir a um almoço com a barriga vazia e nunca as mãos. A porta se abriu e a família toda surgiu: pai, mãe, um casal de gemeozinhos, um gato magro e dois cachorros tarados, que juravam que minha perna era garota de programa. Por fim, surge a menina. Toda vaporosa e alegre, recebeu-me com encanto. Os cachorros carentes foram enxotados lá para o quintal sob protestos uivantes. Chamavam-se Pica Pau e Manda Chuva. De Manda Chuva não tinham nada, mas de Pica Pau... Inclusive, Pica Pau deveria ser o nome dos dois: um se chamaria Pau e o outro... (Desculpe, leitora já vermelha de vergonha indignada de ler essa bobagem. O que posso fazer? Eu perco um amigo, mas não perco uma piada.)
E aí veio aquela conversa toda que não leva a lugar nenhum. Voltamos o tempo, desenterramos defuntos, reavivamos fotos, enfim, a nostalgia comeu feio. Por fim, a mulher chegou até a sala e disse, com um sorriso largo:
– A comida está na mesa. É só você não reparar. É casa de gente simples.
Eu fui entrando e a gente simples veio atrás. Na mesa, o cadáver do frango que eu mandei matar. Que arrependimento! Lembrei-me das flores e até deu vontade de enfeitar o defunto já depenado. Comemos e bebemos. A bem da verdade, comida de primeira.
Foi aí que o pai ficou mais sério e me olhou demoradamente nos olhos:
– A minha filha fala muito de você. É uma moça de ouro. Gostaria que você aparecesse mais por aqui.
Entendi tudo. Era uma armação sim. Quer dizer, mais amação do que armação, entende? Mostrei-me bastante lisonjeado por ser alvo da simpatia da... (quase que digo o nome!!!), eu iria aparecer por lá sim...
A coisa parou por aí. Não andou nem desandou. Continuei com minhas aulas como se nada tivesse acontecido. Grosseria de minha parte? Invasão de privacidade da parte dela? Disso tudo me restou o remorso de ter assinado a sentença de um frango que nada tinha com isso.
E a menina? Parou de estudar. O tempo passou e fiquei sabendo que ela se casou. Como são as coisas... Semana passada, ela passou por mim sem me reconhecer. O marido estava junto. A perna da calça dele estava suja e amarrotada. Por onde andarão o Pica Pau e o Manda Chuva?