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Coquinho-Babão

16 de Maio de 2009, por José Antônio

Em vários sábados de 1987 tivemos aulas à noite. Reposição de uma greve da qual não entendi o resultado até hoje. De concreto, como já disse, apenas as aulas aos sábados. Os alunos iam todos arrumados, pois, afinal de contas, era sábado. Os garotos engomados e as meninas de longo e maquiadas.

O movimento na avenida começava, nesses sábados, depois das dez e meia. Era aquela porção de gente passeando pra lá e pra cá, todo mundo carregando livros e cadernos. De vez em quando, um namorado cavalheiro carregava a tralha colegial da namorada na mão esquerda e dava a mão direita à dama.

Os bares lotavam... depois das dez e meia; a avenida se alegrava... depois das dez e meia; a noite virava uma criança... depois das dez e meia. O toque de recolher fora trocado pelo toque de escolher, e todo mundo escolhia o barzinho, a esquina, a companhia, a conversa... Coisas que não estão muito longe no tempo, mas que trazem uma saudade danada, como que nostalgia de uma inocência festiva que de repente aprendeu a ficar no passado.

Num desses sábados, Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu resolvemos tomar uma cerveja no bar do Miguel. Pedimos também uma porção de azeitonas. A conversa rolava solta enquanto cada azeitona rolava dentro da boca de cada um até cair nuazinha em caroço chupado dentro de um pires.

Eis que entra um bebum. O cara parou de mesa em mesa que nem beija-flor etílico. De repente, olhou em nossa direção e disparou:

– Olha os professor bebeno! Olha os professor bebeno!

Todo mundo parou a conversa para ver qual seria a reação dos professor bebeno.

Mário e Marcos fingiram que não ouviram, ou melhor, fingiram que eram surdos, pois o cara gritou com tudo o que tinha na traqueia. Chamei o bebum para se reunir ao corpo docente e tudo voltou ao normal: as pessoas continuaram suas conversas, o bebum pediu uma pinga e meus dois amigos voltaram a escutar.

– Oceis é tudo gente fina. Me dá mais uma pinga. E eu quero comer também.

E enfiou a mão nos caroços de azeitona, chupados e cuspidos.

– Não! – gritei – Isso aí é...

Tarde demais. O bebum encheu a boca. Mastigava sem entender nada. Até que perguntou, com raiva:

– O que é que eu tô mastigano?

Revelar a verdade seria coragem ou, quem sabe, crueldade. Entabulei uns monossílabos desarticulados, que rodavam em minha boca do mesmo modo que os caroços na boca do bebum. Não consegui cuspir uma frase, mas o cara cuspiu tudo na mesa e saiu irritado:

– Detesto coquinho-babão!

Pedi mais uma cerveja para embriagar a minha consciência e afogar os meus escrúpulos. Prometi a mim mesmo comprar muitas azeitonas para o bebum.

Nunca mais vi o homem. Muitas vezes me sentei com o Mário e o Marcos para tomar cerveja, na esperança de vê-lo. Teve até uma noite em que bebi sozinho no mesmo bar, frente a uma porção de azeitonas, torcendo para que esse meu irmão aparecesse. Mas ele não veio. Cheguei a sonhar com os caroços rolando na boca dele, entupindo sua garganta e ele morrendo sufocado. Horrível.

Aos poucos, essas imagens foram sumindo até virar névoa.

No entanto, aprendi que às vezes é melhor um caroço de azeitona fantasiado de coquinho-babão do que um coquinho-babão se transformando em caroço de azeitona. O coquinho-babão provocou asco; o caroço chupado de azeitona provocaria ódio. Entre o asco e o ódio, nem mesmo bicarbonato de sódio: quero paz no coração. E viva o coquinho-babão!

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