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Cupido

17 de Outubro de 2014, por José Antônio

No folclore varejista que simplifica a mitologia greco-romana, Cupido é o deus do amor. Costuma aparecer como um menininho inocente, pelado, com um pequeno par de asas, arco e flecha. Vive escolhendo corações – o critério é sempre dele! – para lançar flechas certeiras, fazendo com que as pessoas se apaixonem umas pelas outras.

Só que o Cupido também se apaixonou por alguém: Psiquê. No entanto, ele não aparecia aos olhos dela. Somente a sua voz falava de seu amor. A felicidade de Psiquê – estranho – estava condenada à ausência do amado.

Porém, numa noite Psiquê surpreendeu Cupido e o viu. Por causa disso, alguns revezes aconteceram. Cupido e Psiquê acabaram se casando. E não houve união mais feliz.

Quem diria que eu aprendi a ser Cupido?

Em meados de 1986, houve uma intensa e longa greve dos professores do Estado. As aulas voltaram em junho, justamente no dia do aniversário da diretora do Assis Resende, a Eunice. Na escola, aconteceria um almoço em homenagem a ela e à noite, alguns números artísticos.

Marcos, Mário Márcio e eu resolvemos ir, mas o Maguinho Tarôco estava resistente: resquícios de desentendimentos da greve. Fui, então, designado para ser o diplomata que convenceria o Maguinho a comparecer aos eventos.

 Falei, argumentei, exemplifiquei, insinuei, desenhei, ponderei, nem sei! O Maguinho cedeu.

Cinco anos se passaram e, num sábado, eu estava na casa do Maguinho quando bateram à porta. Era alguém da gráfica que viera trazer os convites de casamento do meu amigo. Ele, num sorriso largo e emocionado, abriu o pacote e tirou o primeiro. Subscritou e me entregou:

– O primeiro tem que ser seu. Se não fosse você, eu não iria a Resende Costa aquele dia. E porque fui, conheci a Socorro e agora vamos nos casar.

Saí de lá batendo feliz as minhas asinhas de Cupido desajeitado, mas certeiro: mirei no que vi e acertei no que não vi.

De lá para cá, ainda continuo mirando e flechando. Algumas setas se perdem... outras se partem contra corações duros e fechados... algumas outras conseguem sangrar sem ferir. E são essas últimas musas que viram minha Psiquê.

A minha Psiquê sempre vem. Em corpos variados, em olhos de cores diversas, em peles diversificadas, em nomes dos mais sortidos, embora alguns repetidos. Mas sempre Psiquê, sempre mulher, sempre o feminino que se abre para os transbordamentos do amor.

Deixar de ser Cupido? Não. Jamais ex-Cupido, porém sempre esculpido... talhado com o capricho do formão que tira pedaço e pelo resultado que encanta.

 

 O amor é mais ou menos por aí.

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