Voltar a todos os posts

De novo, a cenoura

12 de Setembro de 2009, por José Antônio

Detesto cenoura.

A coisa começou na infância, quando tentavam me dar papinha de cenoura à força. Dizem que eu cuspia tudo na cara dos torturadores gastronômicos. Depois eu virei adolescente e dessa fase eu guardo muitas memórias. Entre elas, a minha inimizade com a cenoura. Procurei fazer as pazes com a raiz alaranjada, mas ela sempre irredutível: e lá vinha vômito. Adolescente vomitando é muito humilhante.

O jeito foi desistir. Apaguei a cenoura da minha vida, enterrando-a no canteiro das impossibilidades. Sempre que me ofereciam, eu agradecia com os lábios num sorriso e o estômago nos palavrões. Bolo de cenoura, dispenso. Torta de cenoura, passo. Salada com cenoura, desconheço. Se eu tivesse nascido coelho, morreria anoréxico.

Não tenho nada contra a cenoura. Muitas vezes tentei me aproximar, ela é que sempre engrossou o caldo. E caldo grosso eu não bebo, vira angu com caroço. Em algumas refeições, fiz de tudo para ser simpático com ela. Porém, ela nunca deixou de me repugnar: o cheiro da danada me azeda... o sabor da perversa me derruba... a ameaça da tirana me maltrata...

Um dia, fui a uma fazenda perto de Resende Costa. Andaram comigo pelos latifúndios e cercanias até que meu estômago roncasse. Antes de almoçarmos, o chefe da casa ainda me mostrou os porcos, orgulho daquela propriedade rural. Nunca me interessei por leitões vivos, mas tive que me esforçar para me mostrar deslumbrado pelo tesouro suíno daquele fazendeiro amante dos fuçadores e roncadores.

– Eles adoram cenoura! Aqui em casa nós damos muita cenoura pra eles. Eles são importantes, devem comer bem.

Uma vez à mesa, não é que a mulher do fazendeiro me trouxe cenoura? Ainda por cima, falou:

– Preparei especialmente pra você. Afinal, você é importante.

Importante que nem os bacorinhos lá fora.

Nessas horas, a gente tem que ter estratégia. Fui empurrando a cenoura pra baixo do arroz, o arroz pro lado do prato, e comi apenas feijão e carne. Enquanto a mulher foi pegar o doce e o homem foi fazer o cafezinho, raspei o arroz com a cenoura para um gato magro e comprido que me espiava no meio da horta. Comi o doce (não levava cenoura!), tomei o cafezinho, elogiei o almoço, principalmente a cenoura, agradeci e fui embora.

Se não foi na fazenda, foi na cidade. Algum tempo depois, estava eu de novo em Resende Costa, na casa de uma professora amiga minha. Mais uma vez, um casal anfitrião. Mais uma vez, um convite. Mais uma vez, a cenoura. Eu já tinha desconfiado que ia ter cenoura pelo cheiro que vinha lá de dentro. Não deu outra: a cenoura estava de novo no meu prato, fumegante e cheirosa, oferecida e ameaçadora.

E começaram a comer, sorrindo e apreciando. Elogiavam a cenoura, saboreavam a cenoura, repetiam a cenoura. E eu ali, fazendo desenhos sem sentido no prato, passando o garfo sobre a cenoura.

– Você não vai comer? Está perdendo.

Estava perdido. Enchi o garfo, fechei os olhos, lacrimejei por dentro e comi. Perguntaram se estava bom e eu disse que nunca havia comido uma cenoura assim (nunca mesmo!).

– Então, come mais.

E o meu prato recebeu mais uma remessa de cenoura.

À tardinha, fui embora. O sol morrendo no Morro do Chapéu e o meu estômago despejando açúcar, caroteno e glúten no Buraco do Inferno. Talvez tenha tudo despencado no Hades subterrâneo. Ou, quem sabe, tenha virado semente para voltar a me ameaçar de novo num prato cínico.

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário