– Você tá sabendo que o Periquito morreu?
E ficou me olhando, esperando um susto de minha parte. Só que eu não lembrava quem era o tal do Periquito.
– Periquito?
– O Periquito, rapaz! Vê se pode! Morreu. Você se lembra dele sim. Foi o Periquito que salvou o Cacá na piscina do Godofredo.
Periquito... Cacá... Godofredo... Quem era essa gente? Parecia que o cara estava me contando um filme que eu não vi. E esse Cacá? Será que era pássaro também? Cacatua? Tentei puxar umas perguntas em busca de pistas. Vai ver que eu conhecia o Periquito, quem sabe? Pensei em indagar particularidades dele. Acabei tendo uma ideia esplêndida:
– Como era mesmo o nome do Periquito?
– Eu só o conhecia por Periquito.
O meu amigo insistia em não sair da gaiola. Estava difícil. O jeito era fazer um rápido e exaustivo levantamento de conhecidos meus com apelido de ave ou pássaro. Tive um colega na escola, o Curió. Ou era Pintassilgo? Professor Jandaia... quanto tempo! Será que o Jandaia era o Periquito? Talvez fosse. Tanta gente troca de cabelo, de cara, até de sexo... Por que não vai trocar de apelido? Não. Pensando bem, se o Jandaia fosse o Periquito, esse Periquito já seria mais que senil. Pássaro Dodó, Pterodáctilo, algo assim. O pior é que o meu arquivo aviário chegou ao fim e não apareceu nenhum Periquito. E o cara insistindo em instaurar o inexistente:
– A mulher dele é que ficou bem. O Periquito deixou uma boa pensão.
O Periquito era casado. Quem era a mulher do Periquito. Cocota? Maritaca? Será que o Periquito era casado com a Arara?
– Olhe, agora acho que você vai se lembrar: ele era irmão do Pão de Queijo.
Mais complicações. Lá fui eu abrir outro arquivo. Dessa vez, até me lembrei de meu antigo time de futebol no colégio: eu, Broa, Rosca, Torradinha e Biscoitão. Não tinha Pão de Queijo. Por outro lado, o Pão de Queijo poderia ser a minha salvação:
– O Pão de Queijo... acho que sei quem é... Por que ele tem esse apelido?
– Foi armação. O Periquito é que colocou o apelido no irmão. Ele mesmo inventou a piada. Conhece a piada do Periquito?
Só podia ser piu-piu.
Foi aí que aquele pombo-correio que me dava a notícia do falecimento do Periquito virou a cabeça pro lado e comentou ansioso, olhando um aglomerado de pessoas:
– É o enterro do Periquito. Fica feio se eu não for lá. Tchau!
E se misturou no meio da pequena multidão que iria sepultar o Periquito que tinha batido as asas. Ainda pude distinguir, ao longe, um sujeito gordinho e atarracado. Devia ser tal do Pão de Queijo.
Tive a curiosidade de seguir o enterro e, na hora de abrir o caixão pela última vez, descobrir afinal quem era o Periquito, agora na versão defunto. Achei melhor não. Eu me sentiria igualzinho ao Periquito no meio daquela porção de gente: um estranho no ninho.