Dizem alguns que quem está dentro da situação vê melhor. Eu cá comigo penso que quem criou essa frase estava fora da situação. É a velha história do retrato, que quanto mais perto dos olhos mais difícil de se ver.
Semana passada foi assim. Estava eu na minha costumeira mesa do restaurante, num canto discreto do salão. Por trás dos meus óculos, observava o movimento dos comensais. Risos, gestos, copos e garfos levantados e abaixados, bochechas mastigando... Um pouco à frente, um casal de meia idade: poucas palavras, uma pizza, um vinho e duas taças. Mais à direita, dois casais mais novos, jantando e conversando um de frente para o outro, os homens contando coisas e rindo, as mulheres assuntando sérias... Crianças corriam, embaraçando-se no meio de garçons apressados que pareciam beija-flores sem asas, desfilando bandejas num equilíbrio rápido e circense. Por trás de meus óculos, eu via a vida borbulhar freneticamente em torno do prato e da comida, na celebração gastronômica da sobrevivência.
De repente, estaciona na porta do restaurante um carro todo enfeitado de balões coloridos. Sai de lá um rapaz carregando um microfone e um buquê de rosas. Uma música romântica começou a tocar enquanto o rapaz despejava no microfone uma voz empostada, caprichando na entonação:
– Parabéns, Míriam Raquel! Hoje é o seu aniversário. As rosas desabrocharam em silêncio essa manhã, mas a natureza esteve em festa todo o dia de hoje... – e por aí foi.
Não sou chegado a esse tipo de espetáculo, mas fazer o quê? O jeito era esperar acabar, enquanto sonhava com uma outra estética.
Todo mundo parou de fazer o que fazia, a fim de entender o que se passava. Então eu pude perceber que um casal de jovens namorados se levantou. O moço tinha preparado uma surpresa para a namorada, a tal da Míriam Raquel. Bonita e tímida, numa elegância simples e com trajes singelos, o rosto iluminado por um sorriso acanhado, ela foi conduzida à porta do restaurante pelo namorado radiante.
Quando a leitura da mensagem acabou, a música tocou mais alto, uns foguetes espocaram e de dentro do carro saiu uma moça carregando um bolo com uma velinha acesa. O carro foi embora e o casal voltou para a mesa. Aos poucos, o restaurante foi retomando seu ritmo e seu rito. Por trás de meus óculos, eu continuava a olhar o casal. Ele, empavonado, herói que cumprira uma nobre missão. Ela, feliz por ter um namorado que assumia na frente de todo mundo o seu amor por ela. E o casal ficou em silêncio e abraçado, olhando para o bolo e sorrindo humilde, como aquelas flores que vicejam no campo, felizes por serem grandes em sua simplicidade.
Então, sem que ninguém esperasse, o casal se levantou e foi de mesa em mesa, distribuindo fatias de bolo. Todos recebiam com satisfação e surpresa. E, num momento de espontaneidade pura, todos ali improvisaram um parabéns pra você. Tudo terminou com aplausos festivos e meus olhos úmidos.
Vi tudo e compreendi muito, talvez porque me coloquei por fora da situação. Distanciado a ponto de não ganhar uma fatia do bolo. Não faz mal... não gosto de bolo mesmo! Gosto é de ver e de recriar a vida que se faz festa nas migalhas caídas e esquecidas do cotidiano.
Não provei do bolo, porém meu coração cantou e aplaudiu irmanado com o universo. Baixei os olhos e vi o branco do meu papel desafiador, pedindo um texto. Saiu apenas uma frase: Viva a Míriam Raquel!!!