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Isto é segredo, falou?

08 de Setembro de 2008, por José Antônio

Pouca gente sabe disto. Ou melhor, penso que ninguém sabe disto.

Não acredito em segredos que se dizem segredos. Se o segredo foi contado para alguém, já deixou de ser segredo. Segredo tem que ser segregado e não segredado.

Vou, então, contar para você um segredo. Quer dizer, vou contar para você uma coisa que vai deixar de ser segredo, diluído na minha escrita e revificado na sua leitura. Cheguei a Resende Costa para trabalhar. O ônibus parava ali em frente à casa da Maria Melo. Sobravam uns apertados quinze minutos para eu ir até a república, ao lado da Matriz, a fim de guardar a bolsa, ajeitar umas coisas e beber um copo dágua.

No entanto, na viagem pingou mais gente do que chuva miúda. O primeiro que desceu, perto das Águas Santas, pegou no bagageiro dois sacos de mexerica. Depois, perto do trevo de Coroas, uma família: pegaram sacolas, embrulhos... e sumiram por entre a vegetação. Perto do trevo de Prados, alguém deu o sinal: desceu um senhor bem velho. Andava com uma dificuldade enorme, como se arrastasse o mundo. Lá fora, pegou uma bolsa e dois bornais, olhou para o motorista Gérson e perguntou:

Eu vou pegar o ônibus de Belo Horizonte. Aqui é o trevo de Resende Costa, não é?

E aí, toca o bom velhinho a guardar tudo de novo no bagageiro, subir no ônibus e caminhar com sua característica dificuldade até seu lugar. Desci eu em frente ao Assis Resende com a garganta seca, os nervos irritados e a bexiga fumando.

Às onze da noite, entro no beco enfio a chave na porta. Pois a chave não rodava. Mexo daqui, tento dali, entorto mais uma vez... abriu. Quando, já tonto de sono, vou para o quarto, ele estava trancado a chave. Os três que dormiram lá na noite anterior, Mário, Marcos e Maguinho, trancaram o quarto e levaram a chave.

O jeito era arrombar. Dei umas ombradas na porta, mas ela não cedeu. Troquei de ombro, ela nem aí. Apelei para os pontapés e eles rasgaram o silêncio da madrugada. Era mais de meia-noite. Mas eu tinha que dormir! Então, acometido da mais nobre estupidez, reuni todas as forças e me atirei todo contra a porta. Senti que tudo de mim se chocou contra a madeira... Foi um barulho terrível. Algumas vozes falavam na casa vizinha, latidos de cachorros vinham de variados pontos...

Consegui, enfim, jogar-me na cama. É aí que entra o segredo: não sei se sonhei ou se a coisa aconteceu mesmo. Vi, estampada no vidro da janela do quarto, a silhueta de um policial. Tinham chamado a polícia, meu Deus! Fiquei quieto. Ouvi batidas na porta, e elas se tornaram insistentes. Não abri. Como fazer a polícia acreditar na minha história, que eu estava no meio da madrugada arrombando a porta do meu próprio quarto para dormir...? Ele iria me levar para arrombar a cela. Acabei dormindo.

Na manhã seguinte, levantei-me depressa para pegar o ônibus. Saí do quarto pulando por cima da porta caída e meti a chave na outra porta, a da rua. A chave não rodava. Arrombar? Nem pensar. Arrombei para entrar e agora iria arrombar para sair? Pulei a janela e fechei-a por fora. Corri desesperado para pegar o ônibus, mas ele passou... impávido colosso sobre quatro rodas, indiferente às minhas mazelas.

Voltei para casa, iria no ônibus das oito. Outra vez no alpendre, a chave não rodou na fechadura. Pular a janela? Pois eu a tinha fechado por fora e ela se travou. Acabei indo para São João no ônibus dos estudantes, às seis da tarde. Não podia viajar e deixar a casa com duas portas arrombadas. Além disso, não tinha condições de dar aula: meus dois ombros não me deixavam levantar os braços. Como escrever no quadro? E, no caso de uma fatalidade, já que eu já estava tão familiarizado, como arrombar a escola com os ombros doendo?

Minha história deixou de ser segredo. No entanto, que fique somente entre nós dois. Não quero que levantem suspeitas contra a minha pessoa quanto a arrombamentos que porventura venham a acontecer. Já chega ter que viver arrombando algumas janelas da vida para ver se consigo encontrar sentido em certas coisas.

Ih!... Acho que revelei um segredo.

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