A neblina colocava um tule de nuvem nas ruas e os grilos arranhavam a sobriedade do silêncio. Sombras soturnas se postavam imóveis ao lado de árvores e postes. Becos calados e esquinas vazias. Um quinteto rondava pela madrugada. Quinteto sem viola nem seresta, apenas vozes e passos sem rumo pelas incertezas que toda madrugada traça. Cinco homens e uns destinos, paródia pitoresca de um filme que um dia eu vi quando criança... e agora me encontrava na própria tela do tempo, representando a mim mesmo.
Um deles, André Eustáquio; logo depois, Tataka, Eustáquio Peluzzi, Rosalvo Pinto e eu. Não, leitor, não era um time de futebol de salão, apesar estarmos sendo cinco jogadores de palavras e momentos naquela noite. Andávamos todos falando ao mesmo tempo, assuntos que quase sempre terminavam em explosão de gargalhadas, fazendo cachorros latirem ao longe, em hortas e quintais de quem nem imagino.
E uma edição especial do Jornal das Lajes começou a surgir, uma edição que só sairia naquela madrugada. Durante um jantar de fandangos regado a latas de cerveja, a equipe caminhava torta, mas afiada nas lembranças. Notícias dos fatos da cidade... causos de personagens típicos do lugar... necrológio a respeito de tristes despedidas... informações sobre acontecimentos policiais... lembranças de sucessos do cinema... comentários críticos e humorísticos em forma de crônica oral...
E não é que tínhamos mais matéria do que pensávamos? De repente, alguém deu a idéia de comermos pizza no Buteco da Maura. Foi aí que o Rosalvo intimou todos a irem em seu fusca. Eu nunca tinha visto o fusca do Rosalvo e indaguei pelo veículo.
– Tá lá nos Quatro Cantos. É velho, mas leva todo mundo.
O fusca estava lá mesmo, no passeio de frente à casa da Filomena, mãe do padre Fernando Salomão. Estava empinado, jogando seus dois faróis apagados para cima. Todo mundo entrou, mas o fusca não pegou: bateria arriada.
– Ele pega no tranco. Vou soltar o carro, ele desce de ré e aí ele pega.
Não iria pegar nunca, pois estava quase que colado com a traseira num poste.
– Um, dois e... já! – empurramos o fusca com todo o empenho. Se fracassássemos, o Rosalvo iria dirigir um fusca de ré até o Parque do Campo.
Pegou. Entramos e fomos comer a pizza. Lá na Maura, o papo rolou solto e alegre, cada um contando coisas e jurando detalhes num requinte de conhecimento de causa. Ai, meu Deus! Pobre vida alheia! Quem disse, meu Deus, que a vida alheia é alheia?
Revisamos os assuntos e causos. A edição estava pronta para ser impressa. Uma edição da madrugada, tecida com vozes e coração, tudo irmanado no tablóide efêmero de um luar. Só faltava o Editorial. Resolvemos fazê-lo na praça em frente ao Assis
Resende. E tinha que ser antes do sol nascer, pois a edição era especial. Um jornal feito na madrugada para circular de madrugada, tal e qual pãozinho fresco de padaria que começa cedo. Estávamos prontos para brindarmos uma Resende Costa que fica acordada enquanto a cidade dorme, uma Resende Costa que renasce a cada teimosia de andarilhos noturnos na sua insistência em pensar que recordar é fundar eternidades.
André recolheu os títulos, Tataka fotografou, Eustáquio planejou a diagramação, Rosalvo ainda trouxe uma última história do passado e eu arrisquei uma crônica. Tínhamos pouco tempo para fazer o Editorial.
Porém, o jornal morreu ali mesmo na saída do boteco: a bateria do fusca arriou de novo. As partes da edição da madrugada ficaram por ali mesmo, foram sopradas pelo vento frio da madrugada. Não sei onde foram parar.
Ontem à noite, eu passei por lá. Vi uma coisa familiar agarrada a uns ramos: era a minha crônica. Peguei-a com cuidado e mandei para você, leitor. Está aí, frente aos seus olhos. Acho que alguma coisa foi fundada.
Jornal das Lajes: Edição da madrugada
11 de Outubro de 2008, por José Antônio