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Luz misteriosa

14 de Marco de 2010, por José Antônio

Não acredito em assombrações, mas sou cismado com esse troço. Nunca me apareceu ninguém arrastando correntes nem alma penada zanzando pelo cemitério. Vozes? Vozes do além, gritos do aquém, sussurros de ninguém. Jamais ouvi essas coisas. Sou agnóstico quanto a fantasmas, por isso eles não me dão muita bola.

O que um assombração faria à minha frente? Aparecer? Tem tanta gente aparecida nesse mundo e que dá medo. Ameaçar? Há tanta ameaça concreta no dia a dia. Matar? É tanta gente que não é fantasma e que mata. Se o assombração aparecer pra mim, me ameaçar e me matar, o que tem de mais nisso? Os vivos já vêm fazendo essas coisas bem antes desses seres tenebrosos existirem. Aparecer para fazer o que todo mundo está cansado de ver? Acho que os assombrações têm mais o que fazer do que ficar dando show de deja-vù.

Meu pai sempre me dizia de uma luz que de vez em quando aparecia em Resende Costa. Uma luz estranha, movia-se no ar e não tocava o chão. Como todo assombração que se preze, aparecia para poucas pessoas ou mesmo para uma só. Assombrações não gostam de muitas testemunhas oculares.

Andei muito pelas ruas de Resende Costa de madrugada. E me vinha a lembrança da tal luz. Olhava para tudo o que era escuro e encarava a parada. Mas a luz nunca me apareceu. Curto-circuito do além, apagão no reino dos mortos.

Numa dessas madrugadas, porém, a luz quis dar uma piscadela pro meu lado. Subia eu ali perto da igreja do Rosário, eram quase duas da madrugada, a lua estava que desmaiando. De repente, as luzes da cidade se apagaram. Eu ali, totalmente sozinho, dando peitada nas trevas. Ouvi um chiado insistente, vindo lá do portão do adro da igreja. O chiado ia e vinha. Lá estava ela: a luz! Me encurralava.

Pensei em voltar, mas voltar pra onde? A luz viria a galope atrás de mim, num cavalo fosforescente. Parei meus passos. A luz lá. Era como meu pai me dissera: não tocava o chão. Era vermelha. Pequena, mas de um vermelho vivo. E o chiado dizendo coisas do além-túmulo, vozes que se misturavam, parecia que uma terrível música tentava se salvar de um sufoco, querendo acontecer...

O que era aquilo? Comecei a suar e as pernas já avisavam que iriam me faltar. Enchi os pulmões (é sempre bom ter uma reserva no caso de precisar gritar), estufei o peito e resolvi enfrentar. Caminhei em direção à luz.

Foi aí que eu me arrepiei: uma voz rouca veio de algum ponto do escuro:

– Tá enxergando alguma coisa, companheiro?

Parei estarrecido. A luz falava... e falava comigo.

– Que breu, hein?

Era o breu das trevas buscando contato. Balbuciei uma frase qualquer, tão qualquer que já se perdeu no escuro do esquecimento. A luz parou de falar. Silêncio. Aproximei-me e vi dois olhos mirando o meu rosto. Minha espinha virou picolé.

Era um bêbado. A voz rouca era dele. A luz vermelha era de seu rádio. O chiado era do aparelho. A respiração aliviada era... minha mesmo.

Um dia, numa conversa sobre assombração, o assunto da luz misteriosa em Resende Costa voltou. Fiquei quieto e não dei palpite algum. Já pensou se alguém fica sabendo que um assombração etílico me tremeu as pernas com um rádio estragado?

Non creo en fantasmas, pero que los hay... los hay.

Comentários

  • Author

    Ótimo!!
    Já ouvi histórias sobre a tal luz...
    Vai que um dia ela aparece!


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