De novo estou fazendo aniversário. De novo estou completando mais um ano. De novo... de velho.
Não posso me queixar de meus entes queridos. Sempre telefonam, dizem coisas agradáveis, falam que o dia é especial, desejam-me felicidades... Até cantam parabéns.
Ouço, agradeço, jogo meu sorriso sereno para o canto da boca e suspiro.
Todo mundo vira filósofo no dia do aniversário. Quem cumprimenta faz questão de elaborar frases profundas e vestidas de sabedoria. Quem ouve – o aniversariante – também filosofa. É aí que eu entro: fazer aniversário é dizer adeus ao que chega.
Se, por um lado, eu ganho experiência, por outro meus dias escoam pelo ralo do meu calendário. Chegam os abraços, vão-se os passos. Aparece a festa, vai-se o que resta.
Chegou a hora de apagar a velinha / Vamos cantar aquela musiquinha... Havia uma canção que dizia assim. Apagar a vela. Soprar o fogo da existência que nem chegou a consumir a vela. A vida é assim. Nem bem é acesa e já está na hora de apagar.
Vou parar de soprar velinhas em cima de bolos. Mais ainda: nem vou chegar perto da mesa quando cantarem os parabéns. Já pensou como o negócio é trágico? Na sua frente, uma vela com o número de anos que você viveu até aquele momento. De repente, as luzes se apagam. Nas trevas, uma única vela acesa, iluminando pra todo mundo aquela quantidade de vida que você mesmo terá que soprar, varrer da existência.
E todos ainda batem palmas. Você soprou anos de alegria, lágrimas, prazeres, conquistas, trabalho... E todos ainda batem palmas. Além de trágico, o ritual é sádico: tem gente que canta Com quem será que o fulano vai casar?
É festa ou é gozação?
Ninguém acende uma velinha sequer simbolizando o ano a mais que você está começando a viver. Todo mundo só se preocupa com o que já foi embora. E ainda lhe desejam muitos anos de vida... Pra quê? Pra gente soprar tudo outra vez?
A coisa ainda fica pior quando os presentes começam a escassear. Isso é sinal de reta final ou de qualquer coisa parecida. Se no seu aniversário você começa a não ganhar presentes, é porque você já não está fazendo mais falta. Por enquanto, ainda ganho presentes. Vejo que preencho lacunas em vidas que não são minhas.
Meu aniversário está chegando. No dia, vou acordar pensando em quem vai me ligar, em quem vai vir me dar um abraço, em quem vem dizer que me deseja uma vida longa. Nesse dia, estarei com a casa arrumada, a barba feita, a mesa posta e a música pronta pra tocar.
Quem vier, arrume um canto, assente-se, a casa é sua. O vinho é de qualidade e a conversa vai inaugurar madrugadas e madrigais.
Mesmo que um dia tudo termine num último suspiro, vale a pena festejar enquanto suspiramos. Não vou soprar velinha alguma. O capricho dos meus dias se encarregará disso.
Mais um aniversário
13 de Setembro de 2011, por José Antônio
Leitor do JL - 18/09/2011
Zé, suas crônicas são maravilhosas. Tenho lido e colecionado a maioria delas. Espero que sejam publicadas em livro... E pode ter certeza: o dia 30 de setembro jamais foi esquecido. Se não consigo ligar pra você nesse dia, eu rezo. Rezo pedindo a Deus que lhe dê saúde, "juízo" e vida longa. Assim como tenho rezado pela alma do Geraldo Luiz e pela família dele. E tudo isso acontece sem velas, vinhos, bolos, presentes... Apenas numa conversa [silenciosa] com Deus. Um abraço, de seu amigo e irmão, Mário.