E Plutão deixou de ser planeta. Antes era aquele planetinha esquecido lá no finzinho da fila. Nem o sol sabia que Plutão era um dos nove que circulavam por ali.
Ninguém nunca ouviu falar muito dele, jamais foi assunto de conversa importante. As previsões para a lavoura nem conhecem Plutão. O clima da Terra muda e desmuda dando uma banana pra Plutão.
Viagem espacial para Plutão? Loucura. Filme de aventura em Plutão? Cadê a aventura? Pagode cantando Plutão? Ninguém atura. Sentido pra Plutão? Ninguém procura.
E o Plutão aprendeu com a lua: coisa que não é nova fica minguante. Plutão foi minguando em seu status até deixar a lista dos top nine: virou cartilagem do sistema solar.
Passando para outra órbita, o meu telescópio crítico encontra uma outra coisa que também está deixando de ser tão importante e virando cartilagem: o cérebro humano.
Aquilo que não é usado vai se atrofiando, murchando até perder o brilho. O cérebro está perdendo o seu status. Parece que a lei é não incomodar o cérebro.
Na música, a inteligência auditiva não precisa mais ser exercitada, pois já baixamos afinadores pela internet. Hoje o homem consegue afinar um violão com os ouvidos tapados.
Tem mais: você toca qualquer música numa mesma escala: não é necessário raciocinar para fazer transposição, é só mexer numa chavinha.
E a pesquisa? O cérebro não precisa mais entrar nisso. Basta copiar e colar, CTRL C e CTRL V: Cérebro Trabalhando Rala, Logo Chega! e Cérebro Tranquilo, Recostado, Lerdo, Vagabundo.
O cérebro vai se transformar num amontoado de neurônios frouxos que servirão apenas para raciocínios estúpidos. Ou já se transformou?
Nossas celebridades são músculos e bundas, barraqueiros e corruptos... nossas torcidas matam com rojões, batem com pauladas, assassinam jogando vasos sanitários na cabeça dos outros...o lixo é o sucesso... o esgoto é o glamour... o baixo calão é o humor sem limites... a falta de classe é a sinceridade... o racismo é a hipocrisia fantasiada de igualdade...
E agora, José? A festa acabou, a luz apagou... Você que faz crônicas, que ama, que protesta... E agora, José? Se você gritasse, se você gemesse, se você morresse... Mas você é duro, você não morre, José.
O jeito é fugir a galope, sem cavalo preto, até chegar a Pasárgada. Lá eu sou amigo do rei, tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.
Peguei uma carona com Drummond e com Bandeira. Se você quiser vir comigo, eu também lhe dou carona. Quem não quiser, que fique por aí, fechando o cérebro no canal aberto, acreditando em Copa do Mundo e Fórmula 1... ou mesmo curtindo um funk.