Não posso sair pelas ruas e todos vêm ao meu encontro. Ando recebendo abraços efusivos de gente que mal me cumprimentava. De repente, pessoas que jamais pronunciavam meu nome agora me tratam diferente. Já vi alguns que interromperam ligações no celular especialmente para me saudar com a cara mais prazerosa do mundo. Gente que passava por mim com cara amarrada agora até me lança sorrisos de dentro do carro.
Ontem, uma me parou e me disse que minha contribuição para com a cidade é imensa. (E eu que sempre achei que faço tão pouco pela minha cidade... tão pouco que ninguém nunca havia falado nada!). Há pessoas que passaram a frequentar a minha casa, procuram por mim, dizem coisas de um passado maravilhoso e mágico, de uma infância em conjunto, de pureza, amizade e travessuras... Mas confesso que não me lembro dessas pessoas na minha infância, até mesmo porque não morei nas cidades de onde elas vieram.
E pedem para eu não me esquecer delas... e pedem para eu dar ideias para a cidade ficar melhor... e perguntam por parentes meus que já morreram, mandam abraços para conhecidos que não conheço, elogiam coisas que jamais fiz.
Olhei ao redor e vi que outras coisas ficaram importantes também. Os velórios passaram a ficar lotados. Os defuntos passaram a ser canonizados. As alças de caixão viraram tesouro disputado.
Missas e festividades religiosas... Que bonito ver tanta gente que raramente entrava numa igreja agora rezando, aplaudindo, participando, ajoelhando... Gente comungando, gente carregando bíblia, gente em procissões... a conversão é geral!
De uma hora pra outra, o ser humano descobriu a caridade. E toca homens e mulheres carregando pobres para os hospitais, comprando remédios para os desvalidos, distribuindo cestas básicas, frutas, ovos, legumes, verduras, roupas. O novo tempo chegou.
É bonito ver rostos produzidos e sorridentes espalhados pela cidade, pelos jornais, pelos cartazes. A alegria é a tônica desse novo tempo. Tomara que dure para sempre. Hoje de manhã, uma dessas pessoas que inexplicavelmente se tornaram anjos da cidadania me deu um papel com o seu retrato. Atrás, uma lista de promessas para melhorar a educação, a saúde, a segurança pública. Quanto desprendimento! Quanto amor pelo próximo! Não é à toa que a palavra candidato vem do latim (candidus, isto é, “puro”). Quantos candidatos! Quantos corações cândidos movidos pela pureza das intenções de melhorar a vida dos cidadãos!
Olhei para o papelzinho mais uma vez e demorei-me no sorriso daquele candidato ao desprendimento e ao trabalho social. Sua candura me tocou tanto que eu também quis fazer a minha parte para com a cidade: resolvi contribuir com a limpeza urbana e joguei o papelzinho no lixo.
Novos tempos
12 de Setembro de 2012, por José Antônio