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O santo, o fogo e a caixa dágua

07 de Fevereiro de 2009, por José Antônio

Sabe aqueles títulos de filme que brincam com o absurdo? A volta dos que não foram... O pistoleiro sem dedo... O que o cego Jeremias viu na lua... Pois eu participei de um filme desses: “Incêndio na caixa dágua”!

Talvez o absurdo não seja tão estrambótico. Talvez o estrambótico seja apenas uma lógica da qual ainda não tínhamos tomado conhecimento. Pensando assim, o espírito se acalma diante das esquisitices, não sendo mais preciso surtar, pois o absurdo deixou de ser absurto.

Sábado à tarde. Era dia de uma procissão em Resende Costa. Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu marcamos esse dia para lavar a caixa dágua. O projeto começou a mostrar suas rachaduras logo de manhã: perdemos o ônibus. Ou melhor, eu fiz com que perdêssemos o ônibus.

A desculpa que eu dei pelo atraso foi uma que sempre dava quando pegava carona com o meu saudoso amigo Jósimo: engarrafamento. Mas, engarrafamento em São João del-Rei? Em 1987? Num sábado de manhã? Seria mais fácil engarrafar a nossa caixa dágua num só pote do que engarrafar o trânsito na terra do Tancredo.

Depois de levar um sabão dos dois lavadores de caixa dágua, consegui – por obrigação moral – uma carona para nós três. Era um caminhãozinho velho, data ignorada e marca apagada. Além disso, iria passar pela estrada de terra. Até Coronel, a viagem foi festiva lá na pequena carroceria de madeira furada. Quando pegamos a estrada de terra seca, o estômago virou ioiô nos solavancos e batidas daquela BR (Batedeira Ressequida).

Chegamos às Lajes com a alma amarelada de pó. Depois de um banho – esfregando com Bombril, pois não tínhamos esponja nem bucha –, fomos banhar a caixa dágua. Estávamos limpos e arranhados.

A bem da verdade, nossa caixa dágua era um exemplo de ecologia: algas e lodo mantinham a flora; insetos e um pardal morto garantiam a fauna. Esvaziamos nossa reserva natural pelas torneiras e partimos para o sabão em pó e as vassouras. Depois de tudo lavado, Mário cismou de desinfetar.

– Como? – indagou o Marcos – não temos desinfetante. Não dá nem pra esfregar com mais capricho.

Pensei no Bombril, mas fiquei quieto.

Num relâmpago de sabedoria, Mário desceu do terraço e voltou trazendo uma garrafa de álcool. Aderimos à sapiência pragmática do Mário e enchemos a caixa dágua de álcool. Quando o fósforo desceu, uma explosão surda se ouviu, acompanhada de um clarão. Bem na hora em que a procissão passava em frente ao nosso beco.

– Viva! – gritaram os fiéis, agradecidos por aquela manifestação luminosa de devoção.

A procissão passou e saímos de trás da caixa dágua. O sino tocava festivo, a banda acertava nos acordes, os fogos espocavam na praça. Lá no beco, o ritual era outro: eu levava baldes de água para o Mário, o Mário tentava apagar o incêndio na caixa dágua e o Marcos se livrava das chamuscadas no próprio rosto. Absurdo? Quem sabe havia uma lógica inocente em tudo isso?
O povo rezava e a gente xingava. As preces subiam e a água descia. A vela ardia e a caixa torrava. Lá do andor, o santo olhava para o povo e para o beco. Do povo, ele levava os louvores. Do beco, apanhava algumas gargalhadas para levar para o Céu e fazer os anjos rirem.

Comentários

  • Author

    A gente imagina a cena direitinho. Muito boa.


  • Author

    Sempre leio sua coluna.Gosto muito.Essa superou!
    Exelente!


  • Author

    Mais uma de nossas proezas em Resende Costa.
    Adorei!


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