26 de janeiro de 1986. Todo mundo olhando para cima na esperança de que algum anjo aparecesse. Mas os anjos choravam por trás da fumaça, espiando a explosão do ônibus espacial “Challenger”. Os sete tripulantes morreram. E daqui de baixo, todos ainda olhavam para cima sem enxergarem nada, sem encontrarem nada, sem entenderem nada, pois o que se desenhava no céu dos Estados Unidos era a náusea dos rabiscos do absurdo.
Quase um mês depois: 17 de fevereiro de 1986. Todo mundo outra vez olhando para cima, na esperança de que nenhum anjo saltasse das sacadas. Incêndio no Edifício Andorinhas, um edifício comercial e velho, no centro também velho do Rio de Janeiro, exposto às tentativas heróicas do corpo de bombeiros que trabalhava com material também velho. Mais mortes, mais gente queimada, anjos saltando sem asas pelas janelas e se arrebentando contra o cimento da calçada, espirrando sangue em ebulição. E daqui de baixo, todos ainda olhavam para cima, agora enxergando tudo, encontrando tudo, entendendo tudo, pois o que se desenhava no céu era a pedra cantada do absurdo.
Ainda naquele começo de ano, todos voltaram – mais uma vez – a olhar para cima na esperança de que algum herói surgisse, já que os preços disparavam no Brasil. Apareceram alguns arremedos de economistas, um punhado de dublês de ministros, mas eles explodiam queimados num rabo de foguete. E todo mundo abaixava a cabeça, pois agora nem o absurdo existia mais. Era especulação, agiotagem, roubo, quebras, incompetência... O absurdo ficou pequeno frente a isso tudo.
Mas eis que o presidente José Sarney, aquele que pegou a presidência no susto, pois o Tancredo teve que se afastar devido a um atestado de óbito, mirabolou com uma equipe temerária um plano que proibia que os preços subissem no país. Era a mesma coisa que mandar galinha parar de botar ovo.
E todo mundo voltou a olhar para cima. O Sarney rezando para o Tancredo ajudar. O povo, para ver os preços pararem onde estavam, ou seja, lá em cima mesmo. Os comerciantes pedindo a Deus sabedoria, pois havia dono de supermercado indo pra cadeia só porque tabelou os preços para baixo e o pessoal pensou que ele estava tabelando os preços para cima. E o coitado foi para o xilindró, para também ficar olhando para cima, vendo o sol nascer quadrado.
Foi nesse cenário de explosão, incêndio, prisões, presidente assustado, supermercado e lojas na mira dos fiscais do Sarney que eu e o Toninho Assunção demos a nossa primeira aula em Resende Costa. O Assis Resende estava inaugurando o segundo grau. Lembro-me de que havia uma lanchonete ali em frente ao Bar do Miguel. O dono era o Paulo César (PC), que hoje, se não me engano, trabalha com um táxi.
A fome chegou e resolvemos comer algo ali. Não éramos conhecidos na cidade. Olhares nos acompanharam, reparando em nossas roupas de tecido fino, pastas novas, papéis timbrados, andar sereno e olhar sisudo. Pedimos o cardápio olhávamos de maneira inquiridora os preços, para depois sabermos da comida, pois no aperto a gente lê cardápio da direita pra esquerda: escolhe primeiro os preços e a comida passa a ser detalhe.
E a gente olhava, falava baixo, apontava um preço módico (ainda não tínhamos recebido o primeiro salário), discutia a possibilidade de racharmos um misto quente... O PC olhando desconfiado. Não agüentou e nos lançou a pergunta:
– Vocês são fiscais do Sarney?
O Toninho ficou vermelho e eu vim com a explicação:
– Não, a gente é professor aqui do Assis Resende. É que ainda não recebemos salário algum, pois estamos começando hoje. Aí, a gente está escolhendo uma coisa bem barata.
Tudo terminou em uma efusiva gargalhada dos três. O PC nem cobrou os dois mistos quentes com a coca-cola.
Fomos embora, sustentando a cara e a pose de distintos Ministros da Pindaíba. Olhei furtivamente para trás. O PC recolhia os copos e os guardanapos. Vi que ele olhou aliviado para cima. Ele, sim, viu anjos e harmonia. Nada explodiu em sua lanchonete, nada pegou fogo em seu balcão... o PC não viu o absurdo.
Já em frente à loja do Zé do Duque, escutei uma mulher perguntando lá na lanchonete:
– É gente do Sarney?
Não sei o que o PC respondeu. O Assis Resende apareceu à nossa frente. De repente, explosões! Eram apenas fogos de artifício comemorando não sei o quê. Preferi não olhar para cima.
Os homens do Sarney
16 de Novembro de 2008, por José Antônio