Aniversário da linda Luísa, filhinha do meu amigo Marcos Geraldo. A menina, vestida de princesa, fazia quatro anos. Era uma noite de julho. Como são geladas as noites de julho em Resende Costa!
Causos, anedotas, lembranças, novidades... Reencontrei pessoas, conheci outras, recolhi abraços e conversei muito. Cheguei até a rir. Num determinado momento, todos rodearam a mesa do bolo e entoaram o parabéns pra você. A alegria era geral.
Ainda fiquei por um bom tempo ali entre balões, músicas e conversas. No entanto, aos poucos fui percebendo que me encontrava naquele risco de começar a contar coisas que já tinha falado. Isso é sinal de que o assunto acabou.
Despedi-me e mergulhei no frio lá fora. Como são geladas as noites de julho em Resende Costa!
Andei pela cidade, eram quase dez da noite. Havia festa no Parque do Campo e muita gente se dirigia pra lá. Eu, por minha vez, de novo contra o fluxo do comum e do esperado, caminhava pra onde ninguém se dirigia. Já fui a uma ou duas festas lá no Parque do Campo. Outros tempos, outros sonhos, outras companhias. Tudo tão diferente agora.
As casas me espiavam e as esquinas me espreitavam. Quanta construção nova na cidade! Mas as antigas, tão minhas, tão cúmplices, ainda teimavam em se manter altivas, apesar de algumas me olharem um tanto tímidas.
Um carro barulhento passou por mim, vomitando um som horrível e irritante. Um casal, ali perto do Rosário, discutia bravo e aos gritos. Rostos, pernas, cabelos, vozes e olhares de pessoas que nunca vi na vida. A sombra era eu.
Deslizei por algumas ruas e... ninguém conhecido. Onde estariam aqueles que me recebiam? Onde se escondiam aqueles que comigo cantavam serestas e ilusões? Onde se encontravam aquelas que costuraram tantas vezes comigo o tecido ora alegre, ora triste, mas sempre louco, dos momentos compartilhados?
Talvez bastasse bater à porta de alguém, quem sabe, ali com certeza moraria uma testemunha concreta de tantas coisas que viraram névoa. Resolvi não incomodar ninguém e continuei a minha caminhada só. Como são geladas as noites de julho em Resende Costa!
Peguei o carro e desci a ladeira que leva todo mundo embora da cidade. Passei em frente ao salão do aniversário. Ainda pude ver o Marcos guardando uns presentes no porta-malas. A festa já chegara ao fim.
Lembrei-me da linda Luísa. Tão inocente, tão princesa, tão feliz. Aí eu entendi que o meu coração teima em continuar festas que um dia têm que chegar ao fim. Meu coração é criança que vive se ferindo nas mortes do passado.
Por isso, eu faço da minha crônica uma escrita que, é certo, também vai virar passado, mas continuará sendo festa que não se acaba em cada leitor que ali se vê, e chora, e ri, e sonha, e lembra...