– Ih, moço, eu não tenho troco pra isso aí não.
De fato. Era uma nota de 50 para pagar dois pãezinhos. A única que eu tinha.
A moça me jogou os dois olhos pretos e, lá de trás do balcão, falou compreensiva e tímida:
– Paga amanhã. O senhor está aqui todo dia.
E estava mesmo. Só entrava ali para comprar meus dois pãezinhos. Coisa de mais de ano. Um dia, já até aconteceu de eu chegar e a moça embalar, como se fosse um robozinho, sem eu pedir nada, adivinha o quê: meus dois pãezinhos.
Pago amanhã. Questão de centavos, não nego, mas era dívida. Saí da padaria com dois pãezinhos no pacote e um chumbo na consciência.
O dia continuou. Li, escrevi, falei, ouvi, andei, fui, vim, voltei, cheguei... e os pãezinhos na marcação cerrada: Os pãezinhos... não posso esquecer de pagar.
Na manhã seguinte, volto à padaria. A moça dos olhos pretos não estava lá. Comprei meus costumeiros dois pãezinhos e disse que estava devendo outros dois, do dia anterior. A outra moça, que não sabia da história, pegou um caderno e passou o dedo indicador linha por linha, de cima para baixo, numa lista manuscrita com nomes, datas, mercadorias e cifras. Pude ver quando ela parou em algo que deveria ser meu nome. Não quis ser indiscreto, mas não resisti. Li rapidamente o que estava escrito. Ali não estava meu nome, mas uma expressão: Moço dos dois pãezinhos: um pão!
Raspei a garganta, constrangido:
– Desculpe-me, aí está escrito um pão. Na verdade, foram dois. De modo que eu tenho que pagar quatro agora.
Foi aí que uma nova fornada começou na minha cabeça. Tudo bem, era como eu suspeitava mesmo. Eu era conhecido por ali como “o moço dos dois pãezinhos”. No entanto, por que a moça dos olhos pretos, aquela do dia anterior, escreveu “um pão”? Eu tinha levado dois.
Pode ter sido um engano da parte dela. Mas pode não ter sido engano. Será que ela me chamou de pão? No meu tempo de criança, lembro-me das moças se referirem a homens bonitos chamando-os de pão: Fulano é um pão! Ou ainda: Beltrana se casou com um pão!
Quanto a mim, pobre de mim! Pelo que eu saiba nunca fui chamado de pão. A bem da verdade, nunca fui associado a nenhum confeito de padaria... nem mesmo a um tarequinho!!! Quanto mais a um pão!
Um pão! Com certeza, foi engano da moça dos olhos pretos. No entanto, por outro lado, por que aquele ponto de exclamação? Um pão!
Eu me senti uma Cinderela de bigode. Aquele um pão! era como se fosse meu sapatinho de cristal... encanto frágil, algo real e ilusório, perene e volátil. Mesmo assim, conservei o encanto e faço de tudo para que ele não se torne mofado pela frieza da razão.
Moço dos dois pãezinhos... um pão! Quem sabe eu sou mesmo um pão? Se não sou, que bom que ainda sou moço!
Pãozinho e cinderela
11 de Outubro de 2011, por José Antônio
Leitor do JL - 15/10/2011
Suas crônicas são muito boas, Zé! São divertidamente inteligentes. Um abraço, Mário.