Pra começar, a festa nem dele é. O Papai Noel entrou de gaiato no Natal e se deu bem. O Aniversariante fica esquecido e o obeso risonho de barbas brancas posa de pop star com o saco nas costas.
Uns não gostam de limão... outros não gostam de jiló... tem gente que não gosta de samba... mais alguns detestam funk... Ora, eu também tenho o direito de não gostar de alguma coisa. Papai Noel... sei lá, nunca me afinei muito bem com ele.
Pra mim, esse cara é um fintão. Tem menino que pede bicicleta e ganha uma bermuda. Já vi menina escrevendo carta caprichadinha, papel rosa e cheirinho de morango, pedindo computador. E lá vem um fogãozinho com panelinha de plástico.
Isso sem falar nas fintas que o velhinho dá nas criancinhas pobres. Elas também escrevem cartas pro Papai Noel. E é cada presente que elas pedem... E o velhinho nem tchum! Tem criança pobre que pede carrinho e no dia do Natal o pai continua desempregado. Há criança pobre que pede boneca e no dia seguinte a mãe, que abandonou a família, ainda não voltou.
São coisas do bom velhinho. Bom velhinho... bom pra quem? Pros lojistas, é claro. O Papai Noel até pode trazer presentes, mas ele deixa tudo nas lojas pra gente comprar.
Além disso, Papai Noel pra mim é meio sem noção. Dezembro no Brasil: calor rachando o pepino, sol tostando a mamona, seca pra tudo quanto é lado, malária, dengue, febre terçã... e o homem aparece por aqui todo agasalhado, de touca e luvas de frio. Olho pra ele e tenho sintomas de insolação.
Papai Noel brasileiro tinha que ser do nosso jeito. Pra começar, nada de aparecer como se fosse um bombeiro fora de forma. Ele viria de calção e sem camisa, chinelo havaiana e um copo de cachaça. Só mesmo tungado é que ele entraria nessa de entregar presente pra todo mundo. Trenó? Nem pensar. Viria de busão e vale-transporte. Do seu saco, ele tiraria um pandeiro, um cavaquinho e um surdo. Encharcaria todo mundo de pinga. Depois era só mandar um Jingle Bell num ritmo de pagode e estaria todo mundo conversado. Inclusive, teríamos dois natais: um em dezembro e outro em fevereiro.
Não sei quem trouxe o Papai Noel pro Brasil. Devem ser os mesmos que trouxeram o Michael Jackson, o Paul McCartney, o Queen, o Frank Sinatra... Todos esses conheceram o Reino Desencantado de Tupiniquim, mas foram embora depressa. Nunca mais falaram do Brasil. Só o gordo do trenó é que teima em voltar. Vai ver que esses caras do show bizz pagam uma nota rechonchuda pro rechonchudo.
Não é à toa que ele sempre passa no céu com aquela risada irritante: Oh! Oh! Oh! No mínimo, ele está levando algum. Ninguém ri assim com tanto gosto metido num modelito de Polo Norte e tostando na fornalha tropical.
Por outro lado, lembrar-se do Aniversariante é também lembrar-se de que existem injustiças... é lembrar-se do perdão que a gente não dá... das traições que a gente faz... dos amores que a gente amordaça... das guerras que a gente semeia... do agradecimento que a gente não faz... E todo mundo vai preferindo colocar essas coisas todas dentro do saco do Papai Noel pra ele levar embora.
Fica dentro de nós um vazio estranho. A gente quer chorar e não sabe por quê. E lá no céu, alguém ri: Oh! Oh! Oh!
Papai Noel...? Tô fora!
14 de Dezembro de 2010, por José Antônio